segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ALERTA! - Parte X (Final)

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


10.º Princípio: a responsabilidade

Defende-se, por vezes, a irresponsabilidade da ação impura[1] pretextando que o homem perde a sua liberdade, durante a hipnose sensual. Ousa-se afirmar: a tentação torna-se irresistível pela violência do atrativo. O que é reconhecida por todos, assim Clemente de Alexandria, confessa que “o homem é arrancado com violência do próprio homem”, e modernamente P. Bourget, que n’O Discípulo escreve: “Esta embriaguez que de nós se apodera como a de um vinho generoso”. Assim objetam.
Não esqueçamos, porém, que a sedução não é fatalidade, que no homem a par da influência sofrida há também um princípio de reação, o livre arbítrio, cujo é, como propriedade e essência, o poder de resistir.
O homem domou os animais.
Domou a terra ingrata e lhe impôs as messes.

Dominou montanhas e as rasgou com uma faísca, que uma criança pode acender de longe, premendo com o dedo um botão.
Sujeitou os metais mais rijos, e os fez fluir como água, ou os teceu como fios de linho.
Pode domar-se a si mesmo! E é fútil escusa o dizer-se:
É meu temperamento! assim sou feito.
Porque não usar a mesma linguagem ante uma terra inculta; foi assim feita! tem esta natureza! Ou diante duma fera, que dá o salto para vos tragar; esta é a sua natureza! é este o seu mau instinto.
“Vós sois assim, todavia está dependente de vós o refazer-vos ou, ao menos, reformar-vos”. (A. Eymieu).
Refazer-vos ou, ao menos, transformar-vos!
É possível, porque a experiência aí está a atestá-lo.
A religião soube dominar os vícios mais despóticos e mais arraigados: as licenciosidades do paganismo, a sede de vingança dos bárbaros, a embriaguez de muitos povos, os duelos da idade média.
Como não poderá ela também triunfar do vício da impureza?
É certo que esta paixão é fogosa e inebriante. “Era muito outro, diz por vezes a infeliz vítima, e parecia-me estar possuído de uma repentina loucura”.
Pode muito bem acontecer que a privação da perfeita deliberação ou do pleno consentimento vos escusem de pecados graves, e até de culpa venial.
Verifica-se isto “mais frequentemente em pecados contrários à castidade do que contra as outras virtudes, em razão da violência da paixão da natureza sensível, que em grau maior ou menor cega e paralisa a perspicácia da inteligência, podendo até tornar inconsciente e involuntária uma ação, materialmente, muito desregrada”. (De Smedt. Nossa vida sobren.).
Mas este caso de responsabilidade abolida[2] verifica-se sobretudo em circunstâncias de verdadeira surpresa, que os teólogos em linguagem pouco latina, mas expressiva, chamam: “motus primo primi”, movimentos tão súbitos, que impedem qualquer deliberação da inteligência.[3]
A irresponsabilidade procede então da surpresa mas não da violência; e a vontade neste caso, assemelha-se a uma praça forte que é tomada por traição, e não foi expugnada por renhido combate.
A estratégia moderna chega a tomar cidadelas, por mais fortemente aparelhadas que estejam; mas em nós há um forte sempre inexpugnável: é o forte interior do nosso livre arbítrio.
O impetuoso assalto da concupiscência será evidentemente circunstância atenuante da derrota e jamais uma justificação dela.
Nem também o temor tolhe nossa liberdade. Quem mais do que os mártires experimentou o requinte deste sentimento?
E no entanto os dois Concílios de Niceia e de Ancira declararam que o Cristão que, ante o rigor dos suplícios, abjurasse a Fé era apóstata, menos culpável sim do que aquele que renegasse a Cristo sem esta pressão moral, mas enfim também culpável.
O hábito impuro é tirânico, mas a responsabilidade é de quem o contraiu.
O homem, que é filho das suas ações, é o pai de seus hábitos.
A ignorância, mais facilmente, constituiria uma desculpa. Não se pode querer o que se não conhece; e nada é mais oposto ao consentimento do que o erro. Já neste caso se não trata de ceder, mas de não conhecer!
O meio pode ser perigoso para a castidade e até mesmo corruptor. Mas:
a) O meio solicita o homem, não o força porém.
b) Ou Deus permitiu que nascêssemos e vivêssemos nesse meio mefítico, e em tal caso nos dará as graças de que necessitamos; ou então nós nos metemos voluntariamente nele e por esta razão somos os únicos responsáveis.
c) Se o meio fosse o causador de tudo, como se explicaria então o fato de que jovens educados em meios mui diversos se parecem no proceder, e em compensação dois irmãos, educados sob o mesmo teto, seguem caminhos diversos?
d) J. Simon, no seu livro o “Dever” lembra como o homem, até no meio mais viciado e deletério, sempre ouve a voz da consciência.
Em suma: neste combate pela castidade, dão-se várias causas que diminuem a liberdade humana; nenhuma, porém, chega a suprimi-la.


[1]             Coteje-se esta objeção com a que vimos: “não peco com intenção de ultrajar a Deus… Fragilidade sem perversidade”, e as que veremos mais adiante…
         “É impossível viver casto… Tornar-se casto”.
[2]             Mesmo então, terão talvez aplicação os princípios da responsabilidade causal, acima expostos.
[3]             E será às vezes pelo menos, a escusa do quer cede imediatamente; mas muito mais dificilmente o caso do que diz: “Primeiro resisti”, porque por isso mesmo teve consciência de que a ação era desonesta. A luta demonstra que houve deliberação. Ipsa lucta indicium est deliberationis. (Pe. Vermeersch).
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