domingo, 20 de dezembro de 2015

ALERTA! - Parte II

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)

PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


O Inimigo 
Meu caro jovem, o grande inimigo da tua alma, o que te reduziria à dura escravidão e té deixaria despojado mais do que os alemães tentaram fazer com a Bélgica, é o pecado mortal.
Importa, pois, grandemente entender qual seja a malícia e a gravidade do pecado mortal da impureza; tanto mais que ouvimos, por aí, muita vez, falar muito livremente e até dizer: “mas é coisa muito corrente!”
Como, porém, nos é grandemente difícil aquilatar-lhe o grau da sua malícia intrínseca, procuremos antes estudá-la nos seus efeitos.
Santo Inácio em uma das suas meditações, aliás bem conhecida, nos convida à consideração de três grandes ruínas, consequências de três grandes pecados.
Reproduzimos aqui os três quadros do tríptico inaciano:
1.º Quadro: — Os anjos habitam o céu: são belos, felizes, são os mimosos primigênios do poder criador.

Caem em culpa. E qual? Talvez a de se revoltar contra a Incarnação, que lhes fora revelada, e na qual viam a Deus unido a uma natureza inferior à deles: o Homem—Deus.
Inútil parece o indagar qual fosse o objeto especial daquele pecado.
O que é certo é ter sido essa culpa um pecado de orgulho, o único possível à sua natureza, totalmente espiritual e ainda na posse da sua integridade primitiva.
Caem do céu, como raios, e são precipitados nos abismos infernais. Lúcifer caindo, é Satanás…!
Os anjos rebeldes tornaram-se demônios!
E que aconteceu a estes anjos de luz para assim se tornarem demônios e a que Jesus Cristo, como refere o Evangelho, dá o epíteto de imundos: “Retira-te, espírito imundo”…?
Cometeram um pecado mortal.
Revestia-se, sem dúvida, esta culpa de excepcional gravidade, pois fora cometida em plena luz, contra a luz! Mas afinal fora uma única culpa…
Ora, Deus não se extralimita, como o homem que se deixa arrebatar pela cólera. Quando deve punir, é porque existe uma verdadeira equação entre o delito e a pena.
2.º Quadro: — Adão e Eva, as duas admiráveis flores humanas desabrocham, cheias de encanto, no paraíso terreal. Compartilham toda sorte de felicidades, que também deve caber em herança à grande família humana.
Cometem, porém, um pecado mortal.
Olhai para o castigo! Perdem para si e para seus descendentes todos os dons sobrenaturais e preternaturais que o Senhor, gratuitamente, lhes outorgara.[1]
O Paraíso terrestre tornou-se-lhes o “vale de prantos”.
Fazei, pela mente, a adição de todos esses milhões de prantos, durante o correr dos séculos que se passaram.
Desde o dia da culpa, brotaram no antigo Paraíso três grandes rios, que hão de banhar para sempre a terra: o rio pálido das lágrimas, o rio turvo de lama, o rio vermelho de sangue.
Jesus Cristo instituirá para santificar o homem, os sete Sacramentos, como sete mananciais de graça, opondo assim os sete rios limpidíssimos aos três rios de prantos, de vergonhas e de crimes.
Após a queda, foi pronunciada esta sentença contra Eva:
“Darás à luz na dor…”
E desde então todo o nascimento se torna penoso: não só o de mãe, mas também o do trabalhador, o do artista e o do gênio. Quem produzir algo sobre a terra, seja quem for, ou o homem do trabalho, ou sábio ou sacerdote, está sujeito à lei: “Darás à luz na dor”.
A morte, a terrível morte, entra no cenário do mundo. O homem pecador, diz, sorrindo: “O pecado mortal, não mata ninguém”.
Não mata? E todavia a morte só veio por causa dele.
“A morte é o estipêndio do pecado”. (Rom. 6-23).
E tu, ou queiras ou não, hás de morrer por causa deste pecado de Adão e Eva.
Caem, ceifados pela mão da morte, 140 mil vítimas ao dia! 97 por minuto! Esta culpa é pois punida 140 mil vezes ao dia!
Quantos infelizes estão agonizando neste mesmo instante!
Nossa vez chegará também. Repitamos pois o que acima dissemos: um pecado mortal fora cometido; pecado muito grave, mas um único. E o castigo d’Aquele que São Paulo apelida o Justo Juiz, “Justus Judex”, não pode exceder a real gravidade da culpa.
3.º Quadro: — Um homem que afinal vivera até então dignamente, comete um pecado mortal; um pecado mortal, e por tanto não cometido como por surpresa, semiconsciente e semi-involuntariamente, mas praticado com plena deliberação e com revolta.
Este homem se morresse, sem se ter antes reconciliado com Deus, seria precipitado no inferno. E contudo, repitamo-lo ainda outra vez, não se trata aqui de cem pecados mortais, nem de dois, mas de um apenas. E a justiça de Deus é perfeita.
Dada a hipótese de uma tal morte, a que se refere S. Inácio, a conclusão é rigorosamente teológica.
Mas ter-se-á realizado de fato muitas vezes?
São segredos de Deus.
Não podemos ter certeza de que um homem seja condenado, ainda que pareça morrer no ato mesmo de pecar. É com efeito, ainda até hoje se não pôde descobrir um critério de absoluta certeza da morte de um indivíduo, salvo o ato de decomposição que sobrevém, relativamente, tarde.
Leia-se entre outras obras, “A morte aparente e a morte real” do Pe. Ferréres, ou a “Deontologia médica” do Pe. Salsmans, professor de teologia moral em Louvaina. Se o homem pode não morrer senão meia hora mais tarde, do que vulgarmente se julga (por exemplo, depois de uma lenta consumição), ou mesmo duas e mais horas depois (no caso de um acidente qualquer que encontra ainda intacta a energia vital), não poderia neste intervalo de sobrevivência, fazer um ato de contrição perfeita, e assim render-se às moções misericordiosas e últimas da graça?[2]
Eu não vos saberia provar que isto é muito certo. Mas também ninguém me poderá provar o contrário.
Não temos, pois, certeza da condenação de pessoa alguma, exceto relativamente a Judas.[3]
S. Inácio termina a sua meditação com um colóquio ao Senhor na Cruz.
“Homem que falas tão levianamente do pecado, repara no que fez o pecado. Matou o Homem-Deus”.
“Ante o cadáver de Cristo, não acabarás enfim por abrir os olhos?”
Tem a este propósito aplicação as palavras de Tácito, falando do matricida Nero: “Perfecto demum scelere, magnitudo ejus intellecta est”. Só depois de consumada a maldade é que ele compreendeu todo o horror do crime.

