sábado, 27 de fevereiro de 2016

ALERTA! - Parte VIII

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


8.º Princípio: O 6.º mandamento de Deus

Como devemos interpretar esta sentença: na impureza “não há parvidade de matéria?”
É necessário, para não se formar uma consciência errônea, compreender bem este aforismo, segundo os teólogos o explicam.
Em primeiro lugar pode acontecer que, sendo a matéria grave, não o seja a culpa, porque o pecado mortal, além do elemento de matéria grave, requer duas outras condições: perfeita deliberação e inteiro consentimento.
E assim em muitos casos haverá somente “matéria” de pecado mortal, mas não pecado mortal efetivo; ou, se quiserdes, haverá pecado mortal só “material” mas não “formal”.

Em segundo lugar, quando a teologia ensina que não há parvidade de “matéria”; o que quer ela designar por esta palavra “matéria”?
Não uma simples sensualidade (é evidente que pode haver parvidade de matéria em tal leitura um tanto livre, em certas conversações menos morais, em certos sorrisos indulgentes, etc.), mas trata-se aqui, no sobredito enunciado, da “luxúria mesma diretamente procurada”.
Examinemos as duas partes desta expressão:
“A luxúria” propriamente dita consiste nos movimentos desregrados[1] das partes sexuais (chamados também por vezes revoltas da carne), acompanhados do prazer de ordem venérea,[2] genésica,[3] de tal modo que o termo lógico (ou alcançado ou não) seria a satisfação completa da paixão carnal.
Deus prevendo a muita coragem que era necessária ao homem e à mulher para aceitarem os encargos da família, colocou, providencialmente, o atrativo e a compensação do prazer no exercício das funções geradoras.
Nos seres humanos dominam dois apetites: o da conservação do indivíduo e o da propagação da espécie: naquele reside o estimulante da nutrição, neste o da reprodução. O indivíduo morre, mas é força que a espécie viva. A espécie deve permanecer, e por isso é que o homem tem tão enraizado, em si, o instinto da perpetuação.
Os órgãos destinados à geração, por este motivo chamados genitais ou sexuais,[4] terão direito ao prazer lícito, que se encontra na união legítima do matrimônio e que assegura ao mundo a transmissão da vida: união sagrada, elevada por Deus à dignidade de Sacramento. Mas, afora este caso, afasta-se este prazer violentamente do fim que o justifica, e por isso, frustrado o seu verdadeiro destino, se torna desde logo uma grave desordem.
Não se pode estabelecer a dissociação entre a satisfação sensível e o fim para o qual ela foi concedida, do mesmo modo que no fato de comer se não pode separar a nutrição da precisão ou da satisfação legítima do gosto.[5]
Este atrativo especial é no homem tão impetuoso que, a querer-se admitir algumas exceções, logo a ilusão e a paixão tanto alargariam para mais e mais esta abertura, que por ela facilmente se escaparia toda a austeridade da proibição divina.
O ato luxurioso, proibido pelo direito natural,[6] permanece sempre proibido.
E, sendo além disto o atrativo para a voluptuosidade tão forte, tão sedutor, não só o termo, isto é, o pecado consumado, foi proibido por Deus, senão também tudo quanto, por sua natureza, é preparação para ele.
Não há, pois, nisto parvidade de matéria, porquanto desde que se está em terreno luxurioso, não é somente proibida a saciedade da paixão e a plenitude do gozo, senão também qualquer deleite.[7]

* * *
É pois proibido — e sempre — procurar (fora do congresso matrimonial), diretamente, estas satisfações.
Mas será lícito praticar ações que indiretamente sejam causas de sensações, de movimentos venéreos?
Sim, com tanto que se verifiquem estas quatro condições:
a) Se a ação é honesta;
b) Se a intenção é honesta e não haja perigo de consentimento (porque então são aplicáveis, ao caso, as regras de ocasiões mais ou menos próximas);
c) Se o efeito desonesto não serve de meio para se alcançar o efeito que é bom; porquanto nunca o fim justifica os meios, e não é lícito passar primeiro pelo túnel do mal para depois chegar-se ao território do bem.
d) Se o efeito desonesto se pode permitir em razão da gravidade do motivo.
O quarto enunciado diz equivalentemente: Quando a causa influi, de leve, no efeito desonesto, bastará um motivo leve.
Quando a causa influi grandemente, deve haver um motivo grande.
Quando, porém, influir gravemente, deve haver um motivo muito grande.[8]
Em suma: é necessário haver sempre um motivo proporcional ao efeito que se experimenta.
Assim que se realizarem aquelas condições não mais estamos no direito de nos proibir uma ação, que por uma parte é correta, e que por outra tem uma intenção que não o é menos.
A ação é portanto honesta quer subjetiva quer objetivamente.
Há realmente na ação um contrapeso vicioso, mas nós supomos haver uma razão, proporcionalmente grave, capaz de a desculpar.
Neste caso, não se agiu tendo em vista o tal efeito, mas sim como se ele não existisse.
Trata-se dum acidente, lealmente ladeado pela vontade, que tem em vista outro fim.
Se uma semelhante consequência que deploramos, bastasse para nos proibir o operar, então a vida cristã tornar-se-ia impossível, e não seria afinal, senão uma perpétua ocasião de escrúpulos e de obsessões; porquanto muitíssimas ações, aliás inocentes, podem aparecer acompanhadas, acidentalmente, “per accidens”, mormente em jovens impressionáveis e indivíduos nervosos, de emoções eróticas.
Mais uma vez repetimos: tal sensação deu-se neles, mas sem eles.
Apliquem-se estes princípios “do duplo efeito” ao médico, por sua profissão, obrigado a estudos especiais, ao moralista, ao confessor ocupados com estas matérias delicadas, ao censor de películas ou de livros, ao jovem, que deve estudar certos pontos de literatura ou de história, ou que simplesmente se dá ao prazer dos desportos, da equitação ou natação, às pessoas para as quais o fenômeno da micção e defecação andam acompanhados de movimentos desregrados. Poder-se-iam multiplicar os exemplos.
Sempre melhor é dar como certa a riqueza fecunda dum princípio, do que perder-se na multiplicidade de aplicações miúdas ou deslocadas.

