sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

ALERTA! - Parte VII

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


7.º Princípio

“E estas tentações assaltam-me, de preferência, antes da Sagrada Comunhão.
O fenômeno é muito frequente”.
Explica-se, antes de tudo por uma causa natural. De manhã, conservando o espírito toda a sua energia e não estando a imaginação ainda fatigada, estão ambos em grande atividade. As faculdades têm então a sua máxima plasticidade. Além disto o demônio, conhecendo perfeitamente que a comunhão é o grande meio de santificação, põe todo o empenho, para nos arredar dela, dizendo: “Como! terás a ousadia de receber o teu Deus nesta alma, toda cheia de desejos impuros e manchada de tais vilanias…?”
Abster-se da Comunhão, quando não se consentiu no mal, é ceder covardemente às insídias do demônio.
— “Às vezes, porém, antes da Sagrada Comunhão, não se tem certeza de se haver ou não consentido. Que norma convém então seguir?”

Enquanto for solidamente[1] provável que estás em graça, podes aproximar-te da Mesa da Comunhão. O prudente seria fazer um ato de contrição perfeita; mas a confissão não pode ser imposta. E por quê? A lei da confissão só é obrigatória para aqueles que se acham em estado de pecado mortal.
Ora na nossa hipótese é grande a dúvida acerca da culpabilidade grave da ação; e, se assim é, também a lei se torna duvidosa; mas a lei duvidosa não obriga; “lex dubia, lex nulla”. Se todavia o temor de culpa grave é bem fundado, seria bom e de grande conveniência para a tranquilidade da alma, sujeitar-se à confissão. Não há, é verdade, como dissemos, obrigação estrita em quanto for solidamente provável o fato de se haver resistido; mas o ponto está na dificuldade de separar a lei formal do que é conselho.
Nas nossas relações com Jesus Cristo, como aliás nas que temos com os homens, a par das que é necessário observar, andam sempre, como irmanadas, as que são de conveniência e de delicadeza.
Esta dúvida, de que tratamos, teria maior fundamento para aquele que vive perplexo acerca do estado de sua alma, não obstante ter a consciência bastante elástica, do que para o que só hesitasse, levado por motivos de escrúpulos.
Ora os nossos conselhos, note-se bem, dirigem-se de modo particular às almas delicadas, para as quais aplica-se a sentença: “In dubiis judicandum est ex ordinario contigentibus”, tendo para si que na dúvida, a presunção está em seu favor.

* * *
Todos os princípios até aqui expostos, resume-os admiravelmente o grande mestre de espírito, S. Francisco de Sales de quem reproduzimos esta página, cheia de bom senso:
“Sois alvo de tentações?
Não convém inquietar-vos por isto nem mudar de postura; é o demônio que anda por toda a parte, em volta do nosso espírito, espreitando, a ver se pode encontrar alguma abertura. Assim fazia com Jó, com S. Antônio, Santa Catarina de Senna e com inúmeras almas santas.
Convirá afligir-vos com isso?
Deixai-o lidar em vão: fechai-lhe bem todas as entradas, que se virá a cansar; e, se não se cansar, Deus o obrigará a levantar o assédio.
É muito bom sinal o fazer ele tanto ruído e levantar tanta tempestade em redor da vontade; é sinal que não penetrou em nós.
Evitai que o vosso coração se amofine com estes pensamentos tristes que o assediam; porque o pobrezinho não tem culpa, e Deus mesmo não se descontenta com isso, antes pelo contrário.
A sua divina sabedoria se compraz em ver este pequeno coração que se apavora até com a sombra do mal, como um pintainho com a sombra do falcão, que por cima dele anda a voltear. Recorramos à cruz, abracemo-la de coração; amparemo-nos tranquilos à sombra desta santa árvore.
Não é possível contrair qualquer mancha, enquanto estivermos na firme resolução de sermos inteiramente de Deus.
É mister, pois, não se sobressaltar nas tentações, mas conservar alegria e suave resignação em tudo o que Deus mandar.
As tentações nada podem tirar à pureza do coração que as repudia.
Não nos espantemos com elas, mas olhemos fixamente para o nosso Salvador, que nos espera ao depois da tormenta.
As tentações perturbam-nos unicamente porque pensamos demasiado nelas e lhes temos excessivo medo”.
Tende presentes estas últimas linhas de S. Francisco de Sales, vós que vos afligis demasiado com o assalto dos maus desejos. Por que perder o domínio da vossa alma, ralando-vos tanto? A agitação do espírito mantém e intensifica estas tentações.
Conservai a vossa vontade sempre generosa e o coração perfeitamente imperturbável. A irritação é uma força deslocada! Procurai antes esquecer e desprezar.

