domingo, 7 de fevereiro de 2016

7 — Favores do Arcanjo Rafael aos dois Tobias e a Sara filha de Raquel

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


7 — Favores do Arcanjo Rafael aos dois Tobias
e a Sara filha de Raquel
 

Era Tobias da tribo e cidade de Neftali. Como diz a Bíblia, foi um homem sábio, desde os seus primeiros anos, e temente a Deus. Enquanto os outros concidadãos do seu povo, andavam a adorar os bezerros de ouro que o rei Jeroboão havia mandado erigir, dirigia-se Tobias ao templo de Jerusalém, para adorar ao Deus de Israel nos dias das três principais festas judaicas, e oferecia fielmente ao Senhor as primícias e os dízimos ordenados pela lei. E isto, desde pequenino se acostumara a fazer.
Ora bem, o rei Salmanazar, Ninivita, venceu o povo de Deus, e levou a sua população cativa para Nínive, na Assíria. Também Tobias foi levado para lá com toda a sua família. O exílio foi a ocasião para Tobias revelar ainda mais o seu grande coração: foi ele um exemplo de paciência em suportar os sofrimentos do desterro, e um modelo de caridade para com os seus companheiros de infortúnio. Era um edificantíssimo espetáculo vê-lo ajudar, tanto quanto podia, aos seus concidadãos e, à noite, ocupado na faina de dar aos falecidos uma honrosa sepultura no seio da terra.

Quando atingiu a idade de cinquenta e seis anos, uma tribulação ainda maior veio provar a sua virtude: uma repentina e total perda da vista. Não se queixou da divina Providência nem deixou de ser o homem temente a Deus de sempre, rendendo-lhe graças em todos os dias de sua vida.
Não compreenderam, os seus amigos, o seu sofrimento, e frequentemente o censuravam e inculpavam; a sua mesma mulher os acompanhava em tão injusto tratamento. Foi então que, exacerbado pela dor, pediu humildemente a Deus Nosso Senhor que se dignasse libertá-lo de tal sofrer, levando-o desta vida.
Assim, fez a sua oração a Deus, e depois, esperando ser ouvido, chamou o seu jovem filho, que também se chamava Tobias, e que então tinha vinte e um anos, para lhe fazer as últimas recomendações. Disse-lhe muitas e belas coisas, mas as principais foram que fosse temente a Deus, respeitoso para com a sua mãe, e caridoso para com os pobrezinhos.[1]
E guardou para o fim o que é o principal argumento de toda esta história, que vem a ser: que fosse a Rages, na Média, e cobrasse, de um tal Gabelo, dez talentos que há muitos anos o bom velho lhe havia tomado emprestado.
O jovenzinho respondeu pressuroso: “estou pronto, meu pai, a executar quanto me ordenastes. Mas como farei para conseguir esse dinheiro se nem conheço a Gabelo, nem sei o caminho que leva ao seu país?”
“Dar-te-ei, respondeu o pai, o quirógrafo (espécie de recibo) de Gabelo, e por meio deste ele te reconhecerá como meu filho, e te dará o dinheiro. E, quanto à viagem, põe-te a caminho e vê se encontras um homem de bem e fiel, que nela te guie e proteja”.
Partiu então, sem mais tardança, o jovem Tobias, e pôs-se a procurar um guia a que se pudesse confiar em tão longa viagem.
Ora, enquanto em Nínive levava o velho Tobias vida tão santa e tão tributada, vivia, em uma cidade de Média, uma piedosa jovem, chamada Sara, que igualmente passava em lamentos os seus lutuosos dias.
É que por sete vezes se havia casado e por sete vezes no mesmo dia do casamento lhe amanhecera morto, ao seu lado, o novel esposo, vítima da fúria de um mau espírito. Mas não foi tudo. Sua aflição chegou ao auge com uma atroz afronta que recebeu. Um dia, repreendida por não sei que falta, uma de suas domésticas, assim lhe gritou esta no rosto: “Que jamais nasça de ti nem filho, nem filha, oh mulher assassina dos teus maridos! E queres também me matar a mim?”
Ao ouvir tais palavras, soltou a pobre Sara um grito de dor e, sem proferir mais uma palavra correu em lágrimas à sua câmara, pôs-se de joelhos, e em oração permaneceu por três dias, sem provar bocado de pão ou gota d'água em todo esse tempo. Nesses três longos dias outra coisa não fez que suplicar a Deus com lágrimas e soluços que se dignasse livrá-la de tão grande opróbrio.
