quinta-feira, 3 de março de 2016

ATAQUE - Parte III

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


Alguém praticou por tal forma um mal; pois bem: daí por diante, será tentado desse modo e muito mais do que sob qualquer outro.
Muito se ilude quem pensa achar-se já curado completamente do seu mal: a cada um dói a sua cicatriz![1]
Paul Goy, em seu livro Pureza Racional, chega a afirmar que “as tentações não são mais do que excitações, previamente, consentidas”.
A afirmação não é rigorosamente exata, porque quem nunca consentiu, também pode ser tentado. Mas força é reconhecer que existe uma admirável “memória dos sentidos”,[2] e que o homem conserva, em razão do psiquismo rememorativo, uma terrível propensão para repetir a culpa especial que ele, uma vez, cometeu.

Feliz, muito feliz, quem nunca chegou a cair.
“Por isso mesmo que nunca sofreu alguma queda é que para ele o caminho não está franqueado para o mal. Não o assaltam aquelas representações importunas, nem aquelas funestas associações nervosas, que são o fruto de antecedentes quedas e que o inclinaria poderosamente para novas quedas”. (Guibert. La Pureté).
Justiça imanente das coisas!
Triste herança da culpa!
Será castigado por aquilo mesmo com que pecou!

* * *
Esta verdade tem uma aplicação notável, no caso de haver cúmplices.
Quando a nossa culpa se deu com alguma pessoa, nunca mais essa pessoa ficará, para nós, idêntica às demais pessoas.
E por quê? Uma cadeia indissolúvel ligou as duas imagens: a da pessoa cúmplice e a do tal crime.
Daqui nasce o princípio: para com o cúmplice o homem ficará sempre débil.
E o fenômeno repete-se ainda mesmo quando os cúmplices se tornam velhos.
Passaram-se muitos anos após aquela complacência culpável. Agora somados subiram a 80 anos! E por vezes mais…
Parecem esquecidos! Transmitindo e projetando um para o outro as recordações do passado, encaram-se mutuamente ainda por curiosa ilusão óptica, com os mesmos olhares de outrora.
Tudo quanto outrora ocupara a memória e a sedução dos “amores de então”, ficaram tão profundamente gravados que, apesar da idade, não podem achar-se juntos sem grave perigo.
Os que sinceramente estão resolvidos a não mais cair, reconhecem por vezes que, nestas visitas imprudentes, os mais firmes propósitos, inopinadamente se esvanecem.
“Como se funde a cera ao contato de um braseiro”.
A verdadeira tática não está em querer lutar, quando a ocasião se apresenta, mas em evitar a ocasião.
É o caso único, talvez, em que a valentia está em fugir!

* * *
Resumamos este capítulo: Cada um tem as suas “associações de imagens”, muito pessoais, cada um tem o seu temperamento físico.
Seja a conclusão prática: devemo-nos conhecer.
“Conhece-te a ti mesmo”, dizia a inscrição do templo de Delfos.
Não se adquire, porém, este conhecimento senão estudando-se.[3]
E muitos estudam-se tão pouco! Têm perscrutado tudo o mais: a história dos velhos faraós, a geografia do Japão; apaixonam-se, como Flammarion, por conhecer se os planetas são habitados ou não. E, à boca cheia repetem aos quatro ventos, como a revista moderna: “Sei tudo”.
Tudo!… exceto a si mesmos.
Que grande anomalia!
Saberiam dizer-vos qual era o ponto vulnerável dos exércitos de Haníbal, mas não saberiam apontar-vos qual o lado vulnerável do próprio coração.
Interessam-se pela Ursa Maior por Marte e Sírio, sondam os céus; jamais, porém, penetram no próprio foro interno.
Podemos crer que estudaram seriamente a composição dos terrenos primário e quaternário; somente não estudaram a fundo a própria consciência.
Possuem as ciências paleontológicas, egiptológicas e outras, ignoram, porém, a ciência moral, e vivem à superfície da própria alma, mui alheios de si mesmos.
Conhecem o universo, mas vivem na mais completa ignorância de si mesmos.
A pré-história é-lhes familiar, mas a própria história é-lhes um livro inteiramente fechado.
É para ver como decifram os palimpsestos e os hieróglifos, mas não se decifram a si mesmos!
Cuidam mais dos fósseis e dos mamutes, que de si mesmos.
Leram muitos e muitos volumes! Mas nunca abriram um livro de psicologia: as Máximas de Joubert, o O Governo de si mesmo de A. Eymieu, o Guia dos nervosos o dos escrupulosos de Raymond, os Nervosos de Toulemonde, os Caracteres de L. Sempé.
Seriam incapazes de vos dizer se o próprio temperamento é nervoso, sanguíneo, bilioso, linfático, ou qual seja a combinação dos temperamentos que formam o conjunto da própria individualidade.
E no entanto, caro amigo, para procederdes bem, é mister conhecer-vos bem.
Podeis dizer-me quem nos mostra a necessidade deste exame?
O demônio.
Bem conhece ele a importância da psicologia, e envida por isso os maiores esforços por estudar-vos intimamente; mas, ai! para perder-vos!
Assemelha-se, diz Sto. Inácio, nas suas “Regras para o discernimento dos espíritos”, ao capitão que procura descobrir o lado mais fraco da praça para, por ali, dar o assalto.
Satanás, “imita o capitão, que tenta tomar uma cidadela. Dispõe o seu campo, considera as forças e a disposição da praça, e ataca-a pelo lado mais fraco. Assim procede o inimigo da natureza humana. Vigia, sem cessar, ao redor de nós; examina por todos os lados cada uma das nossas virtudes, teologais, cardeais e morais, e logo que em nós descobriu o lado fraco, o menos defendido pelas armas da salvação, por ali é que nos ataca, procurando alcançar sobre nós completa vitória”.


[1]             “Não traz porventura a maioria dos homens sempre uma chaga íntima que, em maus dias, se abre de novo?” (H. Bordeaux. Les yeux qui s’ouvrent).
[2]             P. Bouget. Phys. de l’amour.
[3]             Daqui se deduz a utilidade do “Exame de consciência”, ponto de que trataremos mais adiante, bem como do diário espiritual.
         Esforça-te, meu amigo, por tomar cada dia, ou cada semana, algumas notas sobre teu estado moral. Mas mui brevemente e sem o menor requinte literário, porque não escreves para a posteridade, nem para disputar uma cadeira entre os Imortais, mas para ti somente, debaixo dos olhares de Deus. Ser-te-á útil e proveitoso reler a história de tua alma. Assim compreenderás melhor o plano providencial que, talvez, então não compreendias. Faltava-te a vista retrospectiva como ao viandante, que em viagem vai, passo a passo, vendo o caminho, só por partes, mas de um mirante avista todo o caminho, assim tu verás, de um relance, toda a tua vida.
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