quinta-feira, 17 de março de 2016

ATAQUE - Parte X

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


7.ª Cilada: as leituras

“A orientação dos maus livros é uma espécie de dinamite moral”. (P. Bourget).

Não teríamos o mau gosto de submeter a uma segunda prova a vossa coragem voltando a tratar o assunto das leituras, se, de todos os lados, não ouvíssemos:
“Conhecemos bem essas orientações.
Quiséramos alguma coisa mais prática.
É o que certamente ficará mais gravado na memória.
Depois de tantas regras, seria para desejar um pouco de documentação…
Citações ou exemplos, sendo possível”.
Sim, é possível, muito possível. Vamos a isso.
Mãos à obra.


* * *
Uma jovem acabara de ler “A Nova Heloísa”. Dirigiu-se à praça central de Genebra e junto de um monumento fez saltar os miolos, e o sangue da infeliz, salpicou a estátua do autor do livro: J. J. Rousseau.
O caso causou forte sensação, porque o sangue vermelho correra na praça.
Nos dramas secretos de uma alma, ocasionados pelas más leituras, não corre o sangue vermelho, mas a fé e a inocência se esvaem por irremediáveis feridas.
“Qual…. história! dizem os céticos: não se trata de feridas! São simples picadas de alfinetes!”
Picadas d’alfinetes sendo no coração equivalem a golpes de espada!
Depois da Guerra de 1870, declarava humilhado um deputado da esquerda, Balisseaux, em pleno parlamento: “Quando depois da vergonhosa derrota de Sédan se abriram as mochilas alemãs, encontraram-se Bíblias; nas mochilas francesas havia só romances, e que romances!”
Ponho em dúvida a veracidade da primeira parte: pois sabemos que a virtuosa Germânia, durante a guerra, não punha só Bíblias nas mochilas… A Escritura Santa estaria em bem estranha companhia com umas tais especiarias e pastilhas incendiárias.
Quanto à segunda parte, asseguram-nos que em mãos desses pobres rapazes, em tanto risco de morrerem, nas suas trincheiras, se viam “romances e que romances!” Muitos daqueles volumes muito bem teriam merecido a “epígrafe para um livro condenado”, escrita por Baudelaire, nas suas “Flores do mal”!

Leitor sereno, poeta
Simples, sóbrio e bondoso
Aventa o livro asqueroso,
D’horrores cheio e d’orgia!
Não estudando retórica
Co’ o astuto Satanás
De entendê-lo és incapaz,
Ou crês que eu sofro histeria.

Para Baudelaire esta epígrafe, bem como sua “oração a Satanás” e suas “ladainhas de Satanás” não são provavelmente, mais do que uma fantasia. Mas em muitos autores é terrível realidade.
Senão, vejam-se as consequências! Em França a “Gazeta dos Tribunais” (n.º de julho de 1921), narra o seguinte diálogo entre o presidente do júri e os assassinos de um negociante de modas, em Clichy:
— Como se despertou em vós a ideia do crime?
— Líamos juntos um romance, narrando a história e o plano de uma morte seguida de roubo.
— Quanto tempo foi a vossa leitura anterior ao crime?
— Oito dias, mais ou menos.
A publicação do tal romance começara no “Jornal de Família” a 22 de julho e terminara a 6 de dezembro. O assassinato dera-se a 15 de dezembro.
Em junho de 1874 ia ser fuzilado um soldado francês chamado Bonard.
Atirara ao Sena um guarda de polícia e cometera vários outros crimes. Preparou-se cristãmente para morrer, e antes de cumprir a pena capital declarou: “Morro cheio de confiança em Deus a quem já pedi perdão de meus crimes. Fui grande criminoso, mas há homens ainda mais criminosos do que eu: são os escritores, os redatores de maus jornais, que me perderam inspirando-me o desprezo à religião e à revolta contra toda autoridade”.