E perante o trono de Deus eram apresentadas pelos Anjos, as orações de Tobias em Nínive, e de Sara na Média.
E Deus Nosso Senhor atendeu às suas orações. Expediu, então, o Arcanjo S. Rafael em uma missão de conforto e alegria junto dos seus atribulados servos: missus est Angelus Domini sanctus Raphael ut curaret eos ambos, quorum uno tempore sunt orationes in conspectu Domini recitatae. Fez-se, pois o Santo Arcanjo encontradiço a Tobias, e saudando-o, mal este pôs o pé fora de casa, declarou-lhe chamar-se Azaria (ajuda de Deus), filho do grande Anania (providência de Deus), e amavelmente se lhe ofereceu para companheiro de viagem, e guia para a longínqua Média[2].
Deixemos agora, que o próprio Tobias nos conte quanto lhe fez o bom Anjo de Deus em sua viagem.
1) Enquanto durou a viagem, jamais de mim se separou o bom Anjo: de Nínive me levou à casa de Raquel, e daí me reconduziu são e salvo a Nínive. “Me duxit et reduxit sanum”.
2) Na viagem, quase que um terrível peixe me devorou, e quem dele me livrou foi Azaria: “Meipsum a devoratione piscis eripuit”.
Foi o caso nas margens do rio Tigre. As mansas águas do rio eram tranquilas e convidavam Tobias, a parar, descansar e lavar os pés. Tobias parou, mas quando, despreocupado mergulhou os seus pés dentro de suas águas eis que um de seus ferozes habitantes, um peixe de enormes proporções investiu de dentes armados contra ele, querendo devorá-lo. “Salva-me”, gritou Tobias. Mas Azaria respondeu: não temas. Abaixa-te, agarra-o pelas guelras, e puxa-o para fora d'água. Obedeceu Tobias e puxou o peixe para terra.
O Anjo, então, lhe ordenou que o abrisse, tirasse o coração, fel e fígado, e que guardasse tudo isso muito bem: porque, ajuntou, são meios muito bons para afugentar os demônios e remédio muito bom para fazer cegos recobrar a vista.
3) Procurou-me uma boa esposa, livrando-a do demônio que a afligia, e enchendo de alegria os seus pais. “Uxorem ipse me havere fecit…”
E isto assim se passou. Quando chegaram mais ou menos nas proximidades da casa que Azaria sabia ser de Raquel, disse ele a Tobias: é ali que nos vamos alojar. O dono dessa casa, continuou, tem uma filha única, que se chama Sara. Deus a destina para tua esposa. Por isso a pedirás a seu pai. E nem te preocupes com o demônio que lhe tem morto os esposos… Sabe que o demônio só tem poder contra aqueles que lançam a Deus de si e do próprio coração, e se entregam aos desregramentos da própria vontade. (Tob. VI, 16, 17).
Foi então que Tobias recebeu o prêmio de sua obediência, conservando as entranhas do peixe. Porque, queimando estas no quarto nupcial, pôde escapar ao triste fim que tiveram os sete primeiros maridos de Sara.
E foi assim que o bom Deus, que à procela faz suceder a calma e depois do pranto nos infunde n'alma a alegria, deu a Tobias uma santa e rica consorte, premiou a paciência com que ela tolerava as adversidades, e enfim inundou de indizível alegria a toda a família de Raquel.
4) … E o dinheiro que tinha que receber de Gabelo, foi o próprio Azaria que o recebeu: “Pecuniam a Gabelo ipse recepit”.
Depois que Tobias e Sara já estavam casados, pediu-lhe esta que não partissem já, mas que ficassem ainda em casa de seus pais ao menos duas semanas. Ora, Tobias tinha ainda que dirigir-se a Rages para cobrar de Gabelo o que ele devia ao seu velho pai… Por outra parte, queria fazer a vontade de sua novel e virtuosa esposa. Mas como conciliar as duas coisas, e voltar a Nínive sem fazer o pobre velho pai esperar demais?
Teve então a seguinte ideia. Foi, cheio de confiança, ter com Azaria, e lhe disse: Azaria, irmão meu, rogo-te que escutes as minhas palavras. Nem mesmo que eu me fizesse teu escravo poderia compensar-te pelos benefícios que me tens feito. Entretanto, tenho ainda um pedido a fazer. É que aprontes um bom cavalo, chames os servos, e te transportes a Rages, onde mora Gabelo. Mas eu não poderei ir contigo. Lá chegando deves apresentar o meu quirógrafo a Gabelo. À sua vista ele te pagará uma soma e tu o convidarás para assistir às minhas próximas núpcias. Peço-te, Azaria, que me faças este grande favor, pois do contrário, se eu me demorasse uns dias a mais, bem podes calcular que dor profunda irá na alma de meu pai, que um por um vai contando os dias da minha ausência.
