domingo, 6 de dezembro de 2015

O COMBATE DE CADA UM - Parte II

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)

PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.
 

4.º Elemento de relatividade: “o estado geral do indivíduo”

“O desejo das coisas sensuais é influenciado pelo estado de todo o organismo. Todas as causas de enfraquecimento podem atenuá-lo, e todas as causas de excitação podem estimulá-lo”. (Dr. Feré. L’instinct sexuel).
A atividade total influi sobre a atividade especial, de que aqui se trata.
E assim é que os colegiais durante os seus concursos e os acadêmicos durante a preparação para os exames, ou depois de prolongadas vigílias, se sentem mais tentados. Vivem num estado de excitação, que mais facilmente os conduz a estes sentimentos apaixonados.
Dá-se semelhante repercussão nas manifestações da tísica,[1] devido ao estado febricitante do paciente, e na cocainomania.[2] E tão grande é este perigo social, hoje em dia, que a lei francesa houve de intervir com rigor, em 1916, e a lei belga, por duas vezes, lhe procurou pôr freio (Monit. Belge, 29 nov. 1920 et 6 mars 1921).[3]

Entre as causas que, direta ou indiretamente, levam à lascívia, têm o primeiro lugar as que atuam sobre o sistema nervoso. É coisa evidente.
O prazer sensual é de origem nervosa, e o centro genético está situado na medula espinal, na altura da quarta vértebra lombar.[4]
A consequência é lógica: com muita facilidade a excitação nervosa difusa se concretiza e se resolve em sensações lúbricas, porquanto estas se originam no mesmo sistema nervoso.
Podereis acaso entrever todos os corolários deste princípio, num tempo em que se multiplicam as causas que estonteiam e desconcertam a nossa delicada máquina nervosa? Em nossos tempos a reserva enérgica está quase sempre em deficiência.
Ora tanto a depressão nervosa como a exaltação mórbida, ou tanto a deficiência como o excesso é que nos dão a explicação de tais tentações. Mas como? Porque o sistema nervoso de um tal indivíduo é um acumulador que bruscamente se descarregou, uma pilha de Volta que não tem mais ação. Estes fracalhões já não dispõem, digamos assim, de mais energias para resistirem: o poder e o querer já não são neles coexistentes. A vontade, que neles faz ofício inibitório, assemelha-se a um freio Westinghouse, que não mais funciona.
Referindo-se a estes pobrezinhos, anêmicos e fracos, dizia um professor de teologia moral: a cura não há de ser tão somente moral: convém aconselhar-lhes os bifes e o bordeaux.
Causa-vos isto, por ventura, surpresa? Santa Teresa com a muita humildade e sutileza, que a caracterizavam, escrevia: “Há dias que me sinto tíbia; mas prescrutando-me bem, vejo que é por não estar bem-disposta, por não haver digerido bem e ter dormido mal. Em outros dias sinto-me fervorosa: mas examinando melhor a causa, observo que tenho passado melhor, tendo digerido e dormido bem”.
Ora, se uma Santa Teresa assim sentia, que dizer do comum dos mortais?
O homem é um composto indivisível de alma e de corpo. Nele estas duas realidades fundem-se numa união, não somente íntima, senão também “substancial”.
Daqui facilmente se deduz que, geralmente, o pleno domínio da vontade pressupõe certas condições de saúde, de equilíbrio psíquico e, em frase moderna, um pouco rebuscada, “de eufonia”.

5.º Elemento de relatividade: as circunstâncias exteriores

Não vivemos simplesmente sob a dependência dos elementos intrínsecos, que acabamos de enumerar (temperamento, crises, hereditariedade, saúde). Grande influência têm em nós as circunstâncias exteriores, tão numerosas que nos é impossível apontá-las todas, e tão variadas que não há confundi-las umas às outras: roupas muito apertadas, estofos de seda, costume de conservar as mãos nos bolsos, falta de asseio, causadora de pruridos, exercícios de ginástica, às vezes, o simples cruzamento de pernas, brinquedos de mão, delicadezas das iguarias, regime exclusivo de carne quando fora mister alimentar-se mais de frutas e de legumes, alimentos excitantes, como lagostas, etc., comidas apimentadas, excesso de café muito forte, de vinho ou de licores sobretudo tomados à noite.
É também digna de nota a influência do clima. Os habitantes dos países tropicais são mais propensos à sensualidade do que os de países onde domina o rigor do frio. Em geral, o calor é um estimulante, e o frio um calmante.
As estatísticas apresentam-nos maior número de crimes passionais no verão do que no inverno. A volta da primavera assinala-se por um agravamento dos sentimentos eróticos.
Reservamos para mais tarde o capítulo “as ocasiões” e outras causas excitantes de natureza mais artificial, inventadas pela paixão, como são: o baile, o cinema, pinturas, etc.

