terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

ALERTA! - Parte VI

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)

PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


5.º Princípio 
A responsabilidade “causal”.
Pode acontecer que um homem não seja responsável de culpa no momento em que, materialmente, comete a ação, mas que tenha incorrido, precedentemente, em culpa, por haver posto livremente a causa, cujo efeito estava no campo normal da sua previsão.
A filosofia expressa este princípio em dois axiomas clássicos: “Causa causæ, est causa causati… Qui vult antecedens, vult et consequens”. Quem quer a causa quer, implicitamente, o efeito nela contido: quem quer a árvore, quer também o ramo desta árvore e o fruto de seus ramos.
É realmente fácil e mui cômodo a quem desencadeou uma guerra injusta, exclamar, ante os horrores da pavorosa hecatombe: “não quis isto”. Não quis tal morte especialmente determinada, seja, mas se decretou a guerra, igualmente ficou decretado o pranto, a chacina, as ruínas, que à guerra andam associadas. Quis pois, tudo isso.

* * *

Estes princípios acima enunciados têm numerosas aplicações no que respeita à castidade.
Um jovem dirá: “Fiquei estonteado naquela ocasião”.
Pode muito bem ser que isso, por vezes, seja verdade.
Mas essa espécie de loucura já vós a tínheis previsto: a experiência vo-la tinha já demasiadamente demonstrado. E no entanto, vós sem motivo vos expusestes à ocasião. Pecastes, pelo menos, então: ao primeiro olhar, se não foi mais nos que seguiram; à primeira página daquele romance, se não mais nas outras.
Não vos seria já possível parar no despenhadeiro; mas éreis muito senhor de vós mesmos, antes de entrardes no resvaladiço pendor da ocasião.
Pode bem ser que tenhais perdido a cabeça em tal casa, em tal ocasião. O mais que isto pode provar, é que já não éreis responsável num determinado momento: mas já o tínheis sido ao entrardes em tal morada.
O verdadeiro momento da responsabilidade foi em verdade aquele em que transpusestes tal limiar, não obstante a certeza de que fatalmente havíeis de sucumbir.

6.º Princípio

Deus proíbe não só as ações impuras, mas até as imaginações, os pensamentos[1] e desejos maus. Não serás luxurioso nem de corpo, nem de consentimento.
Conhecedor que toda ação é o termo lógico de uma ideia ou pensamento, não só se contentou com cortar a planta venenosa, mas levou o machado à raiz, para extirpá-la, por completo, do coração humano.
“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. E eu vos digo, que todo aquele que olhar, com desejos maus, para uma mulher, já cometeu adultério em seu coração”. (Mat. 5-27).
Importa em nossos pensamentos considerar não só nos seus começos, mas também seguir-lhes o processo, porque começando inocentes, podem desviar e corromper-se.
“É próprio do anjo mau, quando se mascara em anjo de luz, penetrar de mansinho nos sentimentos de uma alma piedosa e acabar depois por substituí-los pelos dele.
E assim começará por sugerir nesta alma pensamentos bons e santos, conformes com as suas disposições virtuosas: mas depois, pouco a pouco, começa a armar-lhe ciladas, procurando fazê-la consentir em seus maus desígnios. Devemos, pois, examinar com grande cuidado a marcha de nossos pensamentos. Se o começo, o meio e o fim, tudo afinal, neles é bom e puramente encaminhado para o bem, é sinal que procedem do anjo bom”. (Santo Inácio).

* * *
Quais são os princípios de responsabilidade nas tentações dos maus pensamentos?
Três podem ser as atitudes morais possíveis:
a) Resistir positivamente.
b) Consentir positivamente.
c) Guardar uma atitude intermédia, isto é, a de não combater, mas também de não ceder.
Examinemos estas três hipóteses, começando pela última.

3.ª HIPÓTESE

Teoricamente basta que se realize esta terceira atitude, porquanto o pecado afinal consiste em querer o mal, e, nesta terceira hipótese não se quer, e além disso não se está, como supomos, em ocasião próxima de querê-lo. Mas na prática, mormente se a tentação for violenta, será quase impossível resistir, a não ser esforçando-se, não só por não conservar esta espécie de atitude neutra “não querer”, mais para querer positivamente o contrário.

