sexta-feira, 4 de março de 2016

ATAQUE - Parte IV

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


O perigo para todos

A defesa é sempre regulada pelo ataque.
O essencial é, antes de se iniciar o combate, conhecer os planos do inimigo para lhe frustrar a tática. Daqui vem, durante a guerra, a grande importância dos aviões de reconhecimento e das patrulhas de exploração. Todos os meios usaram os alemães para alcançarem vitória: os “42”, as bombas incendiárias, os terrenos minados, a guerra química mediante gases asfixiantes, epispásticos, esternutatórios, lacrimogênios.
Também o demônio lança mão de todos os meios para nos perder: os “42” dos grandes ataques, bombas incendiárias de manifestações ardentes, esses princípios deletérios, que são para ele outros tantos “gazes asfixiantes”, o terreno minado de relações perigosas.
A estratégia de Satanás é fecunda em ciladas e em estratagemas bélicos.
Caro jovem, vamos apresentar-vos aqui algumas destas multíplices ciladas:

1.ª Cilada: as conversações


As conversações! o escolho clássico das reuniões da juventude!
Sê inabalável.
Não te importes.
Não escutes.
1.º Não te importes.
Um livro, que ninguém taxará de hipócrita, “Sapho”, diz: a imoralidade “propaga-se, queimando o corpo e a alma, à maneira dos archotes, de que fala o poeta latino, que corriam de mão em mão pelo estádio”.
Pensa que com ela correm risco muitas almas: a tua e a daquele ou as daqueles com quem falas.
Com tais conversas pecas e és causa de outros pecarem.
A culpa pessoal já é coisa deplorável! Mas a culpa com outro!… Quem sabe? Será para ele, quiçá, o primeiro anel duma cadeia que, afinal, o vem prender ao inferno.
Há de ser peso insuportável à consciência, no leito de morte, lembrar-se ter sido causa de tentação ou talvez de perdição de uma alma. “Ai daquele que der escândalo”, dizia o divino Mestre.
Um homem fica inconsolável, por haver durante uma caçada ferido de morte um seu amigo.
Aquele, que pelas suas palavras, concorre para a perdição de um companheiro, não mata inadvertida mas conscientemente.
Não é já um homicídio por imprudência mas por perversidade.
“Que as palavras desonestas sejam banidas da vossa boca”. (Col. 3-8).
“Que nem mesmo se ouça dizer que há entre vós, fornicação, impureza de qualquer sorte, nem concupiscência… Nada de palavras nem de galanteios nem de gracejos grosseiros: todas coisas que são indecorosas… Porque, tende-o bem presente: nenhum impudico, nenhum desonesto, terá parte no reino de Cristo e de Deus.
Que ninguém vos iluda com enganosas palavras, pois é por tais vícios que a cólera de Deus vem sobre os filhos da incredulidade.
Não tenhais relações de espécie alguma com eles”. (Ef. 5-3).

