sexta-feira, 18 de março de 2016

ATAQUE - Parte XI

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


8.ª Cilada: as “amizades particulares”

Nos internatos, onde os jovens vivem em íntima convivência e onde não encontram o derivativo normal da família para a expansão de suas ternuras, é muito comum aparecer, entre eles, aquelas relações sentimentais e perigosas a que chamamos: “amizades particulares”.
Dão-se elas, geralmente, dum mais velho para um mais moço.

O caminho inverso é raro, porque a amizade desce e quase nunca sobe.
A afeição especial, de que aqui falamos, não sendo em suma, mais do que o amor da mulher, desviado do seu rumo, supõe no objeto dele, encantos que relembram, o outro sexo com falhas de beleza masculina, a não ser olhando-a por esse lado um tanto efeminado.
Será vítima daquela amizade o adolescente imberbe (imberbe ou cuidadosamente escanhoado, é indispensável), um tanto mole e feminil, lembrando uma flor cuja haste franzina pede arrimo; quando pelo contrário nenhum atrativo despertará o latagão rubicundo, o vizinho colega…
As amizades particulares podem, como se expressa S. Paulo, “começar pelo espírito e acabar pela carne”. (Gal. III-3).
Em seu curso normal, costuma passar por três fases: primeiro angélica, depois humana e finalmente diabólica. No começo serão inocentes diversões. Depois começam a aparecerem as brincadeiras, as tolices, os versinhos amorosos e os presentinhos: hoje, as imagens de piedade; amanhã, as gulodices; depois d’amanhã, símbolos ordinariamente de corações feridos, de mãos entrelaçadas de pombinhas beijando-se sob uns raios de sol ardente… Depois sobrevêm as confidências mútuas, as tentações impuras.
Finíssima astúcia da sensualidade, ou ingenuidade semiconsciente que imagina um pretexto religioso para se entreter em conversações delicadas!
Arvoram-se em confessores…
Improvisam-se em médicos… É este o meio de entrarem em intimidade e de receberem confidências. “Não sou eu o teu médico? Ao médico nada se oculta”.
Confessor e médico, é ainda pouco. Procura-se outro estratagema: Tu és meu irmão. Tratemo-nos inteiramente como irmãos. Muita coisa se disfarça nestas palavras: “inteiramente como irmãos”.
Esquecem, porém, só uma coisa: havendo os irmãos de viver num íntimo contato entre si ou com suas irmãs, infundiu Deus no coração humano, para que estas relações não fossem um contínuo perigo moral, um pudor e uma restrição naturais.
As relações entre irmãos, entre irmãos e irmãs, podem ser muito ternas e sem embargo serão sempre mui puras de tenções ilícitas.[1] É verdade que o vício pode, por vezes, transpor esta lei profundamente em nós gravada, mas tal perversidade ou aberração, verdadeiramente animal, causa horror até mesmo aos que a praticam.
O Dr. Lefévre, na Revista de questões científicas de 1877, escrevia: é Deus que quer esta “pura e suave intimidade entre os filhos duma mesma família, vivendo uns ao lado de outros, durante os anos mais agitados da vida”.
Santo Agostinho, na Cidade de Deus, nos apresenta duas grandes causas que obstam a que o apetite sensual convirja para membros duma mesma família: “não só para multiplicar, em bem da fraternização humana, as relações com outras famílias,[2] impedindo se procedam de uma só estirpe, mas ainda para que haja um nobre instinto de pudor, que refreie a violência das paixões em presença de pessoas que o parentesco nos obriga a respeitar”. Mas essa salvaguarda da circunspeção instintiva, não existe com relação às “amizades particulares”.
Quando o coração acha-se dominado por elas, fará com que se multipliquem as familiaridades, as imprudências, mais ou menos graves que podem ocasionar culpas merecedoras do fogo e do enxofre de Sodoma e de Gomorra.
S. Francisco de Sales, tão atilado e tão manso, escreveu na sua Introdução à Vida Devota o capítulo 18 “dos namoricos” masculinos ou femininos, e julga dever voltar ao mesmo assunto, nos capítulos 19, 20, 21 e 22.
“Acabem os tais com isso de se desfazerem em saudades, suspiros, requebros e outras semelhantes ninharias e vaidades”. Nada de tudo isto “está isento de grandes perigos”.
“As enfermidades do coração parecem-se com as do corpo; chegam a cavalo e pela posta, mas voltam sempre a pé e a passos lentos”.