* * *
“Preferira que fosseis incapazes de ler a lerdes coisas contrárias a integridade dos costumes”.
Quem proferiu tal sentença?
Algum pobre padre fanático, direis sem hesitar, algum pobre vigário que não vê a dois dedos do nariz!
Não! foi um pagão: Quintiliano.
“Seria preferível que fosseis incapazes de ler…”
Selecionai, pois, vossos livros.
Estiola-se quem respira um ar viciado.
Enerva-se quem vive numa atmosfera abafadiça, como sob os eflúvios de um “taepidarium” romano.
Robustece-se respirando o ar salgado e regenerador do mar, porque nos dá logo ao chegar uns haustos que oxigenam bem os pulmões e dilatam o peito.
Estas espécies de atmosferas, lembram-nos os três meios literários, em que nos podemos encontrar: o nocivo, o efeminado e o sadio.
Detestai o primeiro.
Temei o segundo.
Estimai o terceiro.
Mais vale o livro, que retempera a vontade, do que aquele que atordoa a sensibilidade.
Acautelai-vos contra as obras desenvoltas de que os Goncourt diziam: “A nossa literatura está assente sobre uma enfermidade de nervos…!”

* * *
Estou daqui ouvindo já exclamações como estas:
“Vedes o perigo com óculos de aumento!” Não são essas leituras livres as que hão de fazer mossa em nossas convicções, ou em nossos costumes”.
Talvez não seja logo assim às pressas…
Mas também as fendas costumam anteceder a ruína dos muros. Águas abertas dão começo aos naufrágios.
Toda a falha representa, em nossa vida espiritual, um interstício por onde se escapam e se desperdiçam alegrias e merecimentos de muito valor, assim como por uma fenda imperceptível se esvazia, pouco a pouco, o conteúdo de um grande reservatório.

* * *
Pequenas causas produzem, muitas vezes, grandes efeitos.
Observai o trabalho das termitas.
Certas leituras causariam em vós efeitos idênticos aos das termitas preparando, no oculto das trevas, a ruína de vossa alma.

* * *
Voltai ainda a atenção aos males que durante a guerra causava uma gotazinha de “iperita”. Passava quase despercebida sobre a mão ou sobre o rosto e, no entanto, produzia horríveis chagas!
Muitas leituras geram no nosso coração os efeitos da gota de “iperita”!
— “Sou forte, não as temo!”
Também a árvore copada é forte, todavia quando a larva lhe broca o âmago, apodrece e cai.
— “Má leitura? grãozinho pelo vento transportado”.
Não! “A pequena semente de abeto, que o vento atira à fenda de uma rocha, é que mais tarde, a há de partir”. (A. Leleu. Éducation et enseignement).
“Dei-me a leituras arriscadas, e sem embargo não me atolei”.
Geralmente é pouco a pouco que a gente se atola e se enlisa.[1]
Caro amigo, certamente terás podido lançar os olhos por aquela passagem de V. Hugo reproduzida nas antologias: “o enlisamento” e estou certo que, com a memória felicíssima que se tem nessa idade a saberás de cor.
Lembras-te dela! Aplica-a a ti mesmo.
Eu, confesso-o, lembro-me dela sempre ao ver enlisarem tantos infelizes jovens! ou quando servindo-me da expressão de Julio Vallès, “à mão desses infelizes voltava febrilmente a última página corruptora em cima do lodaçal onde iam parecer”, ou “em cima do lençol de lama em que se iam amortalhar”.

