quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O santo Anjo da Guarda — protetor da virgindade

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


8 — O santo Anjo da Guarda
protetor da virgindade
 

São as santas Virgens um dos mais belos ornamentos da santa Igreja Católica. Mas ainda mais esplendidamente a adornam as Virgens que ao mesmo tempo que são Virgens são também mártires.
Dentre estas, há algumas de que todo dia se faz menção na santa Missa, a saber: santa Ágata, santa Luzia, santa Inês, e santa Cecília.
Ora, percorrendo as atas de sua santa vida e martírio, vemos que quase todas atribuíam a ilibada candura de sua virgindade em meio aos perigos da vida, à eficaz proteção do seu santo Anjo da Guarda.
“Tenho comigo, dizia a santa virgenzinha Inês, o Anjo do Senhor, guarda do meu corpo.” — “Se me condenares ao fogo, assim respondeu S. Ágata ao juiz, os Anjos lhe mitigarão os ardores com o suave orvalho do céu.”[1]

Célebres são também as palavras que ao esposo Valeriano, dirigiu S. Cecília, com ele desposada. Referia-la-emos no decorrer da narrativa que se segue, e que versa sobre S. Cecília, já que na exiguidade deste nosso pequeno trabalho não cabe falar de todas as santas Virgens.
Veio ao mundo Cecília no seio de uma das mais antigas e ilustres famílias romanas. Conta-se, por exemplo, entre os seus antepassados Caia Cecília Tanaquilla que foi a mulher de Tarquínio o Velho. E entre as honras que os seus antepassados obtiveram, basta enumerar as do triunfo e do consulado, várias vezes obtidas, quer sob a república quer sob o regime monárquico imperial.
Cresceu, pois, Cecília, em meio às pompas e às riquezas de tão ilustre casa. Mas se fizera cristã, e vivia para a vida sobrenatural que recebera no batismo, desprezando as miseráveis pompas desta vida mortal. Era assídua na leitura do Sagrado Evangelho, que trazia sempre sobre o coração, e os seus jejuns eram frequentes. Além disto, ocultava debaixo de suas ricas vestes a aspereza de um penoso cilício.[2]
Dela com verdade se pode dizer que seu coração era todo de Jesus. A Ele tinha escolhido por seu celeste esposo, jurando-lhe perpétua virgindade.
Mas pensavam de outra maneira os seus pais.
Ora em suas relações se contava Valeriano, jovem patrício entre os primeiros de Roma, mas pagão. E os pais de Cecília lho destinaram por esposo.
Já despontava o dia da celebração do enlace, já se ornamentavam os ricos salões de palácio, já um coro de profanos músicos fazia retumbar as galerias com dulcíssimas melodias.
Também Cecília cantava. Não, porém, esses cânticos terrenos que enchiam o seu palácio, mas sim as celestes harmonias, e os angélicos louvores da mansão da Glória: “que intacto, Senhor, se conserve o meu corpo, para que sobre mim não caia a confusão.”[3]
Como de estilo, terminados os festejos com que se celebraram as bodas, ficou sozinha Cecília com Valeriano, e assim lhe falou: “ótimo e dileto jovem, tenho um segredo a contar-te, e desejo que me jures guardá-lo com inteira fidelidade.” Jurou-o Valeriano, e ela prosseguiu. “Sabe, portanto, que tenho um Anjo de Deus como amigo meu, e que este Anjo de Deus vela com suma solicitude na guarda do meu corpo. Pois bem, se ele em ti descobrir amor profano, incontinente se encherá de santo zelo, e com severos castigos te punirá.
Mas se te vir amando-me com casto amor, também a ti, pressuroso, ele receberá sob a sua proteção.”
Respondeu Valeriano, sem ocultar a perturbação que lhe ia n’alma diante de tal declaração: “Se queres que eu dê crédito às tuas palavras, faze que eu veja esse tal Anjo. E se nele eu reconhecer, verdadeiramente, um Anjo de Deus Altíssimo, farei de boa vontade o que quer que ele se dignar indicar-me.”
“Valeriano, replicou a piedosa donzela, se o que ajuizei merece em ti acolhida, se crês naquele Deus único, que vivo e verdadeiro reina no alto do céu, e se tu aceitas seres lavado naquela água que jorra da fonte da vida, poderás ver o Anjo que sob a sua proteção me tem.”
Acedeu o jovem às palavras de Cecília e transportou-se às catacumbas, onde encontrou o santo bispo Urbano,[4] e lhe deu a conhecer o fim de sua vinda. Chorou o santo bispo de alegria. “Senhor Jesus Cristo, exclamou em seguida, autor de castos pensamentos, recebe o fruto da divina semente que por ti foi posto no coração de Cecília. Ó bom Pastor, Cecília, tua serva, como industriosa ovelhinha, já cumpriu com a parte que lhe confiaste. E eis que este seu esposo, que ela recebeu como um feroz leão, transformou-o a tua ovelhinha em meigo cordeirinho. Não me teria, oh não, não me teria ele procurado se já o lume da vossa fé lhe não brilhasse na mente. Completa agora a tua obra, ó Senhor, e faze com que dê ouvidos às vozes que lhe bradam no íntimo d’alma, que ele por Criador seu te confesse, e renuncie às loucas superstições do gentilismo.”
Enquanto assim orava o bispo, eis que se lhes junta um venerando ancião, trajando vestes cândidas como a neve, e empunhando um livro todo escrito em caracteres de ouro.
Era Paulo, o Apóstolo das gentes.
Voltando-se para Valeriano lhe disse: “Lê as palavras deste livro e crê; assim merecerás contemplar o Anjo de quem te falou a fidelíssima virgem Cecília.”
Tomou o livro Valeriano e leu o seguinte passo: “Um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, e em todas as coisas e em todos nós.”[5]
Terminando, disse-lhe Paulo: Crês que é assim?
Respondeu-lhe Valeriano: “Sim, nada há de mais verdadeiro, nada que deva ser crido mais firmemente.” — Desapareceu então o santo Apóstolo, e Valeriano recebeu o santo Batismo.
E voltou para casa. Trajava cândidas vestes, símbolo do sacramento de regeneração, que havia recebido. Ao entrar em casa viu Cecília absorta em oração. Junto dela estava o Anjo de Deus com a face radiante de vivíssimo esplendor e as asas cintilantes de cândida luz. Em suas mãos tinha duas coroas tecidas com rosas e lírios. Uma, colocou-a sobre a fronte de Cecília e a outra sobre a de Valeriano. E assim lhe falou: “Empenhai-vos por conservar sempre convosco estas coroas que recebestes. Consegui-lo-eis pela pureza de vossos corações e com a santidade dos vossos corpos. Trouxe-as dos amenos jardins do céu. Jamais murcharão estas flores, e sempre exalarão suave odor. Mas a ninguém jamais é dado vê-las sem que primeiro tenha como vós merecido a complacência do céu.”


