quarta-feira, 16 de março de 2016

ATAQUE - Parte IX

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


6.ª Cilada: o cinema

Ou antes o “cine”… a não ser que abreviando-se mais, se venha a dizer o “ci”, só, mais nada. Não temos mais tempo de dizer, cinema: nesta nossa vida trepidante, tudo corre tão apressado!…
— “Pode o cinema ser empregado em serviço da virtude?”
“Pode”, pois não…
Mas, na prática? Muitos mais filmes se exibem, não é verdade, de Salomé, dançando, do que S. Luiz de Gonzaga, orando.
As heroínas das fitas são Marias Madalenas… antes porém, da conversão! e S. João Berchmans é bem insulso ante Landru, estrangulador de mulheres.
Existem bons cinemas, é inavegável, até favorecidos (talvez a título de se evitar piores) por membros do clero.

Mas a mor parte!…
Atentai nos títulos!
Examinai as figuras dos reclamos!
— Os Padres da Igreja verberaram, sem piedade, o teatro.
O que diriam eles, os Padres, se, voltando ao mundo, assistissem as corrupções dos cinemas!
Naquele ambiente tudo é favorável à culpa: a escuridão, os aplausos que, mais audaciosos nas trevas, acentuam as passagens licenciosas, a companhia, a fita, muito mais perigosa do que qualquer leitura.
Ler um romance de Zola, supõe o tempo (e paciência!) para se percorrerem 500 páginas. Ora no cinema a percepção é rápida e intuitiva, pois basta abrir os olhos.[1]
No livro, a ação é narrada.
Na tela, a ação é praticada.
Não há simplesmente o recitativo, há a imagem movimentando-se, com a precisão mecânica do gesto, a ponto de nos dar a perfeita ilusão da realidade.
Ver, é ler duas vezes.
A psicologia mostra, com evidência, que a narrativa produz, na mor parte dos espíritos, uma “tensão fraca”, ao passo que a representação, quase sempre produz uma “tensão forte”. Ora uma tensão forte, tende a produzir o seu esfeito e, se o não produz é porque foi levada de vencida e sobrepujada por faculdades superiores ou por imagens concomitantes, de maior ou de igual força; pois é lei que: toda a tensão fraca é subjugada pela tensão forte, que lhe é contrária.
Uma imagem excitante é impulsora, e é seguida da correspondente ação, que dela se desprende como de uma árvore o seu fruto, quando já maduro.
Tem isto aplicação para todos, mas especialmente para a criança, mais imitadora e mais impressionável do que os adultos.
“Quem te sugeriu a ideia de te fazeres cabeça de uma quadrilha de gatunos”, perguntava o comissário de polícia de Puteaux, a um bandido, ainda moço, Renato Fournel?
— “O cinema…” (Écho de Paris, 28-XII-920).
Daqui se deduz que não é permitido insinuar na alma, sobretudo das crianças, imagens contrárias aos atos que elas devem praticar.
Se os pais viessem a saber que a seus filhos se dava um curso de imoralidades, como ficariam horrorizados! Ora certos cinemas, não são, porventura, verdadeiros cursos de imoralidade?
E contudo certos pais verdadeiramente cegos, dizem: “Estuda bem, filho, porque esta noite iremos ao cinema”.
Tem juízo, minha filha, à mesa, que hoje iremos assistir ao “superfilme”, a “Atlântida”.
Equivalentemente é como se dissesse: Sê bem criadinha, esta tarde, à mesa, e como recompensa, terás um veneno para a tua alma; estuda bem meu filho, e terás o que é mau para ti, e poderás ir àquela casa donde saem os menores nervosos e viciosos.
É do que mais gostam as crianças, ávidas de emoções fortes! Em vez de excursões pelos campos, donde tornariam com os pulmões oxigenados, vão estiolar-se em salões malsãos para o corpo e para o coração.
Apaixonam-se estes pobres jovens desequilibrados pela fita policial e pela fita sensacional.[2]
Quanto à eficácia do cinema para a formação intelectual das crianças, bem sabemos já que valor tem.
A experiência mostrou que o cinema desprezando o esforço mental, substitui o raciocínio viril pelo quadro fácil, os olhos ao espírito.[3]
Isto já não é educar, mas simplesmente amontoar representações e imagens, sem o trabalho da generalização, sem o esforço para achar a causa, a finalidade, sem aquela codificação que, sob forma de leis, se eleva acima dos fatos e vem a constituir a verdadeira ciência.
Aos frequentadores do cinema pode-se aplicar o que Malebranche escrevia no seu “Tratado de moral”: aquele que se limita a observar, contentando-se com as suas imaginadas riquezas, despreza o trabalho da atenção. Estes espectadores recusam-se de granjear o “patrimônio” de saber para as suas almas e não se resolverão “a ganhar, com o suor da fronte, o pão para sua alma”.