6.º Elemento de relatividade: “o sexo”

Em matéria de castidade, o rapaz ordinariamente é mais arrastado por tentações violentas do que a donzela (e tem por conseguinte ocasiões de maiores méritos).
Manifestações de carinho pode dar-se entre donzelas, sem o menor inconveniente, ao passo que entre jovens dão ocasiões a não poucos perigos.
Enquanto ao incitamento às paixões, pode uma mesma ação dar lugar a uma variedade de gradações, para mais ou para menos, quando praticada;
ou por donzelas;
ou por moços;
ou por jovem e donzela.

* * *
Geralmente falando, nesta matéria mais que nas outras se pode, salvaguardadas sempre as exceções, afirmar que a paixão, sobretudo quando ela se manifesta com maior violência é antes masculina do que feminina.
Mas não é, por ventura, uma jovem, mais sensível ao amor?
Sem dúvida. Mas sob aspecto muito diverso: sob forma de manifestações afetivas e delicadas, sob a forma de uma vaidade melíflua por se ver requestada. Observai como, ao falardes de sua beleza, ela se cobre de rubor (perdão! de cor-de-rosa) pelo prazer que isto lhe causa.
A grande tática da mulher, toda a sua sagacidade e os seus meneios de rola garrida, não denunciam de ordinário uma paixão propriamente dita, mas simplesmente o desejo em que cifra toda a vida e toda a ambição feminina: querer agradar.[5]
J. Lemaître, analisou atiladamente esta psicologia na La Vieillesse d’Héléne, “A bela Helena… (era) adorada pelos habitantes de Argos e da Frígia; a Europa e a Ásia digladiavam-se por causa dela. A sua glória chegara ao seu auge. A sua beleza enriquecera a linguagem do país com muitos ditos e provérbios. Desencadeara ela de fato as mais furiosas paixões sem, porém, se sentir comovida e deixando-se levar simplesmente pelo prazer de ser tão amada. Comprazia-se sobretudo com a sua influência dominadora”.
Mas objetarão certamente: “E o que dizer de tantas quedas femininas?”
Tais casos as mais das vezes têm sua explicação em causas estranhas a este gênero de paixões: cairá a jovem no mal ou por necessidade de dinheiro, ou por incentivo de lucro ou pela cobiça de joias, para sustentar-se no luxo, ou por temor, por imprudência, até mesmo por ingenuidade.
Não se pode, além disto, negar que, tratando-se de paixões, o hábito influi muito e contribui para excitar as más inclinações.

7.º Elemento de relatividade: “a idade”

Este elemento é, talvez, o principal: e assim mui de propósito, reservamos a este estudo o último lugar. A tentação não é, como se poderia imaginar, um fenômeno desconhecido do menino nem mesmo da criancinha. Esta inclinação existe nele, mas geralmente em estado latente. Está dormente, e só se desperta realmente na época de transição, que comumente é chamada: a puberdade.
“A esta gentileza de rapaz faltava o que deve completá-lo para o tornar varão: as cicatrizes do combate e o sinal da tentação debelada. A hora vai chegar.
E chegará o instante em que a pureza, que para vós era a posse tranquila de um bem, se há de tornar uma nobre conquista de esforços e de lutas…
Produz-se em vós uma como perturbação parecida à que se dá num reino tranquilo, subitamente alvorotado por agitações intestinas. Se fordes procurar vossos gozos nestes desacordos profundos que vos fazem ouvir vossos sentidos, até então órgãos dóceis das belas harmonias de vossa alma… não vereis, bem depressa em vós, senão ruína”.[6]
“A puberdade, diz o Dr. Beaunis, é um segundo nascer”.
Quanto ao moral: sente o adolescente misteriosas comoções, desejos de fantásticas aventuras. É o momento dos devaneios e do sentimentalismo, de lágrimas sem causa e de rubores súbitos. Os dardos das paixões fazem-se sentir. A pureza deixa de ser inocência para se tornar virtude.
Quanto ao físico: o corpo sofre profundas modificações e deixa de ser o corpo de criança e se torna um corpo de homem. Verifica-se assim o dito de Chateaubriand: “Vai-se a dormir criança para se despertar homem”. Nesta quadra dá-se uma mudança na voz, a aparição local do sistema piloso, o despontar nos lábios do buço a que o jovem, com ares de importância, dá o nome de “bigode” e de que tanto se ufana e que corta de propósito para reaparecer mais basto (Não sentirá tanto gosto nele quando depois houver de escanhoar-se de dois em dois dias para se tornar mais apresentável!…).
Os fenômenos da puberdade não se patenteiam de súbito, senão lenta e normalmente: no moço revelam-se por volta dos quatorze anos e na menina aos doze.
Podem-se, porém, antecipar artificialmente intervindo certas causas, tais como as excitações do meio. O clima meridional faz a puberdade mais precoce do que o clima russo.[7]
Os educadores bem sabem com quanta paciência se hão de haver para com os jovens que alcançaram esta idade crítica. A agitação nervosa, que manifestam não provem tanto de uns seres revoltados, quanto de uns doentinhos.