* * *
Considerada a enorme malícia da culpa mortal, já agora a alma se sente disposta para ouvir a palavra do Mestre:
“Se teu olho direito é para ti causa de escândalo, arranca-o e atira-o para longe de ti! Porque melhor é para ti perder um dos teus órgãos do que todo o teu corpo inteiro, ser lançado á Geena. E se tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a, lança-a para longe de ti: pois é para ti preferível o perder um só dos teus membros do que ser todo o teu corpo condenado à Geena”. (Mat. V-29).
Talvez alguém seja tentado a exclamar: Mestre, “é duro este modo de falar”; “Durus est hic sermo!”
Atiladamente procedem, porém, todos os dias, homens e mulheres, quando, para conservarem a vida, de bom grado se sujeitam a mutilações cirúrgicas.
Que de vezes no hospital de sangue, instalado em nosso Colégio de Namur, ao rebentar a guerra, eu mesmo assisti a este diálogo, entre o médico e o soldado: “Ouve: como és homem, vou falar-te francamente. A gangrena manifestou-se; a não se fazer a amputação da tua perna ou do pé, o caso é de morte certa!” E ele, o pobre soldado, pálido e trêmulo, respondia: “Ah! Doutor, a sentença é dura mas, se é questão de vida ou de morte, está bem, podeis cortar!”
Obedecia a um princípio de bom senso elementaríssimo: sacrifica-se a parte para salvar o todo, a integridade dos membros para salvar a vida. Que se vão os anéis, mas fiquem os dedos, diz o nosso povo. Muito bem o compreendem os mundanos, quando se trata da vida do corpo; e porque se não há de aplicar o mesmo princípio à conservação da vida da alma? Digamos portanto com S. Agostinho: “Hic ure, hic seca, dummodo in æternum parcas!” Senhor, divino cirurgião de nossas almas, cauterizai as nossas chagas, cortai ao vivo, contanto que nos poupeis na vida eterna.
Em resumo: é claro que as palavras do Senhor: “arranca teu olho, corta tua mão”, não é mais do que uma bela alegoria. Nem Ele nem a Igreja preceituaram a operação de se extrair um olho ou de cortar um pé.
São expressões metafóricas que exprimem belamente este conceito: sofre tudo, aceita tudo, ainda mesmo que se desse o caso, extraordinário, da mutilação corporal que alguns homens — os mártires — sofreram, antes do que perder a tua alma pelo pecado mortal.