* * *
2.º Não lhes prestes ouvidos:
Mas aqui aparecem as tais objeções.
— “Para este gênero de conversações, a consciência já está formada”.
Formada ou deformada?
— “Não podemos contudo trazer sempre algodão nos ouvidos”.
Evidentemente, não: ouvistes por ventura que os pregadores ordenassem trazer algodão nos ouvidos? Mas podes pelo menos não provocar essas conversações picantes, nem entretê-las com perguntas curiosas, etc…
— “Com certeza, hão de taxar-me de carola”.
E Deus há de chamar-te corajoso.
Mais vale este tão soberano juízo.
— “Chamar-me-ão capuchinho, o que incomoda; ou pior ainda: jesuíta”.
E tu lhes responderás: Tenho muita honra nisso! Prefiro lograr tão boa companhia, no céu.
— “Que pensarão de mim?”
Hão de te admirar.
Apelo para ti mesmo. Na intimidade, os moços conhecem-se muito bem mutuamente.
Pois bem: quais são os colegas verdadeiramente estimados, aqueles a quem tu, em ocasião crítica, sendo preciso, irás pedir um conselho sério?! Aqueles a quem todos verdadeiramente respeitam? Quais são eles? Serão acaso os covardes, que escondem a sua bandeira, no bolso (e neste caso já não é uma bandeira mas um lenço de assoar), ou aqueles que se dizem e são católicos? Os que o são à valer e “descaradamente” com diria L. Veuillot, mas que por outra parte não têm esse pudor assustadiço, que imaginam, serem tudo gracejos traiçoeiros; que confundem conversas grosseiras com as conversas más, sem saber adotar um gênero de conversação alegre e sã.
Os jovens detestam um trato arisco e pesado que dá ocasião a tornar-se a virtude objeto de zombaria.
Procura, pois, pelo contrário (este ponto é muito importante) tornar a religião simpática, mediante o apostolado da alegria.
Um jovem educado não só pôde ser alegre, mas para sê-lo terá cem razões mais que os outros. A única nostalgia permitida a um cristão é a do céu.
Não conheço textos na Sagrada Escritura que nos recomendem a melancolia; são muitos, porém, os que nos recomendam a amabilidade e a alegria.
“Regozijai-vos no Senhor, sem cessar: regozijai-vos, repito”. (Fi. 4-4). “Vivamos sempre em alegria”. (2.ª Cor. 13-11). “Andai sempre alegres”. (1.ª Tes. 5-16). “Vosso coração se alegrará e ninguém arrebatará a vossa alegria… Que a vossa alegria seja perfeita”. (Jo. 16-22), “Bem-aventurados os puros”. (S. 118).[1]
— “Mas hão de perseguir-me”.
Sim se ficardes sozinho, sem formar com outros amigos um grupo decente contra o grupo sujo. Sim, se tomardes atitude de santo gótico, de que acima falamos.
Não, se conservares a devida naturalidade, se fores divertido (porque não?) e bom companheiro.
Ouve: dezenas e dezenas de acadêmicos me afirmaram: “Basta ter coragem nos dez primeiros dias. Observam-nos. Se os dez primeiros dias nos fazemos respeitar, não mais nos inquietam e, por vezes, nos confessam: Muito bem. Isso é que é ter carácter!
Se, pelo contrário, cederdes, acabou-se!
Começais por uma fraqueza, por uma complacência que, aliás, só vos granjeou desprezo! E então já vos será muito difícil a reabilitação e fazer recuar a máquina”.
Não tenhais medo!… “Os maus, dizia Mons. Darboy, bispo e mártir, só são valentes, porque os bons são covardes”.
Sim, covardes!
Quanto mais se estudam os jovens, mais claramente se nota que os moços dos colégios cristãos se deixam arrastar pelos maus, sobretudo por causa do respeito humano.
O respeito humano é que os leva a gabarem-se, às vezes, de certas “aventuras felizes”, quando realmente elas não passam de umas criancices bem arquitetadas e que a sua famosa “garçonière” não passa de um bairro onde se refugiam, para cautelosamente se furtarem a olhares perscrutadores.
Felizmente o viver destes jovens vale muito mais daquilo que dizem de si mesmo. São fanfarrões do vício unicamente por se envergonharem de parecer virtuosos, mas não compreendem — pobres infelizes — que, até quanto a granjearem a estima, que tanto ambicionam, tudo teriam a ganhar, se se mostrassem lógicos, quanto às suas convicções.
Santamente orgulhosos se deveriam antes mostrar por serem batizados, confirmados e participarem do augusto Sacramento do altar, na sagrada Comunhão!
Um rei possui um único diadema. Um cristão tem tantos quantos forem os Sacramentos recebidos.