* * *
Vou expor-vos o meu modo de pensar.
O essencial seria pensar o menos possível em tudo o que se refere à impureza.[2]
Alguns acabam por se alucinar ante tais misérias, e tanto concentram a atenção em tudo o que diz respeito à pureza, que acabam por acreditar que a religião cifra-se somente nela.
Havemos de encarar as coisas mais altamente!
Perguntaram um dia ao Senhor, qual era a primeira das virtudes; ao que Ele respondeu: “o Amor”.
Ama a Deus e tudo o mais está assegurado.
Quando soa uma nota fundamental, acompanham-na também as “harmônicas”, que se tornam como seus satélites sonoros.
Quando o amor de Deus for a nota fundamental da tua alma, as demais virtudes se tornarão naturalmente suas harmônicas! Que a castidade seja um corolário da caridade!
Pensa menos nos mil pontos negativos: “Não podes fazer isto, nem aquilo” para te radicares mais no grande preceito positivo: “Ama a Deus de todo o coração”.
Quando um filho ama sinceramente a seu pai ocorre porventura especificar-lhe vinte ou mais recomendações: não penalizá-lo, não feri-lo, etc.?
“Ama et fac quod vis”.
Mui verdadeiras são estas duas observações de Santo Inácio. “A primeira: o amor há de consistir mais nas obras do que nas palavras; a segunda: o amor se concretiza na mútua comunicação de bens”.
Ama ao Senhor com toda a tua alma, com todas as tuas forças, e esta generosa nobreza descerá do alto a todos os andares.
O teu engano está exatamente em começares do baixo e não do alto. Em muitas enfermidades nervosas é necessário antes de tudo medicar os centros superiores.
Santo Inácio concebia assim a vida religiosa. Antes de concluir os seus Exercícios espirituais e dar o golpe decisivo, propõe a contemplação do amor divino.
“Trarei à minha memória os muitos benefícios recebidos… considerando com grande afeto tudo quanto Deus, Nosso Senhor, tem feito por mim…
Depois, entrando em mim mesmo, me perguntarei o que a razão e a justiça me obrigam a oferecer, por minha parte, e a dar à sua divina majestade…”



[1]             A teoria do “Probabilismo” supõe sempre ter a liceidade da ação, de que se trata, uma probabilidade não qualquer, mas uma probabilidade sólida. Não deve ela, está claro, ser maior que a probabilidade contrária, como exige o “Probabiliorismo”, nem mesmo igual, como pede o “Equiprobabilismo”; mas ao menos a de ser verdadeiramente fundada e séria. Esta só observação basta para desfazer muitas objeções contra o Probabilismo. Entendido de outro modo, já não seria Probabilismo, mas sim Laxismo.
[2]             É necessário, por vezes, tratar “ex-professo” a questão da castidade, como fazemos no presente trabalho. Neste caso, é preferível falar da pureza e indiretamente da impureza: e assim encara-se o lado positivo da questão (mostrando as vantagens da pureza, sua possibilidade, os meios de a conservar) de preferência ao lado negativo (torpeza do vício). Vai-se abandonando o sistema de Esparta, que atribuía virtude moralizadora ao espetáculo do infeliz ilota embriagado.
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