quarta-feira, 20 de abril de 2016

10.ª Cilada: o perigo do belo sexo

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


10.ª Cilada: o perigo do belo sexo

o amor proibido

“Amor, nunca te reconciliarás com a razão?”
(Prévost. Manon Lescaut)

Deves embarcar, meu caro amigo, e singrar pelo mar do mundo (a imagem é bem nova!…).
Como outrora o épico Camões, naufragando numa tempestade, salvou heroicamente a sua obra-prima, conseguindo mantê-la, diz-se, fora das vagas, assim deves tu também disputar, contra as ondas do mal, o tesouro da tua inocência.

Cuidado com os tubarões!
Cuidado sobretudo com as sereias!…
No livro dos Provérbios está escrito:
“A prudência te guardará, para te livrar
Da mulher leviana que usa de palavras melífluas:
Pois ela atira-te a morte,
E o seu carinho leva ao inferno;
De quantos vão ter com ela, nenhum volta”.
(Pr. 2-11 e seg.)
“Os lábios da desconhecida destilam mel,
E sua boca é mais agradável do que o óleo.
Mas no fim é amarga como absinto,
Afiada como espada a dois gumes.
Seus pés descem para a morte.
E seus passos seguem diretamente para a morada das sombras.
Agora, ó filho, ouve-me
E não recuses atenção às palavras de meus lábios;
O teu caminho seja afastado dela
E não te aproximes às soleiras de sua casa…
Por temor, que roube… a flor da tua juventude…
Com receio de que venhas no fim a chorar”.
(Pr. 5-3 e seg.)
“Os sábios conselhos te livrarão da mulher perversa,
E da língua açucarada da desconhecida:
Em teu coração, sua beleza não encontre atrativos,
Não te deixes seduzir pelos seus olhos:
Pois que pela cortesã, o homem fica reduzido a um bocado de pão…
E lhe dá tudo o que tem em casa”.
(Pr. 6-23 e seg.)
“Põe-se a seguir esta mulher,
Como o boi que vai para o matadouro…
Como o louco, correndo, ao suplício de seu cárcere,
Até que um dardo lhe traspasse os rins,
Como ave que vai cair na rede,
Ignorando que lá está o perigo de sua vida”.
(Pr. 7-22 e seg.)

Os mesmos conselhos dá o livro do Eclesiástico:

“Não saias ao encontro da mulher cortesã,
Com receio de caíres em suas armadilhas.
Não fiques muito tempo com uma cantora
Com medo de seres tomado pela sua arte.
Não demores teus olhares sobre uma donzela,
Com receio de seres castigado por causa dela.
Não te entregues às mulheres perversas,
Com receio de que venhas a perder os teus bens,
Não percorras com os teus olhares as ruas da cidade,
E não divagues pelos sítios ermos.
Afasta os teus olhares da mulher atraente,
E não olhes com curiosidade e não te apegues à beleza que engana.
Muitos se deixaram seduzir pela formosura da mulher”.
(Ecli. 3-9 e seg.)

* * *
Muitos foram seduzidos…
Em muitas mulheres a astúcia de serpente se avantaja grandemente à simplicidade de pomba.
Deves, pois, fugir delas como de uma serpente: “tamquam a facie colubri”.
Em muitos casos a verdadeira responsável é a jovem, que se presta completamente à paixão do jovem (ele poderia pouco, se ela tudo lhe recusasse): por vezes ela é que de fato é a provocadora.
Não foi José que tentou a mulher de Potifar, mas a mulher de Potifar que tentou a José. Não se precisa ir até aos faraós para encontrar mulheres deste jaez…
São carinhosas e traiçoeiras.
Dentes alvos, alma negra.
O coração delas tem mais truques do que uma maquinaria de teatro.
“Ah! exclamava uma delas: eu é que se fosse homem, desconfiaria das mulheres!” E acrescentava: “e como zombaria delas!”
Um homem cheio de aventuras amorosas, não chegará nunca a medir-se com uma dela na arte de astúcias: porque aí ela se acha como em terreno próprio.
E tão grande é, por vezes, a astúcia feminina que, quase daríamos razão à exclamação selvagem de Sapho, quando o velho escultor Caoudal soube que João Gaussin tinha abandonado a sua amante.
“O escultor teve um riso feroz.
Bravo! estou contente! Vinga-nos, meu pequeno, vinga-nos dessas brejeiras… E que essas miseráveis chorem lágrimas de sangue.
Tu nunca lhes farás tanto mal quanto elas nos têm feito!”
A condessa de Tramar escreveu um livro que, aliás, se destina a mulheres bem-educadas e honestas e que tem por título: O breviário da mulher.
Em 1903 já estava na 72.ª edição!
Ouvi:

