terça-feira, 8 de março de 2016

23 — A devoção dos Santos Anjos instrumento de apostolado nas escolas católicas

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


23 A devoção dos Santos Anjos instrumento  de apostolado nas escolas católicas 

“Hoje mais um anjo se foi juntar aos Anjos do Paraíso…” Assim os irmãos de hábito do P. Fernando Jeantier, da Companhia de Jesus, lhe anunciaram a passagem para a eternidade.
Nasceu o P. Jeantier em 1799, na aldeia de Liesle, não longe de Besançon.
Durante o seu longo viver, de 79 anos, todo se empenhara em cultivar em si mesmo e em instilar nos outros a devoção aos santos Anjos.
Foi recompensado nesta vida, na hora da morte. Morreu no dia da aparição de S. Miguel Arcanjo, e, nas orações da agonia, ao pronunciar o sacerdote oficiante as palavras “em nome dos Anjos e Arcanjos, em nome dos Tronos e das Dominações, em nome dos Principados e Potestades, em nome dos Querubins e Serafins”, todo se lhe iluminou o rosto num celeste sorriso. Não puderam os religiosos presentes, que lhe conheciam a vida, reter as lágrimas.

A devoção aos santos Anjos, bebeu-a, por assim dizer, com o leite materno. Ao acordar ensinara-lhe a boa mãezinha a dar os bons dias ao bom Anjo da Guarda com a seguinte oraçãozinha: “Bom dia, meu bom Anjo; a Jesus, a Maria, a José e a Vós me recomendo; como me guardastes nesta noite, guardai-me também neste dia.”
A sua infância foi inocente em todo o rigor do termo. Com vinte anos entrou na Companhia de Jesus, e aí, por quarenta e cinco, se dedicou à formação da juventude. Foi por isto justamente chamado o apóstolo da juventude.
Ora bem, um dos principais instrumentos de que usava para conservar na inocência os jovens e fazê-los crescer na piedade foi precisamente a devoção para com os santos Anjos da Guarda.
Para instilá-la nos seus ânimos aproveitava-se das conversas, das exortações públicas, do tribunal da penitência.
E ainda não contente com isto, empregava na propaganda da sua cara devoção as Congregações Marianas de que foi diretor. Sob a sua perpétua direção estiveram as congregações dos Santos Anjos dos colégios de várias cidades de dentro e de fora da França. Exerceu esse cargo em Sant’Acheul, Friburgo, Passagio, Turim, Bruxelas e Vannes.[1]
Numerosos capítulos de sua biografia desenvolvem este único argumento: as pias indústrias de que se valia para infundir nos seus caros jovens o amor dos Santos Anjos. Exporemos, por brevidade, somente as principais.
Pode dizer-se que não havia festa ou prática alguma de devoção, durante o ano, em que ele não introduzisse oportunamente os santos Anjos da Guarda. Motivo para isso eram as festas de Natal, de Páscoa, as novenas e festas de N. Senhora, o mês de Maio, os domingos de S. Luís. Mas de tal modo agia que não só não desviava o sentido da festividade, mas até o corroborava.
Inútil dizer quanto não trabalhava e conseguia nas mesmas festividades dos bem-aventurados Espíritos. Havia, dentre estas, uma de sua invenção. Colocara-a, com delicada atenção pelos Anjos servidores de Jesus, no início da Quaresma, e visava honrar aqueles bem-aventurados Espíritos, que ministraram ao Salvador o alimento de que necessitara, após o seu jejum de quarenta dias no deserto.
Previdente, o seu maior cuidado era conseguir bons pregadores que preparassem os ânimos, dos seus Congregados para cada uma dessas festividades. Rogava-lhes que lhes falassem viva e eficazmente: dissessem-lhes do melhor modo possível e com as mais claras explicações e comparações que são os Anjos, descrevessem-lhes as ricas roupagens, o formoso aspecto, a dignidade do porte, e enfim os movessem com acesas palavras a uma sólida, íntima, profunda devoção para com eles.
Em seguida era a ornamentação de sua capela o objeto dos seus cuidados. Multiplicava por toda a parte as imagens de Anjos, para que em toda parte, na capela, tivessem os seus jovens diante dos olhos um Anjo de Deus.