Falou-lhe ainda, Tobias, do pedido que lhe fizera Raquel, e o bom Anjo, agradando-se dos bons sentimentos de Tobias, partiu sem mais demora para Rages, fez a tal cobrança, e voltou para a casa de Raquel. E Gabelo veio com ele.
5) E agora, de volta, em nossa casa, foi também Azaria que te fez, ó pai, ver de novo a luz cintilante dos espaços. “Te videre fecit lumen coeli”.
Já se haviam celebrado as núpcias de Sara e Tobias, e enfim Raquel mãe de Sara, resolveu deixá-los partir, pois já duas semanas haviam transcorrido.[3]
Entregou ao genro a filha e com ela a metade do que possuía em servos, servas, rebanhos e dinheiro. E todos, com alegria e grande acompanhamento se puseram de caminho para Nínive, precedidos pelo Santo Arcanjo Rafael.
Já onze dias haviam caminhado, quando chegaram a uma região já assaz achegada à cidade de Nínive. Então propôs o Santo Arcanjo a Tobias uma coisa: que Sara, com seus servos e rebanhos os seguissem a distância, lentamente, e ele e Tobias apressassem o passo para abreviar a hora da alegria do bom velho pai que os esperava.
Tobias o ouviu docilmente, como todas as outras vezes, e assim como propôs Azaria assim o executaram. E depressa, assim, chegaram à vista da grande cidade.
A primeira pessoa que os avistou ao longe foi Ana, sua mãe. Todos os dias ela subia ao cimo de uma colina e lá se quedava horas e horas aguardando a chegada do filho querido, e a todos perguntando se o teriam visto.
Avistá-lo, portanto, e correr a avisar o marido da chegada do filho, foi tudo uma coisa só. O bom velho, arrimado em dois dos seus servos, lhe foi ao encontro, abraçou-o ternamente e desfez-se em copioso pranto de alegria.
Dado esse primeiro desafogo ao coração, prostraram-se todos em terra para dar graças a Deus. Depois, sentaram-se alegremente.
Foi então que Tobias, tornando o fel do peixe como lhe havia ensinado o Anjo, ungiu com ele os olhos do seu pai. Todos tinham os olhos postos no velho Tobias, e dele só os despregaram para pô-los em Azaria, que na partida para Média, havia dito: “Sê de bom ânimo que breve te haverá Deus de curar” (V, 3). Pois bem, chegara esse felicíssimo momento. De fato, o bom velho recobrou a vista com a unção do fel e, ajoelhando-se agradeceu a Deus: “Eu vos bendigo, ó Senhor, Deus de Israel, porque me castigastes e salvastes. Eis que em boa hora de novo vejo o rosto de Tobias, meu filho”.
Passados poucos dias chegou Sara com seus servos e rebanhos. Não cabem em descrições a alegria, a exultação e gáudio que nesses dias encheram aquele lar.
Mas aos dois Tobias, pai e filho, lhes parecia que tinham uma grande dívida a saldar. Como agradecer e recompensar devidamente a Azaria pelos seus benefícios? “Que podemos dar a este santo homem que veio contigo?” perguntava o velho pai. “Que lhe podemos dar em proporção dos seus benefícios?” replicava o filho. Por fim, concordaram em lhe dar metade de todas as riquezas que tinham trazido da Média.
Chamaram, então, a Azaria, e, com instância, lhe faziam os seus oferecimentos. Mas o Santo Arcanjo os interrompeu com as seguintes e celestiais palavras:
Bendizei o Deus do céu, dai-lhe glória perante todos os seres vivos, por ter feito resplandecer sobre vós a sua Misericórdia. Porque se é bom guardar em segredo os secretos negócios dos reis, é coisa louvável, entretanto, publicar as obras de Deus.
A oração acompanhada de jejum e da esmola, é melhor do que acumular e mais acumular riquezas: pois a esmola nos livra da morte, ela nos purifica do pecado e nos faz encontrar misericórdia e vida eterna. Mas aqueles que cometem a iniquidade e o pecado, são inimigos da própria alma.