* * *
A paixão, despertada com a puberdade, cresce em violência durante a mocidade e no primeiro período da idade viril; depois diminui lentamente para enfraquecer-se ou por completo se extinguir na velhice. A sua normal é ascendente, e depois descendente; tal é por assim dizer, o diagrama.
Mas, observemos ainda, não se devem perder de vista as exceções, as anomalias e todos os casos que não é possível sujeitá-los a uma regra geral. Assim é que no seu termo pode a virilidade sofrer alguma crise. No romance consagrado a este assunto: O demônio do meio-dia, nos adverte P. Bourget que não se trata do meio-dia “do dia”, mas do meio-dia “dos dias”. Não é isto difícil de compreender.
Na idade de que falamos apreciam-se mais as realidades sensíveis. Tornam o homem menos fantasista e mais positivo, no mau sentido da palavra. A gula, por exemplo, de ordinário, acentua-se mais com a idade; e o próprio Santo Agostinho experimentava esta humilhante tentação da mesa (Cf. L. X. C. 31).
A conclusão que daqui se deduz, caro jovem, é muito importante; isto é, para os defeitos ou vícios, sejam eles quais forem, é mister não lhes adiar a emenda nem esperar pela idade madura e muito menos pela velhice.
Não digais nunca: mais tarde! A experiência nos ensina que quanto mais o homem avança em anos, menos se corrige. As probabilidades da conversão[8] estão quase sempre em razão inversa dos anos.
Não há dúvida que o jovem é mais tentado, mas reconhece que se trata duma questão de vida ou de morte para ele; e tem mais energia vital. Não está ainda calejado no pecado, e podem até as quedas, no seu primeiro período, coexistirem com os escrúpulos. Mas com o tempo o homem endurece-se no corpo e nos sentimentos e, enchafurda-se nas sensualidades grosseiras, sem respeitos alguns, nem vergonha.
É-lhe mais difícil corrigir-se aos trinta anos do que aos vinte.
É mais difícil aos quarenta do que aos trinta. E aos cinquenta anos é ainda mais difícil do que aos quarenta.[9]
Como explicar semelhante fenômeno? Pelo abuso da Graça. Com o andar dos anos, os hábitos tornam-se um sestro moral, uma operação irrefletida. O vicioso volta ao seu pecado, como um homem apatetado, embrutecido, volta ao seu álcool.
E depois, a prostração senil!
Todo o sistema de defesa se acha comprometido.
Num ataque não se há de olhar só à violência do ataque em si, mas também à força da violência. O assalto pode não ser tanto violento mas a fortaleza cederá se a cúpula tiver fendida e toda arruinada.