E para que os divertimentos do recreio não dissipassem de todo os ânimos, e não fizessem esquecer a grande festividade que se aproximava, colocava nos pátios ou no jardim uma bela estátua do Anjo da Guarda, em cujo pedestal se liam, esculpidas em grandes caracteres, estas palavras: “ao céu!”
Além destas solenidades extraordinárias, havia as práticas comuns de todos os dias. Entre estas tinha lugar principal a Coroa dos Santos Anjos. Constava de várias orações, a maioria em sua honra. Materialmente, tinha a forma de um terço, com uma cruz ou medalha e dezessete grãos, em que se recitavam as orações.
Não é fácil imaginar quanto estimava o P. Jeantier essa coroinha. Era-lhe cara como as pupilas dos seus olhos. Concedia-a aos que julgava dignos dela, e, no momento de a entregar, proferia com grande afeto as seguintes palavras: “Recebe, meu filho esta coroa, símbolo do verdadeiro congregado. Ela será a guarda do teu corpo e da tua alma. Por seu meio, graças à intercessão dos teus santos Anjos da Guarda, merecerás um dia conseguir a eterna felicidade do céu.” E, calorosamente, recomendava a sua diária recitação, aconselhava que a tivessem sempre consigo, que dela se valessem como de ajuda em todo perigo.
Quando se encontrava com algum dos seus jovenzinhos: “vamos, dizia-lhes, arrancai da espada, espada de S. Miguel.” E o compreendiam: puxaram do bolso a coroa dos santos Anjos e a mostravam ao padre.
Admirável o seu zelo durante a Missa que celebrava para os Congregados. Rezado o Evangelho, descia a percorrer os bancos. Todos deviam ter em uma das mãos o rosário de N. Senhora, e na outra a Coroa dos Anjos. Não adiantava esconder-se. Aos olhares do bom padre nada escapava. Ai de quem não estivesse de armas em punho! Fixava-se-lhe, severo, o olhar do P. Jeantier, numa muda mas eficaz repreensão: que vergonha! um soldado sem armas!
Nem tanto trabalho e zelo ficava sem abundante e precioso fruto. De tal forma tinha inculcado a devoção ao santo Anjo presente, que já se lhes tornara um pensamento habitual. Não se encontravam com o padre e não lhe entravam no quarto, quando o iam visitar, sem lhe dizer: “Padre, saúdo o bom Anjo de Vossa Reverência.” Estas palavras, proferidas com sumo afeto por parte dos seus jovens discípulos, provocava no padre afeto semelhante. “E eu, meu filho, saúdo também o teu Anjo.” Esta saudação lhes valia, junto do bom padre, o mesmo que, junto daqueles a que se recomendam, valem os títulos honoríficos às pessoas humildes.
O seguinte fato vem a propósito, e é bem expressivo. Certa feita levou o padre os seus congregados de Friburgo a assistirem não sei que peça de teatro. A certo ponto do drama aparece um trovador, que dirige à janela de um prisioneiro as seguintes palavras de conforto: “Coragem, sim, coragem. Aqui estão teus amigos de sempre.” — Ao ouvi-lo, voltaram-se ao P. Jeantier os Congregados e lhe disseram: Aqui estão os nossos amigos, os santos Anjos, ao nosso lado, sempre! — Tornou-se célebre, entre eles, de então em diante, o estribilho, ou melhor, a paródia do estribilho do trovador… — E como o sabiam do agrado do bom padre, não perdiam ocasião aqueles bons jovens de lho repetir ao ouvido. Alguns, trinta anos depois, ainda lho repetiam em suas cartas.
Fruto ainda mais precioso desse íntimo sentimento da real presença do Anjo da Guarda era o horror, que nutriam, de toda palavra menos honesta, de toda conversa menos conveniente, numa palavra, de todo e qualquer pecado. — “Se para minha grande desgraça, disse uma vez aos companheiros um aluno do colégio de Friburgo, eu viesse a cair em culpa grave, não permaneceria nesse estado cinco minutos sequer. Iria logo ter com o bom P. Jeantier para confessar-me. Pois é assim que se pode viver em paz, disposto ao que der e vier.”