Eu, portanto, vos descubro a verdade, e não guardo em segredo um depósito arcano. Quando tu, com lágrimas quentes, oravas ao Deus do céu, davas sepultura aos mortos, te levantavas em meio da refeição para cuidar dos cadáveres dos teus patrícios, trazê-los a casa, e depois de aí escondidos, sepultá-los nas horas caladas da noite, eu oferecia ao Altíssimo a tua oração.
E foste provado da tentação, porque eras para Deus objeto de predileção.
Mas eis que o Senhor me mandou para curar-te a ti, e para livrar do demônio a Sara, mulher do teu filho.
Pois sabe que eu sou o Anjo Rafael, um dos sete que constantemente estamos na presença do Senhor: “Ego sum Raphael Angelus, unus ex septem qui adstamus ante Dominum”.
Tais palavras fizeram tal impressão em Tobias e seu pai que, tremendo, caíram com a face por terra.
“Não temais, disse o Anjo. A paz seja convosco.”
“Enquanto estive em vossa companhia, por vontade de Deus estive: bendizei-o, pois, e cantai os seus louvores.”
“Parecia-vos que eu comia e bebia convosco: mas eu me sirvo de um alimento invisível e de uma bebida que não pode ser vista pelos homens.”
“Mas já é tempo de tornar àquele que me enviou. Quanto a vós, bendizei a Deus e narrai todas as suas maravilhas”. Dito isto, desapareceu de diante dos seus olhos.
Por três horas ficaram Tobias e seu pai prostrados por terra bendizendo e louvando a Deus. Depois levantando-se, a todos contavam os favores que Deus lhes havia feito. Ainda viveu o velho Tobias quarenta e dois anos. E feliz em sua velhice, partiu em paz para a outra vida. Antes de morrer, chamou o filho e sete jovenzinhos, seus netos, e assim lhes falou: “Ouvi, filhinhos, a este velho pai.
Servi, com coração sincero, ao Senhor nosso Deus, e procurai fazer aquilo que Lhe agrada. Recomendai a vossos filhinhos que façam obras de justiça e esmolas, que se recordem de Deus, louvando-o em todo tempo com coração sincero e com todas as suas forças”.
Depois lhe aconselhou sair de Nínive e transportar-se para a Média.
Assim fizeram eles. Mortos pai e mãe, Tobias, com todos os seus se passou à casa do sogro, em Rages, onde prosperamente viveu anos longos e felizes.
E jamais deixou de louvar a Deus, pelos conselhos e exemplos do seu santo pai, assim como pelos cuidados que com ele tivera e os benefícios que lhe havia feito o Arcanjo Rafael.



[1]     Tob. IV. Honra a tua mãe em todos os dias da tua vida: pois deves lembrar-te de quanto ela sofreu por ti quando ainda não eras nascido… E em todos os dias de tua vida tem a Deus no teu pensamento, guarda-te de consentir jamais no pecado, e de transgredir o preceito do Senhor nosso Deus. Faze esmolas do que tens e jamais voltes as costas aos pobres que a pedem: assim também a face do Senhor não se afastará de ti. — A estes piedosíssimos conselhos, ajuntou outros, principalmente o conhecido “não faças a outrem o que não quiseras que te fizessem a ti” — preceito de lei natural, que também é eficazmente inculcado por N. Senhor Jesus Cristo, como se lê em S. Mat. VII, 12, e S. Luc. VI, 31.
[2]     Eis o que disse o velho Tobias ao separar-se de Tobias o Azaria: Ide e sede felizes, o Senhor seja convosco durante a viagem, e o seu Anjo vos acompanhe. E, chorando Ana pela ausência do filho, assim lhe falou: “Não chores, porque eu creio que o bom Anjo de Deus o acompanha próvido e solícito em tudo o que lhe acontece, para que alegre ele volte um dia para nós”.
        Por aí se vê a crença da Igreja judaica na guarda dos Santos Anjos. — Não menos belo exemplo se encontra no Gênesis (XLVIII, 16), onde se narra que antes de morrer chamou Jacó os seus filhos, e lhes disse: “o Anjo que me livrou de todos os males, abençoe também a estes meus filhos”. — E ao entrar vitoriosa em Betúlia, exclamou Judite: “o Anjo de Deus foi quem me guardou quando daqui me ia, quando longe daqui permaneci, e quando para cá voltei” (Jud. XIII, 20).
[3]     Raquel se separou de Sara e Tobias com estas palavras: “O Anjo santo do Senhor seja convosco na viagem, e sãos e salvos vos conduza ele”. Tob. X, 11.
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