[1]             Este fenômeno “manifesta-se até no primeiro grau da tuberculose pulmonar”. (Dr. Bergeret, Medicine, pg. 130). O fato é confirmado pelo Dr. Rulot, Insp. de Higiene em Bruxelas.
[2]             O Dr. Piouffle, no seu livro, Psychoses cocaïniques faz notar que este efeito da cocaína não é direto, mas indireto, o que é provável, porquanto a exaltação geral resolve-se nesta agitação particular e também porque a embriaguez provocada pela cocaína suprime o pudor e releva o fundo real de vis tendências. O vinho atua de um modo parecido. Costuma-se dizer: in vino, veritas. E semelhantemente se pode dizer: in cocaina veritas!
         Na embriaguez, resultante da cocaína, apontam-se três fases: a fase da exaltação, a delirante e a comatosa: durante este terceiro período depressivo opera-se a resolução muscular e o sono profundo. A cocaína não é, porém, um narcótico (a não ser que seja tomada em grande dose), mas é pelo contrário um tóxico euforístico, empregado por aqueles que desejam sentir um estado de êxtase ou de arroubo em paraíso artificial: sentem-se mais felizes, experimentando a impressão de serem um duplo homem.
         A morfinomania provoca uma alegria passiva, a felicidade do repouso. A cocainomania, uma alegria ativa, a facilidade no movimento. Manifesta-se o prurido motor. A cocaína é muito alucinogênica: alucinações visuais, alucinações gustativas e olfativas, sensações táteis imaginárias, produtoras do fenômeno singular “coceira cocaínica” e do ardor cutâneo; alucinações micrópsicas (tudo aparece pequeno) ou megalópsicas (tudo aparece grande).
         Os estados de demência ou de perturbação provocam crimes e mortes.
         “O sentido genital exalta-se na mor parte desses indivíduos, no caso de as doses tóxicas não serem nem demasiado fortes nem muito frequentes. Dando este caso já a impotência se manifesta e não cessa senão quando a vítima se desacostuma”.
         Aparece frequentemente a excitação genital na primeira fase dos efeitos da cocaína.
[3]             Cf. La defense sociale par le Dr. Vervack. “Em vários países: nos Estados Unidos, Itália e Alemanha, o perigo tóxico tomou um desenvolvimento grave. Nos Estados Unidos promulgou-se uma legislação inteiramente proibitiva. A Alemanha é a grande produtora destes tóxicos”. O perigo ameaça também a Inglaterra: O jornal Croix de 28 de abril de 1922 escrevia: “Nota-se que os ingleses se deixam dominar por um vício, que entre eles faz grandes progressos: o uso cada dia maior dos narcóticos… O resultado é crescerem os divórcios; havendo uma quinzena de suicídios em três meses apenas. Quanto à Bélgica, um grito de alarme foi dado pela Libre Belgique de 13 de maio de 1922. A conclusão do artigo (Toxicomania e Toxicômanos) era: “Força é que se tomem novas medidas, e que a sociedade se defenda com energia contra os miseráveis que ganham a vida vendendo… o pó de morte, as drogas infernais causadoras da ruína, da desonra, da loucura, por alguns cêntimos cada pacotinho”.
[4]             Dr. Bourgeois, Les Passions Antonelli, Medicina pastoralis.
[5]             Muitas jovens católicas seguiriam mais fielmente as muitas recomendações dos Bispos a respeito da moda, se conhecessem as terríveis tempestades que levantam nos corações dos jovens. Estando elas pessoalmente ao abrigo das veementes lutas internas, não podem bastantemente aquilatar os sentimentos que despertam n’alma dos jovens, sentimentos não análogos aos seus, de uma terna afeição, mas de uma concupiscência brutal.
[6]             Em. Barbier. Allocut. de collége.
[7]             Marro. La Puberté.
[8]             Falamos da conversão em si, e não das circunstâncias que tornam a virtude mais difícil: decrescimento das paixões, etc… …
[9]             Fenômeno análogo se observa num assunto diverso: o menosprezo da vida. Naturalmente parecia mais crível que um jovem possuidor da reserva ainda intacta de ardor e de ilusões, houvesse de temer a morte mais do que o velho. É um engano! O jovem é generoso em tudo até mesmo em aceitar a morte. Frequentemente admiramos crianças, jovens, oferecerem com o sorriso nos lábios o sacrifício da própria vida, enquanto os velhos se aferram desesperadamente com as unhas e dentes à vida. Parece um paradoxo, mas é assim mesmo! As cifras acima aduzidas também aqui têm lugar. A repugnância à morte aos trinta é maior do que aos vinte anos; é maior aos quarenta do que aos trinta; é ainda maior aos cinquenta do que aos quarenta. E para além dos cinquenta!… …
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