* * *
Iludem-se dalgum modo, mormente ao princípio, sobre a natureza destas relações com o interessado… interessante…
Com muita graça, dizia José de Maistre: “o coração conta histórias ao espírito”. E assim é que explicam a persistência de certos olhares, dizendo: “Este adolescente é gracioso. Gosto de olhá-lo demoradamente, por gosto estético. Haverá pecado em contemplar, pelo gosto da estética, uma encantadora paisagem, uma bela ânfora?”
Confessa que há nisto uma grande diferença.
Nunca tu serás tentado a pecar com uma linda paisagem ou com uma bela ânfora!
— “Encanta-me nele o viço da mocidade!”
Não! o companheiro que lhe está ao lado e a quem a natureza foi avara, que tem um nariz chato, e os cabelos ruivos, é também jovem, e contudo tu não sonhas com ele, não escreves seu nome nas cascas das árvores… A verdade é que tu não amas a mocidade, mas a mocinha e, na falta dela, te agarras ao mocinho que mais fielmente a representa.
— “Mas amo aquele menino por ter uma bela alma!”
Simplório!
Se as bexigas ou a tinha o desfigurassem, havíamos de ver se ainda o amavas do mesmo modo! E contudo a sua alma continua sendo a mesma!…
A sua alma será ainda a mesma aos 60 anos, e conservarás tu ainda a mesma chama de amor?
Os escrofulosos, anêmicos e doentes podem ter uma alma admiravelmente bela.

Bem mal feito
E sem jeito
É meu ser.

Nem de inveja
Digno seja
Tal viver.

O aço é nobre,
Vil o estojo
Que a alma encobre,
Ser precioso.

Ora, tens tu para com os que têm corpos de segunda qualidade mas alma de primeira, as mesmas “amizades particulares”?
A afeição ou amizade, é de natureza bem diversa do amor (o amor feminino transviado) de que nos ocupamos.
Como poderemos discernir estes dois sentimentos?
O Pe. Vermeersch dá-nos mais de um critério:

o amor exige a posse absolutamente exclusiva.
a amizade admite a comparticipação de outros, embora limitada a um número restrito.
o amor nasce, de preferência, da simpatia física.
A simpatia física não basta à amizade, nem é necessária, suficiente, nem absolutamente exigida.
o amor nasce, de súbito: um olhar, um encontro furtivo determina o “cair do raio”, embora a “incubação” haja precedido a declaração desse amor.
a amizade vem pouco a pouco, à medida que se vão revelando as qualidades morais.
o amor dá-se entre caracteres opostos, um que domina outro que obedece, um forte outro fraco.
a amizade tem preferência lugar entre moços do mesmo carácter e da mesma idade.
o amor é irrequieto.
O amor pede declarações repetidas, e depois basta-lhe a linguagem muda. É ciumento: ocasiona rixas, alternadas com reconciliações sucessivas, que lhe reanimam a chama. As brigas dão-se só pelo prazer da reconciliação.
a amizade é serena, desinteressada e tranquila.
A amizade está menos sujeita a estes incidentes. É tão pouco cioso que os amigos até servem de confidentes.
o amor revela-se por meio de bilhetinhos.
a amizade ou nunca ou poucas vezes.
o amor extingue-se pela ausência, pois a causa física não mais atua.
Com a amizade não se dá isto.
o amor desperta um certo escrúpulo.
a amizade não.
o amor leva a escrever, por toda a parte, o nome do amado.
a amizade não.
o amor vive ansioso por ver, abraçar, apertar a mão. O tato exerce um papel saliente.
a amizade não.
o amor afeta um certo ar de mistério, procura ocultar os sentimentos e alimentá-los em segredo.
a amizade não.
o amor facilmente provoca pensamentos e movimentos maus.
a amizade não.


[1]             O mesmo se dá com o mais terno dos filhos para com a sua mãe.
[2]             A respeito dos casamentos entre consanguíneos, consulte-se: Dr. Lefévre. Révue des quest. scient.
         Dr. Jorel, professor de psiquiatria em Zurique: La question sex.
         O P. Vermeersch. De Cast.
         Segundo o novo Código, promulgado no dia de Pentecostes do ano de 1917, tendo força de lei no dia de Pent. de 1918, o 4.º grau de consanguinidade já não é impedimento de matrimônio.
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