sábado, 2 de janeiro de 2016

ALERTA! - Parte III

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)

PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


1.º Princípio 
Os escrupulosos devem viver tranquilos. Enganam-se e fazem a Deus injúria se imaginam que a vida cristã é um terreno minado, em que a gente se afunda, sem se dar pelo perigo, uma como mata escura, semeada de armadilhas e de ratoeiras para feras.
Não! Não! Deus não é embusteiro e enganador.
Não se comete pecado mortal, sem que se saiba e perfeitamente se saiba, sem que se queira e resolutamente se queira.
“Tenho, dizeis vós, pavor de cometer um pecado mortal!”
E não sabeis que o que mais vos deve tranquilizar é exatamente este temor? O fato de se temer grandemente uma coisa, é prova de se não desejar tal coisa!
Santo Inácio, a quem Leão Daudet recentemente apelidava, “O rei dos psicólogos… O príncipe dos psicólogos” (Daudet, “Les oeuvres dans les hommes”), Santo Inácio, repito, nas suas “Regras para o conhecimento e discernimento dos escrúpulos” julga que o tormento dos escrúpulos “por algum tempo é utilíssimo à alma… pois a ajuda eficazmente a torná-la mais simples e mais pura, desviando-a inteiramente mesmo da aparência do pecado, conforme diz S. Gregório: É próprio de almas santas ver faltas mesmo onde as não há: ‘Bonarum mentium est, ibi culpam agnoscere ubi culpa nulla est’.[1]
“O inimigo (Satanás) repara atentamente se a alma é pouco escrupulosa ou se é timorata. Se é timorata, esforça-se por torná-la extremamente delicada, para assim mais facilmente a precipitar na dúvida e no abatimento. Se observa, por exemplo, que ela não consente nem no pecado mortal, nem no venial, nem mesmo em coisa onde haja sombra de pecado deliberado, então, já que não pode fazê-la cair, nem sequer na aparência de falta, envidará todos os esforços para fazer-lhe crer que há pecado onde realmente não há pecado algum.

Se pelo contrário a alma é pouco escrupulosa, fará o inimigo todo o possível por torná-la ainda menos escrupulosa. Por exemplo: se até então não fazia caso algum de pecados veniais, procurará que também faça pouco caso de pecados mortais, e se ela não fazia algum caso dos pecados mortais, empenhar-se-á em que ela faça ainda menos caso ou os despreze por completo.
A alma, que deseja progredir na vida espiritual, deve tomar sempre um caminho contrário ao do inimigo. Se ele procura que ela tenha pouca delicadeza de consciência, ela há de esforçar-se por tornar-se cada vez mais delicada e timorata: mas se o inimigo quiser torná-la excessivamente timorata, para a levar aos extremos, ela há de empenhar-se em consolidar-se num meio prudente para nele encontrar o seu completo repouso”.
Santo Inácio dá-nos ainda outras normas preciosas nas “Regras para o discernimento dos espíritos”: “Nas pessoas, que lutam corajosamente por se purificarem de seus pecados e que vão, de bem a melhor, no serviço de Deus Nosso Senhor… é próprio do mau espírito provocar nelas a tristeza e tormentos da consciência, opor-lhes obstáculos e perturbá-las com razões enganosas, para impedir-lhes o progresso no caminho da virtude; e pelo contrário é próprio do bom espírito dar-lhes coragem, forças e consolá-las… conservar-lhes a tranquilidade, facilitar-lhes o caminho para que, vencidos todos os obstáculos, progridam no caminho do bem”.
“É muito próprio de Deus e dos seus Anjos, quando atuam numa alma banir dela a perturbação e a tristeza, que o inimigo nela tenta introduzir, e infundir nela a verdadeira alegria e a consolação espiritual”. E o inimigo pelo contrário tenta combater esta alegria e consolação interior com razões aparentes, sutilezas e ilusões”.
“O anjo bom costuma tocar branda, ligeira e suavemente a alma dos que vão progredindo em virtudes: opera, por assim dizer, com a suavidade com que uma gota d’água vai penetrando numa esponja”.
“O anjo mau, pelo contrário, a toca duramente, com barulho e agitação, à semelhança da água caindo em dura rocha”.
Obedeça cegamente a alma, demasiado timorata, ao seu confessor, assim o pedem tanto a sabedoria humana como a humildade cristã.
Considero como perigo muito sutil esses escrúpulos que fazem considerar a vida cristã, como um fardo tão insuportável, do qual só se procura desembaraçar-se dele: de modo que o rigorismo termina, por vezes, em laxismo.
O escrupuloso deve tomar a firme resolução de não mais estar em cuidados com as coisas já acusadas em confissão, exceto no caso (quase só teórico para ele de ter algum pecado certamente mortal e certamente ainda não confessado).
Atire confiado as suas pusilanimidades à misericórdia de Deus e persuada-se do que nada tem que temer, porquanto até as mesmas culpas mortais, esquecidas em confissão, ou sem malícia caladas, lhe são indireta mas realmente perdoadas.
Terá que recordá-las na confissão seguinte? Sim, se verificassem a dupla certeza de que acima falamos; o que, porém, para o escrupuloso, raramente acontece.