“É necessário conquistar esse império (sobre o homem): e tanta é verdade que todos os artifícios de que se servem as mulheres, todos os esforços de faceirice, de habilidades, de diplomacia, todas as novidades da moda, não têm outro fim senão o de fazer-se admirar e adorar”. (pág. 107).
“É indispensável saber empregar os meios necessários a este gênero de desportos: o inimigo é desconfiado. É necessário táctica, variar os processos, estudar os artifícios e manhas: é uma ciência complexa a que devemos usar; não abandonando nada ao acaso, visando sempre o alvo, não somente para conquistar, mas para conservar o conquistado, coisa aliás, por vezes, mais difícil… é, numa palavra, a mulher em toda a sua função de mulher, em seu grande e elevado papel de seduzir”. (pág. 108).
“Pode-se alcançar pelo estudo, a manifestação exterior de sensações que não são reais (que cinismo). O espelho é o mestre por excelência podendo-se adquirir esta ciência profunda, de uma expressão fingida, muito diversa daquilo que realmente se experimenta”. (pág. 109).
“A astúcia corre para auxiliar aquelas que não foram tão bem aquinhoadas: está reservada à perspicácia das mesmas conhecer, no instante propício, as armas que há de usar: a indiferença altiva, o bom humor, o luxo, a malignidade, tudo isto pode, à medida da psicologia masculina, servir de armas soberanas, para tal conquista”. (pág. 55).
“A mulher tem sempre um mistério que ela jamais deve revelar”. (pág. 55).
Eis o que se poderia chamar: franqueza da dissimulação feminina e sinceridade da sua hipocrisia!…
Admirem, como pano de amostras, e epígrafe dos capítulos:
“Os ardis femininos” (pg. 108).
“A expressão dissimulada” (pg. 109).
“Armas de combate” (pg. 119).
“A sedutora” (pg. 112).
“Para enganar” (pg. 114).
“O requebro” (pg. 118).
Não há dúvida que este livro de uma mulher, para as mulheres, é grandemente instrutivo para os homens!
É utilíssimo para que possam penetrar neste arsenal, onde elas ocultam as suas armas secretas e aqueles dardos com que elas alvejam o coração!
Costumam além disso as mulheres, até as melhores, ser impressionáveis, inconstantes. Mentem elas? Não ousaria afirmá-lo. Melhor será dizer-se que elas têm convicções sucessivas… São sobretudo finíssimas diplomatas, e sobremaneira hábeis para chegarem aos seus fins.
Santa Teresa punha de sobreaviso o seu provincial, o Pe. Graciano, em carta de 1.º de setembro de 1552.
“Recebei meu Padre, esta carta. Permiti-me que vos dê um aviso: É que nunca vos fieis em mulheres… quando observardes vivacidades nos seus desejos; pois a vontade de os levarem a cabo, lhes fará imaginar cem ações más que elas, aliás, julgam muito boas”. (Vida de Santa Teresa, por uma Carmelita).
— “Meu Deus, como os homens são tapados! exclamava uma mulher. Dão grandes punhadas na mesa, ao dizerem: “quero”. Nós lhe respondemos: “tem razão… pois não…” E depois nós levando-os com jeito, por meio de rodeios e de umas tantas lerias, conseguimos tudo quanto desejamos. E o mais bonito é que eles não acabam de entender que nos obedecem”.
E quanto às cartas!…
Grande é a diferença das cartas de um homem e as de uma mulher.
Na carta de homem, logo desde o princípio, se veem franca e definitivamente expostas a sua ordem ou sua repreensão, seu desejo ou sua indignação.
Quereis conhecer o verdadeiro objetivo de uma carta de mulher? Geralmente é necessário procurá-lo só lá pelo fim dela. O que precede, não é mais que uma estudada preparação como trabalhos de aproximação.