[1]     Leem-se estas palavras no Breviário nas festividades dessas mesmas santas.
[2]     Non diebus, non noctibus, a colloquiis divinis et orationibus cessabat. Absconditum semper Evangelium Christi gerebat in pectore. Biduannis ac triduannis iciuniis orans… Caecilia vero subtus ad carnem cilicio induta, desuper auro textis vestibus tegebatur. Acta S. Caeciliae.
[3]     Cantantibus organis, Caecilia in corde suo soli Domino decantabat, dicens: fiat cor meum et corpus meum immacultatum ut non confundar. Ibid.
[4]     Mais verossímil nos parece a opinião segundo a qual a santa virgem Cecília padeceu o seu martírio não já no governo de Alexandre Severo, mas nos de M. Aurélio e Cômodo Imperadores, e que por isto esse Urbano, de que se faz menção nas Atas da Santa, não teria sido Urbano Papa, mas um bispo de idêntico nome, arrancado talvez de sua sede episcopal pela violência da perseguição, e refugiado em Roma. O autor das Atas, que certamente escreveu depois do terceiro século e provavelmente já nos fins deste século e começos do seguinte, lendo o nome de Urbano nas primitivas atas do martírio da santa, ajuntou-lhe, por sua própria conta, “quem Papam suum christiani nominant”, erro em que caiu devido à idoneidade do nome. De resto, a mesma leitura das Atas, e especialmente o interrogatório judicial, indicam suficientemente o erro do seu autor. Ver Tillemont, Hist. Eccl. T. III; o Bolandista Sollier, Acta Sanctorum, Maii; G. B. de Rossi, Roma soterrânea, T. II, Discorso prelimin. c. 2.
[5]     Ephes. IV, 5.
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