2.ª HIPÓTESE

Se temos consciência de que estes pensamentos e desejos são maus, e, livremente, consentimos neles, já neste instante começa a nossa responsabilidade. Assim como nos não é lícito conservar uma figura má num álbum secreto, assim também não podemos guardar uma fantasia má no álbum secreto da memória.
A par da vergonha exterior há também a desordem interior: memorativa ou imaginativa.
O papel da imaginação, nas tentações lúbricas, é de grande importância.
A ação culpável aparece de ordinário acompanhada de representações, que a provocam e a mantém: até mesmo nas impressões venéreas sofridas durante o sono intervém a representação cerebral em larga escala (e isto ou a título de causa ou de efeito).
Já vimos como os prazeres sensuais são de ordem nervosa.
O sistema nervoso está em comunicação com o aparelho central a que chamamos cérebro. Ora a imagem (a imagem correspondente) é uma forma de atividade cerebral.
Não é pois para admirar que os movimentos lascivos e as imaginações sensuais andem quase sempre a par.[2]

1.ª HIPÓTESE

Quando há todo o cuidado em expulsar os maus pensamentos: e neste caso não só não pode haver culpa, senão que pelo contrário se adquirem méritos, porque se alcança uma vitória sobre si mesmo.

* * *
— “Mas os pensamentos ou imaginações, que me perseguem são abomináveis!” Concordo! O pecado não está, porém, na atividade da imaginação ou da inteligência, mas no consentimento da vontade.
“Non nocet sensus, ubi non est consensus”.
O que poderíamos traduzir por estes dois versos, que eu vos não dou como sendo de Racine ou de Corneille:

“Mal não é o sentir,
Mas sim o consentir”.

— “Mas estes pensamentos tornam-se-me como quem está a assediar e me inquietam noite e dia”.
E depois? Mais belo é resistir duas horas do que resistir dois minutos.
Ao combate mais prolongado corresponderá um mais belo triunfo!
“De duas maneiras se pode merecer, quando o mau pensamento vem do exterior.
Primeiramente, quando, ao apresentar-se o pensamento de cometer um pecado mortal, se lhe dá logo, digamos assim, com a porta na cara e se triunfa dele. Em segundo lugar, se depois de repelir um mau pensamento e ele voltar, uma e mais vezes, se lhe resiste sempre, até afastá-lo inteiramente. Esta segunda maneira é muito mais meritória do que a primeira”. (Santo Inácio).
— “Mas eu sinto o prazer proibido”.
A coisa é fatal: porém, sem responsabilidades enquanto o sentires sem o haver procurado e sem nele te comprazeres voluntariamente.
— “Apavora-me o pensar ser bastante um minuto para cometer um pecado mortal de pensamento!”
Basta um minuto para dilacerar uma preciosa tela de Rubens, para esbofetear um amigo ou para suicidar-se atirando-se de uma janela a baixo.
Temes tu, por ventura, cometer estas indignidades de um minuto, que se manifestam contra a tua vontade?
Esta outra indignidade de um minuto, o pecado mortal, também não se dará enquanto a tua vontade lhe for contrária, porquanto a culpa grave pressupõe essencialmente além da matéria grave, uma deliberação perfeita e o total consentimento.
— “O demônio é terrível!”
O demônio, diz S. Bernardo, é um cão que ladra fortemente… mas está acorrentado. Deixa-o ladrar, que ladra debalde esse tinhoso impotente. Somente te morderá, se tu próprio fores desatar-lhe a coleira.


[2]  “Quantum… phantasia valeat ad venerum appetitum vel excitandum vel moderandum vel sedandum omnes, perspectum habemus”. (Vermeersch, De Cast. N.º 16). Conhecemos o grande papel que a imaginativa desempenha para excitar, moderar ou refrear as tendências venéreas.



[1]             Distingamos bem três casos: (a) Pensar numa coisa que tem um lado impuro. É, por vezes, necessário. (b) Pensar numa coisa por este lado impuro. É às vezes, legítimo quando por exemplo, se estuda. Deus que tudo conhece, julga por este aspecto as realidades. (c) Pensar numa coisa só por este lado impuro. É mau.
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