* * *
Muito bem deveria conhecer o coração dos jovens o autor que, no livro Lei de Caim[2] narra a história de Henrique Sigean, bom mas covarde rapaz, que por respeito humano não teve a devida coragem de evitar as más conversas.
“Soara enfim a hora do recreio. Por todos os lados se formavam pequenos magotes, que de braços dados iniciavam o vai-vem, virando como é de uso, da direita para a esquerda…
Enquanto o nosso jovem se achava hesitante sobre a escolha, achegaram-se a ele o sarcástico Maillard, ladeado pelo seu inseparável Lefort.
— Vamos, quando acabarás de ser lampeão de esquina? disse-lhe o primeiro. Chega-te mais a nós, meu santinho matriculado…
— Ah! meu mimoso filho… vem conosco, acrescentou o outro: vem conosco, ferrenho clerical: não somos tão maus como nos pintam. Dá alguns passos conosco.
E tomando, imperioso, por um braço a Henrique, enquanto Maillard o tomava pelo outro, o arrastam para o meio dos grupos, que já começavam a celebrar o caso com risos.
Era o tal Lefort um gordo e corpulento rapaz, verdadeiro capataz da rapaziada colegial.
Era uma figura chata, sem expressão, sem graça na forma e de olhar zombeteiro, malicioso e incerto. Dir-se-ia um apático, sem ares de insolência escarnecedora, amoldando-se as circunstâncias, tal a sua fisionomia.
De tais sujeitos, votados embora ao bem, nada há que esperar. Para levar os homens ao que é nobre, generoso e heroico, requerem-se ideias nobres, coração magnânimo, linguagem ardente, e unção penetrante.
Para ser alguém corifeu de estroinice ou de corrupção não se precisam esses brilhantes predicados. Basta o cinismo, a grosseria, uma boca exercitada a vomitar injúrias, sarcasmos, e isto com muita naturalidade, sem cólera, sem esforços, eis tudo.
Com tão rico cabedal já podem contar com a popularidade e também com as covardias secretas e as baixas e lúbricas cumplicidades do vulgo.
Nada mais fatal para o carácter de Henrique. Lefort não o fazia exasperar tanto como Maillard, com seus ataques diretos. Fá-lo-ia, sim, chafurdar, pouco a pouco, zombando da virtude, sem paixão aparente, infundindo-lhe untuosamente a infâmia, como sendo um produto muito natural do coração humano.
Henrique tinha um sentimento vago do perigo. A mesma palavra “civilizá-lo”, lhe soava mal aos seus ouvidos castos.
Mas que fazer? Deixara-se arrastar pela roda, pelo espírito de camaradagem… A conversação atolava-se, sem que houvesse meio de a desatolar.
Os dois amigos pareciam ter cada um, a seu modo, um gosto especial em atormentar a pobre criatura, que lhes caíra nas mãos.
Pavoroso escolho das conversações juvenis são, realmente, essas fanfarronadas de impureza! Por toda parte continua produzindo os mesmos deletérios frutos: o rebaixamento das almas, a morte do ideal, o aniquilamento do pudor. Contra este mal, insurgem e lutam os piedosos educadores pela vigilância, pelas salutares diversões de exercícios musculares e sobretudo pela religião, cujo freio possante e nobre, sofreia os corações ardentes e fecha os lábios às palavras dissolutas. E mesmo assim, não chegam nem podem impedir todos os males.
Oferecem, todavia, a todos, até mesmo aos carácteres pusilânimes e fracos, a possibilidade de se libertarem do mal, se tiverem alguma boa vontade”.
Teve Henrique Sigean, já pervertido peias conversações licenciosas, uma entrevista com Aloerto, jovem de carácter e sobranceiro a qualquer sombra de respeito humano.
Começou Henrique a querer desculpar as suas fraquezas.
— Tu não és já tão criança que não tenhas ouvido mofar da religião!
— Está claro! Mas podes estar certo que todos esses parlapatões, sem respeitar-lhes as condições saíram bem escovados. Essa raça de gente conhece o cristianismo, como um tambor conhece a astronomia. A força de que eles dispõem está só na audácia do arremesso e no pavor das suas vítimas. Ora eu nunca tive medo de tais carantonhas.
— Tudo isto está muito bem, mas para isso seria necessária a natureza de ursos.
— De nenhum modo! O que se precisa é ser homem e ter carácter.
Henrique inclinou a cabeça, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e baixou os olhos para o chão. Estava pensativo, subjugado por uma força moral, que se revoltava contra a sua humilhante covardia.
É necessário ter carácter… murmurava ele, como falando consigo: é muito bonito dizê-lo.
— Mas a força irresistível do trato jovial… Será possível a esses moços insinuantes opor-se uma cara de lata?
— Ora o que é que até hoje fiz? Quando podia, impunha silêncio, forçava a ter vergonha quem tentasse intimidar-me. E, quando não podia apartar-me nem fazer que se me guardasse respeito, ficava escutando impassível. Mas pelo menos nunca, a tais baixezas, cheguei a dar a esmola de um sorriso, ou sinal de aprovação.
— E não te incomodaram?
— Sim, um chasqueador tratou-me de senhorinha, mas eu lhe mostrei logo os punhos da senhorinha ao nariz… e daí por diante tratou-me de: “caro amigo”.


[1]             Por um motivo parecido é que as donzelas cristãs devem trajar com bom gosto. A modéstia não as condena ao espetáculo esquisito de modas antiquadas ou rústicas. Não seja pois a religião, para o jovem, sinônimo de enfado, nem para jovem, sinônimo de fealdade.
         Ele deve rir, ela deve trajar-se bem.
[2]             Seth. La loi de Caïn.

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