* * *
Está claro que nos casos citados e em todos os outros, é necessário precavermo-nos contra as alucinações e astúcias da paixão. E para certificar-se se andamos em regra sobre este ponto, será útil ventilar estas duas questões:
Sei eu realmente justificar minha ação? Tem ela um motivo bastantemente sério e diferente da paixão?
Sei eu justificar a intenção? É ela reta? Insistimos sobre este ponto: pode acontecer que tal coisa seja, em si, honesta e permitida pela moral, mas sempre na suposição de que a intenção, que a dirigiu, permaneça boa. O fato de se acalmar comichões e o de se cuidar da higiene e da saúde podem ser realmente úteis, e às vezes, até necessários: mas podem ornar-se pretextos da paixão.
Nada de consciências de gavetas e de duplo fundo, como as caixas de certos charlatães.
Nada de piedosas usuras!
Sobrevém, às vezes, a tentação de querer trapacear com Deus, procurando passar-lhe a moeda falsa de razões falhas.
Ora o que Deus quer é sobretudo a lealdade do coração.[9] A tal ponto que mesmo em caso de erro, a responsabilidade ficará salva, quando realmente houvesse boa fé. A desordem objetiva fica desculpada pela retidão subjetiva. Dá-se este caso na ignorância ou ilusão, supondo-se que elas não sejam culpáveis.
Lá disse, e muito bem, o filósofo Ficht: “O único dever, é querer sempre operar conformemente com o seu dever”; e aprovamos Kant, quando escreve: “De todas as coisas que nos é possível conceber neste mundo, só há uma, que sem restrição alguma se pode ter por boa, é uma boa vontade”.



[1]             Pode-se pecar contra a pureza sem que haja movimento algum, mas neste caso serão pecados internos (pensamentos, desejos…).
[2]             Este termo deriva-se de Vênus, a deusa de volúpia, na mitologia pagã.
[3]             Isto é: relativo à geração. Podem sentir-se nestes órgãos sensações, que não são de ordem genesíaca, tais como o calor, o frio, a pressão, etc.; e até mesmo um certo bem-estar sem carácter venéreo.
[4]             São também chamadas “partes vergonhosas”; vergonhosas, não em si mesmas, porquanto Deus assim as fez, mas pelo abuso que delas se faz, em tantos pecados. Sem a culpa original não teríamos provado as revoltas dos sentidos.
[5]             Delectatio propter operationem. (S. Th. 1-2).
[6]             Por unanimidade dos teólogos. Demais: Inocêncio XI condenou as proposições 48.ª e 49.ª, porque afirmavam: não serem a fornicação e o pecado solitário, proibidos pelo direito natural, mas por um interdito positivo de Deus.
         Prop. 48: “Fornicationem, secundo se, nullam involvere malitiam et solum esse malam, quia interdicta…” Prop. 49: “Mollities jure naturae prohibita non est”.
[7]             Cf. proposição 40.ª condenada por Alexandre VII.
[8]             Supomos sempre uma causa que exerça a tal influência por si mesma, pois é de ordem luxuriosa. Se, pelo contrário, ela nada tivesse de comum com tal ordem, se fosse “extra genus luxuriae”, e se não houvesse perigo próximo de consentimento, não haveria obrigação de abster-se: bastaria não consentir a tentação, que poderia sobrevir. Exemplos: a posição assentada muito prolongada, as trepidações do comboio, do automóvel, da bicicleta, podem provocar perturbações. Na verdade trata-se apenas de um simples fenômeno de afluxo sanguíneo. A causa desta congestão local não é de ordem venérea. A obrigação de evitar estas ações tornaria a virtude impraticável e nos levaria ao escrúpulo de algumas mulherzinhas que não querem olhar para o S. Crucifixo, porque o Senhor não está inteiramente vestido ou de certas pessoas, que não olham para a Virgem SS. e às santas, por pertencerem a outro sexo.
[9]             “O Senhor vê o coração”. (1 L. Sam. 16-7).
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...