Juntamente com o horror do pecado inspirava-lhes a devoção dos Anjos a prática das obras mais santas. Tornaram-se amigos da oração, dos santos sacramentos, da obediência, do estudo, e até da própria mortificação, na vitória dos seus caprichozinhos e paixões a desabrochar.
Há um capítulo da vida desse grande homem em que se vê como foi profícua para a vida inteira essa suave devoção aprendida, nos tempos de escola, do seu inesquecível diretor de congregação. É o capítulo: “O P. Jeantier e os seus antigos alunos”. Só um exemplo, entretanto, aduziremos.
Um desses felizes e piedosos jovens foi, pois, retirado do internato de Friburgo e adscrito entre os alunos do Liceu de Lion. Era esse jovem um congregado dos mais fervorosos e dos mais devotos dos santos Anjos. Imagine-se qual não foi a sua perplexidade ao entrar pela vez primeira no dormitório comum do seu novo colégio, onde os atos de piedade eram de todo desconhecidos. Por outra parte não achava que poderia deitar-se sem se ajoelhar ao pé do leito, examinar a consciência e pedir a Deus perdão das faltas cometidas durante o dia — tal como o aprendera de sua mãe e fora inculcado pelo seu diretor. A mais, como poder conciliar o sono sem ter invocado a Mãe Santíssima e o santo Anjo da Guarda?
Não é que o impedisse o respeito humano, oh, não! Bem sabia o P. Jeantier combatê-lo e fazê-lo vencer. O que o embaraçava era o pensamento de que iria expor tão belo ato de piedade às risotas e zombarias dos colegas. Que fazer? Resolveu que na manhã seguinte escreveria ao P. Jeantier para dele receber direção. Entretanto não se entregou ao sono sem primeiro ter cumprido com suas devoções e sem ter recitado a coroa dos santos Anjos.
Na manhã seguinte, pois, escreveu ao padre. E o fez em tão belos e comoventes termos que o P. Jeantier, após ter respondido à consulta, houve por bem lê-la aos seus congregados na primeira exortação.
Era esta, a mais, uma das muitas indústrias usadas por ele para o bem espiritual dos seus dirigidos. Não havia bom exemplo, de que tivesse conhecimento, que não anotasse para a edificação dos seus congregados.
E os exemplos de proteção especial usada pelos santos Anjos para com os seus discípulos, ainda com maior cuidado era anotado e com maior calor referido. Não era para admirar que as suas exortações deixassem a todos viva e salutarmente impressionados e como que pendentes dos seus lábios.
É com prazer que oferecemos aos nossos leitores o seguinte trecho de uma de suas calorosas e práticas exortações. “Vede, pois, ó filhos, quem é que tendes todos por companheiros! (e indicava um qualquer para quem todos os olhares se voltavam). Perguntai-lhe a quem seja ele devedor da vida e saúde que goza. À coroa dos santos Anjos. Ainda não faz dois dias que, de Mans, para cá para Vannes se dirigia. Mas uma coisa espantosa lhe aconteceu em viagem. O trem em que vinha chocou-se com outro, e despenhou-se em um precipício. E sabeis que fez ele em tão grande perigo? — Cheio de confiança apertou em sua mão a coroa, invocou o seu Anjo da Guarda, e ficou são e salvo em meio a inumeráveis mortos e feridos.”
De uma outra exortação sua: “Ah!… não seja outra coisa esta casa, ó filhinhos meus, senão um como templo, em que todos os dias ofereçais à Rainha dos Anjos, e a cada um dos novecoros em que se dividem, um tributo de oração e de reconhecimento.” — Era isto, na verdade, o que ele procurava, como vimos, com todas as suas forças, e o que felizmente, pela bondade de Deus, pôde conseguir.[2]


[1]     Duas são as Congregações que costumam fundar-se nas escolas e colégios frequentados por numerosa juventude: a da S.S. Virgem, para os alunos mais adiantados, e a dos santos Anjos, quase que como preparação para a primeira, para os alunos de mais tenra idade.
[2]     Le Père Jeantier ou l'Apôtre des petits enfants, par le. R. P. Xavier Auguste Sejourné de la Compagnie de Jésus. — Poitiers. Oudin Frères, 1880.