quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A ação divina continua nos corações a revelação começada nas segredas Escrituras; más as letras de que se serve para a escrever, só no grande dia da eternidade serão visíveis

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

O ABANDONO À DIVINA PROVIDÊNCIA
pelo
P.J.P de Caussade, S.J


CAPÍTULO V
A ação divina continua nos corações a revelação começada nas segredas Escrituras; más as letras de que se serve para a escrever, só no grande dia da eternidade serão visíveis

            Jesus Cristo, diz o Apóstolo, era on­tem, é hoje e será até ao fim dos séculos. Desde a origem do mundo, era como Deus o princípio da vida das almas justas; a sua humanidade, desde o pri­meiro instante da Encarnação, partici­pou desta prerrogativa da sua divindade. Opera em nós todo o tempo da nossa vida: o tempo que há-de decorrer até ao fim do mundo não é mais do que um dia, e este dia é um dia cheio de Jesus. Jesus Cristo viveu e vive ainda; come­çou em si mesmo e continua nos seus santos uma vida que não acabará nunca, ó vida de Jesus que se estende e so­breleva a todos os séculos; vida que em cada momento vai realizando novas atividades. Se o mundo todo não é capaz de compreender tudo o que se poderia escrever da vida de Jesus, do que fez e do que disse sobre a terra; se o evange­lho não nos debuxa senão alguns pe­quenos traços dela; se a primeira hora é tão desconhecida e tão fecunda, quan­tos evangelhos haveriam de escrever-se para fazer a história de todos os momen­tos desta vida mística de Jesus Cristo, que multiplica ao infinito as maravilhas e as multiplica eternamente, pois todos os tempos, propriamente falando são apenas a história da ação divina?

            O Espírito Santo fez notar, em ca­racteres infalíveis e incontestáveis, al­guns momentos desta vasta duração, é recolheu na Sagrada Escritura algumas gotas deste mar. Aí vemos as maneiras secretas e ignoradas pelas quais fez apa­recer Jesus Cristo no mundo e podemos seguir os canais e as veias que, na con­fusão dos filhos dos homens distinguem a origem, a raça, a genealogia deste primogênito. Todo o Antigo Testamento não é senão um esboço das profundezas imu­táveis desta obra divina; não há nele senão o que é necessário para che­gar a Jesus Cristo. O Espírito divino guardou tudo o resto escondido nos tesouros da sua sabedoria. E de todo esse oceano da ação divina, não faz senão aparecer um fiozinho de água, que che­gando a Jesus se perdeu nos Apóstolos e se abismou no Apocalipse. E assim a história desta divina ação, que con­siste em toda a vida que Jesus vive nas almas santas até ao fim dos séculos, não pode ser adivinhada senão pela nossa fé.
            À manifestação da verdade de Deus pela palavra, sucedeu a manifestação da sua caridade pela ação. O Espírito Santo continua a obra do Salvador. Ao mesmo tempo que assiste a Igreja na pregação do Evangelho de Jesus Cristo; escreve ele mesmo o seu próprio evan­gelho e escreve-o nos corações: todas as ações, todos os momentos dos santos são o Evangelho do Espírito Santo. As almas santas são o papel, os seus sofri­mentos e ações são a tinta. O Espírito Santo por meio da pena da sua ação escreve um evangelho vivo; mas não se poderá ler senão no dia da glória, em que depois de ter saído dos prelos desta vida será enfim publicado.
            Ó história deliciosa! Ó livro encanta­dor que o Espírito Santo está escrevendo atualmente! Ó almas san­tas! Não há dia em que se não vão com­pondo as letras, aplicando a tinta, impri­mindo as folhas. Mas nós estamos na noite da fé, o papel é mais negro que a tinta, há confusão nos caracteres em­pregados, é uma língua do outro mundo, não compreendemos nada deste livro. Só no céu o poderemos ler. Se nos fosse dado ver a vida de Deus e considerar todas as criaturas não em si mesmas mas no seu princípio; se pudéssemos ver a vida de Deus em todos os objetos; como a ação divina os move, os com­bina, os ajunta, os dirige todos para o mesmo fim, por opostos caminhos, reconheceríamos que tudo tem a sua razão de ser, a sua medida, as suas relações nesta divina obra.
            Como porém ler este livro, cujos ca­racteres nos são desconhecidos, inumerá­veis, dispostos ao revés e cobertos de tinta? Se a mistura de vinte e quatro le­tras é incompreensível, de modo que elas bastam para compor uma série infi­nita de volumes diferentes e todos admi­ráveis no seu gênero, quem poderá ex­primir o que Deus realiza no universo? Quem poderá ler e compreender o sen­tido de tão vasto livro, no qual não há uma letra que não tenha a sua figura particular e que na sua pequenez não encerre profundos mistérios! E os mis­térios não se vêem nem se sentem: são objeto da fé. A fé não julga da sua ver­dade e da sua bondade senão pelo seu princípio; porque em si mesmos são tão obscuros que todas as suas aparências não servem senão para os esconder, para cegar os que julgam só da razão.
            Ó divino Espírito Santo, ensinai-me a ler este livro! Quero tornar-me vosso discípulo, e com a simplicidade duma criancinha, crer o que não posso ver. Basta-me que o meu mestre fale. Ele diz isto, ele fala assim, ajunta as letras deste modo, faz-se ouvir desta maneira; isto me basta para eu crer que é tal qual como Ele disse. Não vejo a razão dessas coisas; mas Ele é a verdade infalível, e tudo o que Ele diz e faz é verdadeiro. Ele quer que essas letras estejam colo­cadas juntas para formar uma palavra, e que um determinado número de letras forme outra. São três, são seis, isso basta e menos fariam um sentido falso; só Ele, que sabe os pensamentos, pode ajuntar as letras para os escrever. Tudo tem significação, tudo tem sentido perfeito. Esta linha termina aqui, porque assim deve ser; não falta nem uma vírgula, não há um ponto que seja inútil. Assim o creio presentemente; e quando o dia da glória me revelar tantos mistérios, então verei o que agora não compreendo senão confusamente; e o que me parece tão embrulhado, tão complicado, tão falto de sentido, tão falto de nexo, tão imaginário tudo isso me arrebatará, me encantará por toda a eternidade, com a beleza, a ordem, a sabedoria e as incom­preensíveis maravilhas que «em tudo des­cobrirei.
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