* * *
Acautela-te, amigo, das que, semelhantes a antiga feiticeira Circe, têm o dom terrível de fazer os homens bestas e de torná-los “homens-porcos”.
Encontram-se por toda a parte: na patinação, “fazendo avenida”, nos espetáculos; nos teatros, em salas de “recepções”, nos armazéns anexos às lojas dos barbeiros e das tabacarias, nos hotéis, junto às estações, junto às escolas superiores e quartéis, em casa de “quartos mobiliados”, nos bairros de estudantes e principalmente em cafés servidos por moças para onde os acadêmicos, já toldados, arrastam um “calouro” para festejarem o bom êxito de alguns exames.
Muitos jovens se respeitariam se estivessem a sós, e por vezes, só cometem o mal arrastados pelas seduções do ambiente.
A alma das multidões, pequenas ou grandes, não é, muita vez bastante nobre.
Desconfia das enfeitiçadas (melindrosas), de seus sorrisos, e também das suas lágrimas.
É uma astúcia, entre elas, em voga.
Custam-lhe tão pouco as lágrimas!
Quando um homem as derrama, é sua alma que chora.
Quando uma mulher as derrama são, por vezes, só os olhos que se umedecem.
Chora ela (não muito afinal, para não arruinar os rebiques e artefatos do rosto), e de suas lágrimas fáceis e sem consequências, saem mais frescas do que a relva ao depois de um bom chuvisco.
Acautela-te. Pode-se aplicar ao jovem estes versos de Vítor Hugo a uma jovem:

Um espelho é primeiro o amor, cara donzela,
Onde mirar-se gosta a mulher vã e bela
E s’inclina sorridente;

Depois como virtude quer do coração
Expulsar o vício, e a corrupção
E a torna pura, excelente.

Depois um pouco desce, resvala o pé e cai.
Nas bordas ter-se quer, do abismo ao fundo vai
P’la água, em remoinho movida!… …

O amor encanto é, puro, mortal! Sê descrente!
Também tonta criança vai às margens da corrente
Remira-se e cai, deixando a vida.

As relações de um homem e de uma mulher, quando esta é gentil e aquele atrevido, nunca foram bem definidas: a vontade feminina fica sempre à mercê de uma surpresa, assim como a vontade masculina, está sempre em risco de uma brutalidade.
Há um recinto obscuro e recôndito dos sentidos, em que os mais firmes propósitos se desfazem e se fundem. A familiaridade física chega então depressa!” (P. Bourget. L’Étape).
Não te entretenhas em apartes prolongados: as sombras são sempre propícias a enredadas confidências. As trevas fazem desaparecer a delicadeza que felizmente salvaguarda muitos moços e donzelas. Não é evidentemente este motivo de timidez, uma virtude sobrenatural: mas vale, porém, essa consideração, embora de ordem natural, do que não ter alguma, e aqui é mister lançar mão de qualquer meio, contanto que seja honesto.
Acautela-te dos namoros (flirt) que são como umas escaramuças do amor que P. Bourget muito bem qualifica de: “diversão perigosa, de amor sem amor,[1] de pecado de senhoras honestas, de prazer de negacear com o perigo, de amizade voluptuosa”.
O namoro é um estado de equilíbrio instável, sempre arriscado a um trambolhão, de um ou de outro lado.
De ordinário dão em nada essas diversões amorosas: às vezes, porém, os instintos fazem prevalecer os seus direitos.
Bem se importam eles, duros e indomáveis como são, de nossas resoluçõezitas de salão! Hei de caçoar e divertir-me com os meus sentidos, diz a virtude que não quer ceder e o vício que se não sacia nunca. Eis senão quando, desperta o animal no homem, e com ele todos os furores do orgulho e da sensualidade rompem à uma.
Namoro! perigosa diversão de esgrima em que, muita vez a espada, embora embotada, abre feridas mortais.
Não se tinha em vista, a princípio, mais do que um brinquedo alegre e terno.
Mas o comparte toma, por vezes, o brinquedo a sério e entra em cheio.
E então que decepções!
Pode alguém ter o direito de divertir-se com a felicidade duma outra alma?
Jovem honesto que te envergonharias roubar cem francos, não terás vergonha de roubar o coração duma inocente menina?
Todo o sobredito tem aplicação a cem, a mil… a um sem número de seres humanos…
Acautela-te, amigo, e não só da mulher, mas também da adolescente.
A partir da idade em que a menina toma posse de seu sexo, também o amor troca de natureza, é já viril.
A menina ainda com os cabelos esparsos sobre os ombros, pode ser esperta na arte de tentar.
Já conhece os artifícios do adereço. Ora está claro que a moda feminina tem, sobretudo, em vista seduzir o homem.
A mulher só se enfeita para o homem.

