domingo, 6 de dezembro de 2015

Deus revela-se-nos nos acontecimentos mais comuns, de maneira tão misteriosa porém tão real e tão adorável como nos grandes acontecimen­tos da história e nas sagradas Escrituras

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

O ABANDONO À DIVINA PROVIDÊNCIA
pelo
P.J.P de Caussade, S.J


CAPÍTULO IV
Deus revela-se-nos nos acontecimentos mais comuns, de maneira tão misteriosa porém tão real e tão adorável como nos grandes acontecimen­tos da história e nas sagradas Escrituras

            A palavra de Deus escrita é cheia de mistério; mas não o é menos a sua palavra realizada nos acontecimentos do mundo. Estes dois livros são verda­deiramente livros sagrados e a letra de ambos mata. Deus é o centro da fé; é um abismo de trevas, que deste fundo se espalham sobre todas as produções que saem dele. Todas essas palavras, to­das essas obras não são, por assim dizer, senão raios escuros dum sol mais escuro ainda. Em vão abrimos os olhos do corpo para ver esse sol e os seus raios? os olhos da nossa alma, pelos quais vemos a Deus e as Suas obras, são olhos que se mantêm fechados. As trevas ocupam aqui o lugar da luz; o conheci­mento é uma ignorância e vemos não vendo. 

A Sagrada Escritura é a lingua­gem misteriosa dum Deus ainda mais misterioso; os acontecimentos da história são palavras escuras desse mesmo Deus escondido e desconhecido. São gotas do mar, mas dum mar de trevas. Todas as gotas, trazem a marca da sua origem. A queda dos Anjos, a queda de Adão, a impiedade e idolatria dos homens, antes e depois do dilúvio, do tempo em que viviam os Patriarcas, que sabiam e contavam a seus filhos a história da criação e da conservação, ainda muito recente; eis outras tantas palavras bem escuras da Sagrada Escri­tura. Um punhado de homens preserva­dos da idolatria na perda geral de todo o mundo, até à vinda do Messias; a im­piedade sempre reinante, sempre pode­rosa; esse reduzido número de defenso­res da verdade, perseguidos sempre e mal­tratados; os atrozes tormentos infligidos a Jesus Cristo, as pragas do Apocalipse, são palavras misteriosas de Deus, que Ele mesmo revelou e Ele mesmo di­tou! E os efeitos destes terríveis mis­térios que continuam até ao fim dos sé­culos, são ainda a palavra viva que nos ensina a sua sabedoria, o seu poder, a sua bondade. Todos os acontecimentos que formam a história do mundo expri­mem e glorificam estes diversos atribu­tos. São porém uma coisa que se deve crer; não se vê.
            Que quer Deus dizer, por meio dos hereges, dos cismáticos, de todos os ini­migos da sua Igreja? Todos são uma pro­clamação esplendorosa; todos signifi­cam as infinitas perfeições. Faraó e quantos ímpios vieram após ele e vi­rão até ao fim dos séculos não têm outro destino. Certamente, se abrimos os olhos parecer-nos-á ver o contrário; mas temos de nos cegar e deixar de ra­ciocinar, para nesses fatos reconhecer mistérios divinos.

            Falais, Senhor, a todos os homens em geral, pelos acontecimentos univer­sais. As revoluções não são todas senão como vagas da vossa Providência, que desencadeiam tempestades nos raciocínios da gente curiosa. Falais em parti­cular a todos os homens, pelo que lhes sucede de momento a momento. Mas em lugar de ouvir nisso a vossa voz, de respeitar a vossa palavra obscura e cheia de mistério, somente se considera a matéria, o acaso, o humor dos homens. A tudo temos que dizer, querendo acres­centar, diminuir, reformar; toma-se uma liberdade completa de cometer excessos, o menor dos quais seria um atentado inaudito, se se tratasse duma só vírgula das Escrituras Sagradas. Estas, porém respeitam-se, dizendo: é a palavra de Deus, tudo aí é santo, verdadeiro.

            Se nada compreendemos, a nossa ve­neração é ainda maior; prestamos home­nagem à profunda sabedoria de Deus. Tudo isso é bem justo. Mas o que Deus vos diz, caras almas, as palavras que pr­nuncia momento após momento, que têm como corpo não a tinta e o papel, mas o que vós sofreis, o que vós tendes a fazer de um momento ao outro, não merecerão nada da vossa parte? Porque não respeitais em tudo a verdade e a vontade de Deus? Não há nada que vos não desagrade; censurais tudo. Não re­parais que medis pelos sentidos o que não se pode medir senão pela fé? e que lendo com os olhos da fé a palavra de Deus na Sagrada Escritura, procedeis de modo completamente errado se ledes com outros olhos as suas realizações?
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