2.º Princípio

Será possível cair-se em pecado grave durante o sono, por sonhos ou outras quaisquer impressões?
Nem gravemente nem levemente, pois é um contrassenso o imaginar-se que se dá consentimento enquanto se está dormindo. O sono é, numa pessoa, incompatível com o seu consentimento.
E durante a semivigília? por exemplo, pela manhã e à noite, no estado indeciso entre o de consciência e o de sono?
O problema é mais delicado.
A inconsciência é lentamente progressiva: até que grau chegou ela já? Avantaja-se ela ao estado consciente ou subsiste este ainda, ao menos substancialmente? Se realmente há já semivigília, já não subsiste senão uma semiconsciência e, então já se pode cometer pecado venial, nunca porém, mortal, que por definição supõe deliberação plena e perfeito consentimento.
O princípio é muito simples (seja qual for a sua aplicação talvez difícil de resolver-se): há ainda, sim ou não, conhecimento e volição?

* * *
Se o jovem, durante a noite, sentisse certos fenômenos característicos,[2] como há de haver-se? Enquanto não despertar, não tem a questão de moralidade cabimento algum, por se tratar de um fenômeno, que se deu durante o sono. Evite todavia, enquanto está desperto, dar causa voluntária a perturbações, como são: leituras, desejos voluntários, relações perigosas, etc.
Quando, porém, estiver desperto? Neste case, não deve evidentemente consentir nem provocar o fenômeno, inconscientemente começando. E, se realmente não houver perigo próximo de consentimento, está ele obrigado a mudar de posição, aliás conveniente, ou a levantar-se? Não. Mas mostraria maior soma de generosidade se o fizesse, e é mister recomendar-lh’o muito, sobretudo quando não haja inconveniente ou possa ainda assim impedir o resultado previsto.

3.º Principio

Acontece que alguns, sendo ainda muito crianças praticaram certos atos contrários à pureza. Só mais tarde, ao ouvirem um sermão ou durante um retiro, se capacitam da ação cometida na infância, e dizem consigo: “Mas o que eu então pratiquei era coisa gravemente proibida!” Terão eles caído em pecado mortal? Não. Peca-se só quando há consciência da ação praticada.
Se presentemente eles reconhecerem o caráter de culpabilidade da ação, outrora praticada e a aprovarem, assumem, neste caso, a responsabilidade do ato, pois que nele se realizaria a gravidade objetiva juntamente com a malícia subjectiva. Mas trata-se de uma ação outrora cometida. Ora naquela época, por hipótese, ignorava-se que o objeto da culpa fosse, em si, pecado mortal. Não foi o pecado portanto perpetrado. A não ser, está claro, que esta ignorância fosse voluntariamente admitida, não teria havido senão a gravidade material do pecado e de modo algum o elemento moral de responsabilidade, necessário ao constitutivo do crime.
Se persistissem dívidas na consciência bem fundadas, por ter havido algum conhecimento da malícia de tais ações, seria útil confessá-las.
Praticamente só se sente o jovem, neste e noutros casos parecidos, aliviado e tranquilo depois de se ter confessado.



[1]             É pelo menos, a regra geral. Já notamos que numa mesma alma se pode alojar dois hóspedes tão diversos como o pecado mortal e o escrúpulo. A vizinhança, porém, não dura muito, pois um mata o outro.
[2]             A frequência de tais fenômenos, muito diversa, pode oscilar entre uma vez por semana e uma vez por trimestre. Este número varia “segundo os indivíduos, o clima, o regime. E repete-se desde uma vez por semana até uma vez cada dois ou três meses; nestes limites, estes fenômenos iterados, são compatíveis com o bom estado de saúde”. (Dr. James Paget).
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