* * *
Esse enlisamento fatal da alma de um jovem, em razão das más leituras, está admiravelmente descrito no livro acima já citado: “A Lei de Caim”.
“O estranho presente de Lefort fizera avançar tremendamente a Henrique em sua educação moral.
— Tu, nunca leste este livro estou certo disto!
— Eu! tornou-lhe Henrique, espantado. Não é um romance de Zola?
— É, pois não!
— Oh! exclamou Henrique num sobressalto de franca indignação, não é permitido ler semelhante livro! E mordeu, envergonhado os lábios. Mas era já tarde; e uma explosão de riso se seguiu à confusão do infeliz.
— Ah! Ah! Ah! Mamãe não consente que a senhorinha leia romances?
— O que é que a senhorinha leu? interrogou o outro.
— O livro da Imitação?
Era esta uma bela ocasião de se mostrar indignado, e de reaver sua independência por uma dessas afirmações formais e categóricas que tapam a boca aos mais atrevidos. Mas para isto precisa-se uma coragem bem temperada, que as almas vulgares não têm.
— Ora essa! deixem-no em paz, que diabo! troou com a sua voz rouquenta Lefort.
O livrinho há de chegar-lhe às mãos para desempoeirar a criança. Não é culpa sua; foi educado por capuchinhos.
Na mesma noite encontrou Henrique sobre sua mesa o livro corruptor, capeado de papel marmoreado para lhe dar aspecto de autor clássico.
Que fazer! perguntou a si próprio, agitado e pensativo.
Recusar o livro seria provocar uma tempestade de remoques, e ter que aguentar com a alcunha de senhorinha, de clerical, e não sei que mais títulos! Não seria talvez mais político dar uma vista d’olhos pelo romance? Leria só um pouco, muito pouco, em doses homeopáticas… E assim, iludindo-se a si mesmo, lá se arriscou o pobre rapaz a uns relances de olhos furtivos pela cloaca.
Leu algumas páginas e fechou o livro desalentado; depois vacilante entre o temor e a curiosidade despertada, retomou-o, fechando-o em seguida para o abrir de novo… Em suma, Henrique leu o livro com desgosto sim, com temor, mas leu-o afinal.
A flor estava murcha, o espelho embaciado com bafos pestilenciais”.

* * *
Quando se fala de imprensa, é sempre muito pouco o que se pode dizer: não é já o livro, é sobretudo o “jornal” que perdura na defesa do bem ou do mal. É a mais formidável máquina de guerra!…
Certo jornal tem uma tiragem de um milhão de exemplares.
É portanto uma metralhadora despedindo, diariamente, um milhão de balas!
Vários jornais de Bruxelas têm uma tiragem de cem mil cópias. Cem mil balas!
A melhor browning só tem sete balas. O melhor fuzil de repetição dispõe de seis.
A Dernière Heure afixa cartazes pelos muros de Bruxelas, afirmando ser sua tiragem diária de 140.942 exemplares.
A ação do jornal é além disso triplicada, quadruplicada pelo fato de o mesmo exemplar passar sucessivamente por três, quatro e mais mãos.
Se fosse possível representar em forma de plano estratégico a ação do jornal!
Os fios aéreos do telégrafo e os trilhos das grandes artérias ferroviárias estão à disposição das redações, para lhes trazerem notícias do mundo.
Centenas de fios convergem para este escritório central, qual centenas de nervos que vão ter ao cérebro. Depois vem a contracorrente, a estação postal receptora da manhã, torna-se estação emissora da tarde, e do mesmo organismo central partem milhares doutros fios, pelos quais voam rápidas as notícias boas ou corruptoras.
Uma carta geográfica representar-nos-ia este delta, esta intrincada rede de fios, que parte dos escritórios do jornal e vão cobrir cidades e vilas para novamente voltar. Por toda a parte, por todos os sítios, mais recônditos, penetram estas folhas em que vai impresso o pensamento humano.
Paulo Deschanel, no banquete oferecido à Associação dos jornalistas parisienses, a 28 de março de 1920, exclamava: “Meus caros confrades: tendes em vossas mãos a mais poderosa e a mais terrível das armas: a pena. Certamente vos recordais das palavras de Henrique Heine: uma gota de tinta caindo, como orvalho, sobre um pensamento o fecunda, fazendo germinar o que depois irá fazer pensar a milhares e talvez a milhões de homens”.
À imprensa poder-se-ia aplicar o que da língua disse Esopo: vinte séculos ao depois da era cristã tem ainda aplicação a estas, como que línguas de papel, as palavras pronunciadas seis séculos antes de Cristo:
Não há nada melhor! não há nada pior!
Para demonstrá-lo, poder-se-iam aduzir cinquenta fatos comprovantes… para não dizer cem… ou mil…


[1]             Enlisar e enlisamento não têm, que eu saiba, um termo que em português lhe corresponda. Só pela seleta francesa, quando criança, tive conhecimento destes casos tétricos em que a pessoa ainda cheia de vida se sepulta no lodo ou areia movediça, sem remédio.
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