* * *
Desconfia! Se estivesses a par das confidências dos moços, ficarias admirado ao ver como os romances das quedas juvenis, quase não sofrem variações.
É sempre a eterna história de Adão e de Eva!
Ela a tentá-lo. Ela a apresentar-lhe o fruto proibido. Ela a dizer: “é bom para comer, agradável à vista e de bonito aspecto… Tomou-o e comeu, e deu-o também ao marido, que estava com ela, e ele comeu também”. (Gen. 3-6).
Adão: és tu.
Eva (ou filha de Eva): Tu a conheces.
Também conheces o fruto proibido!
Moço tresloucado, suspiras: “Minha história é um drama misterioso e grande demais para se contar”.
Cada uma das tuas palavras, é inexata!
Em primeiro lugar: não é “tua” esta história, mas de todos os que, como tu, miseravelmente caíram: a história é idêntica!
E depois o tal drama não é “misterioso”, é antes claro e mui simples.
E enfim, não é comprido: é tão curto que t’o vou recordar em duas palavras:
Quisestes imitar as aventuras de Sansão e de Dalila.
Sim, uma Dalila nefasta penetrou em tua vida, e, como a primeira, tirou-te a força.
Jovem infortunado, como se esvaiu já para ti o entusiamo doutrora, a altivez juvenil, os ardentes anelos pela virtude, os generosos impulsos de moço!
Tudo para ti sossobrou, por causa de uma infeliz!
Enervaram-se as energias da vida e a nobreza da alma!
Esterilizaram-se a inteligência e a atividade!
Não és mais do que um pobre efeminado.
Hércules esquecia os seus trabalhos quando ouvia, embevecido, os cantares de Omphala. Hércules — o guerreiro indomável, fiava numa roca aos pés de Omphala!… Oh! isto não são fantasias da mitologia! É pura realidade, e sempre está a repetir-se.
Tasso narra, em sua Jerusalém libertada, que, nos tempos das cruzadas, a pagã Armida, conseguia fazer adormecer os mais valentes cavaleiros.
Quantos jovens, também eles chamados às cruzadas do bem e do belo, se deixam dominar pelos “encantos de Armida” e ficam enervados nos “jardins de Armida”.
E tu vais ainda, como tantos outros, renovar a história de Armida ou de Omphala? Entrar para a carneirada dos fracalhões, dos macilentos, joguetes do amor, nesta época em que, mais do que nunca, a Pátria pede jovens robustos e corajosos?
“Como! uma pátria abandonada… sofistas em todas as cátedras, infelizes em cada canto, orgias por toda a parte, tristes lamentos, e ruínas… e, na expectativa de acontecimentos sinistros, iremos nós, menosprezando tão grandes problemas, debruçar-nos sobre a taça do prazer, a cantar loas aos pés duma mulher? e quando o inimigo nos tentar assaltar ou o infeliz implorar de nós socorro, nos hão de encontrar dormindo entre uma taça esvaziada e uma mulher sem amor?
Não, mil vezes não! Necessita-se algo de mais elevado, de mais nobre para os homens: um ideal, uma espada para combater; e que essa carneirada de amadamados, de ambiciosos, de egoístas engorde bem, se assim lhes aprouver no gozo de todos os prazeres da terra…
Nunca, porém, o homem que de Deus recebeu o magnífico dom de uma alma e de uma inteligência terá, mormente hoje, o direito de desprezá-lo. Nunca Deus mais claramente falou à liberdade humana: a postos, necessito de vós”. (Veuillot. L’honnêt homme).
Cuidado com as tentadoras.
Clemente de Alexandria, no seu livro O Discípulo, descreve-nos o esplendor dos templos egípcios. “Se, tomados de espanto, por tão grandes maravilhas, pedísseis para que vos mostrassem a imagem do deus, era cuja honra se edificara aquele templo rico e majestoso, e se então algum sacrificador viesse desvendar o mistério, um sentimento amargo de desprezo, tomaria em vossa alma o lugar da vossa primeira admiração: o deus poderoso, a magnífica imagem que muito desejáveis ver, não passa de um gato, de um crocodilo, de uma serpente ou de qualquer outro monstro semelhante.
Não é acaso a perfeita imagem destas mulheres cobertas de ouro… de faces vestidas de arrebiques, de sobrancelhas impregnadas de cores?
Se vísseis a realidade deste outro templo, se os vossos olhares penetrassem através dos trajes de púrpura, daquelas joias e daquelas pinturas, e entrassem até ao mais íntimo de suas almas, o que então veríeis, vos causaria nojo e horror!”



[1]             P. Bourget. Phys. de l’amour mod. pgs. 131, 132, 138, 145.
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