* * *
O ponto que até aqui estudamos, é a gravidade do pecado mortal.
Não será coisa inútil estudarmos melhor a natureza do pecado mortal, para desta análise deduzirmos vários corolários.
O que é culpa grave? É a culpa a cuja formação concorrem simultaneamente três elementos:
a) Matéria grave; b) deliberação perfeita e inteira; c) pleno consentimento.
Já dissemos acima: pecado mortal significa que se morrêssemos nesse estado, iríamos para o inferno.
Inferno: palavra de poucas sílabas, que depressa se pronuncia, mas que encerra uma tremenda realidade: tornar-se o homem um desgraçado imortal! Deus deixaria de ser infinitamente bom, ou melhor não seria justo, se condenasse a tal suplício aquele que lhe pudesse observar: “Mas eu não consenti na culpa plenamente”, ou “não consenti deliberadamente…”
Não, Deus não toma traiçoeiramente o homem, nem é como um tirano, que triunfa sobre nós surpreendendo-nos na prática de algum ato semiconsciente, para nos punir eternamente!

* * *
O conhecimento do pecado mortal não se obtém pela adição ou duração.
a) Não encerra a ideia de adição ou de multiplicação. Por outras palavras, não se vá imaginar que pecados veniais sucessivamente adicionados a outros, cheguem afinal a um total que constitua pecado mortal. Mil pecados veniais não formarão nunca um pecado mortal, pois estes conceitos de venial e de mortal são “analógicos” e por isso irredutíveis. Em linguagem familiar diz-se: cem peras não fazem uma laranja.
b) Nem na ideia de pecado entra a de maior ou menor tempo.
Um pecado de vaidade ou de preguiça pode prolongar-se durante semanas e anos, sem passar de culpa venial. Um pecado de blasfêmia durará um só instante e no entanto, sendo bem consciente, é culpa grave.
Os mais nefandos crimes cometem-se por vezes, rapidamente. Pouco tempo se quer para se puxar o gatilho de uma espingarda ou para se atirar uma bomba.
E do mesmo modo poderá um pecado de pensamento ou de desejo realizar-se numa fração de minuto. E todavia é forçoso que o homem durante esta parcela de tempo, por curta que seja, esteja na posse de sua plena personalidade e a condense, tão intensamente, que no ato pecaminoso intervenha a plenitude da deliberação e a do consentimento.
O pecado mortal, pois, não diz relação à soma ou à duração, mas somente à gravidade.
Consiste na aversão a Deus “aversio Dei”; ou seja voltar as costas a Deus; em conscientemente realizar o que se poderia chamar: o rompimento com Deus.
Tão profunda é a perturbação produzida em nós por esta revolta e por esta insurreição contra Deus que, podemos chamá-la “o bolchevismo”, na ordem moral.
Desta nossa definição de pecado mortal se deduzem algumas regras, muito importantes, porque têm aplicação não só aos pecados de impureza, mas, em geral, a todo e qualquer pecado.



[1]             Pio V, Gregório XIII e Urbano VIII condenaram a 55.ª das 79 proposições de Baio: “Deus não teria podido criar o homem, do princípio, tal como ele hoje nasce”. O Concílio Tridentino (Sess. VI, c. 1) declara que, com o pecado original, o livre arbítrio não fora suprimido, conquanto debilitado e inclinado ao mal pela tentação, “liberum arbitrium minime extinctum, viribus licet attenuatum et inclinatum”.
[2]             Seria evidentemente uma rematada loucura adiar a sua conversão para aquela ocasião. Esta sobrevivência não é, primeiramente, senão provável. E está muito claro que a teoria do probabilismo não tem aqui cabimento; pois não se trata de uma questão de fato. Dá-se ou não se dá este fato? Toda a verossimilhança cede ante a verdade do contrário, e toda a dúvida ante a certeza. E supondo mesmo que o homem esteja ainda vivo, não se acha ele em estado comatoso, inconsciente? Poderemos nós, pois, razoavelmente adiar um negócio tão momentoso para uma ocasião tão desfavorável e até incerta? Procederíamos nós por tal forma se se tratasse de um testamento… ou de algum interesse digno dos nossos cuidados?…
[3]             Talvez não encontremos uma evidência clara e convincente no que os Evangelhos dizem de Judas. Mas estes textos vistos à luz da tradição e interpretados pelos Santos Padres não dão lugar à dúvida.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...