* * *
O cinema tornou-se uma mania.
Dão-se apertões às portas de entrada.
Infelizmente não acontece o mesmo à porta das igrejas para assistir às Vésperas e à santa Missa. Talvez haja a mesma multidão, comprimindo-se à entrada?
O povo não terá dinheiro bastante para obter um lugar no teatro, nem mesmo nas galerias, mas sempre tem alguns tostões, para ir ver uma fita.
O cinema é o teatro dos pobres.
E assim, embora a vida esteja cara, o cinema não deixará de ser um alto negócio!
Uma estatística, atualmente de muito aumentada, nos informava que os cinemas da Bélgica passavam em cada sessão de duas horas, três milhões de metros de fitas. Um cinema de Bruxelas ofereceu este ano a um artista 25.000 francos anuais, para, durante as sessões diárias, tocar o piano.
Grande há de ser a receita desse cinema para assim poder remunerar o tal artista.
Num belo artigo sobre o cinema (publicado nos “Études” de 25 de outubro de 1921) apresenta-nos L. Jalubert estes algarismos muito instrutivos:
“Existem, atualmente, no mundo 60.000 salões destinados ao cinema. Os Estados Unidos levam a dianteira com 25.000 cinemas. A Inglaterra conta 4.000, a Alemanha 3.000 e a França 2.000.
Paris só por si conta uns 320 salões a que se devem juntar mais 180 dos arrabaldes. Perfazem 120 a 150 milhões os metros de fitas que giram, diariamente, nas máquinas dos seus cinemas.
Calcula-se em 600 milhões de francos os capitais empregados pelas empresas cinematográficas.
O truste ou capital mundial dos cinemas disporia de uns 15 bilhões de francos: o que quer dizer que no comércio mundial, o gênero “cinema” ocupa o terceiro lugar, logo ao depois do trigo e do carvão”.
Um rapaz muito meu conhecido, morre de amores pelo cinema.
Eis o seu horário domingueiro:
7 horas da manhã: Missa e Sagrada Comunhão.
12 horas da manhã: Orações antes da comida.
3 horas da tarde: Conferência de S. Vicente de Paulo.
5 horas da tarde: Vésperas e benção do Santíssimo.
9 às 11 horas da noite: Cinema perigoso.
Como se chama este rapaz?
Chama-se: “legião”.


[1]             Na epístola dos Pisões, chamada impropriamente Arte Poética, nota Horácio que as percepções visuais são mais impressionantes do que um simples recitativo:
   “Segnius irritant animos demissa per aurem
   Quam quæ sunt oculis subjecta fidelibus et quæ
   Ipse sibi tradit spectator”.
         Propunha assim Horácio, cinquenta anos antes de Cristo, o princípio do cinema, e lhe analisava os efeitos.
[2]             Além de que a fita representando uma peça de teatro ou algum romance despertará a curiosidade de examinar a peça ou o romance. A 27 de março de 1914, P. Deschanel presidindo o banquete da Câmara sindical francesa de cinematografia, dizia: “Quando vossos espectadores admirarem na tela uma obra-prima, o Cid ou Fedra, despertar-se-á neles o desejo de ir vê-la no teatro.
         Quando se representarem os Miseráveis de V. Hugo, a venda nas livrarias crescerá espantosamente”.
[3]             XX Siécle, sept. 1919. L’echec du fil instructif.
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