quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Todas as riquezas da graça são fruto da pureza do coração e do perfeito abandono

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

O ABANDONO À DIVINA PROVIDÊNCIA
pelo
P.J.P de Caussade, S.J


CAPÍTULO IX
Todas as riquezas da graça são fruto da pureza do coração e do perfeito abandono

            Quem, pois, quer gozar da abundân­cia de todos os bens, não tem senão que fazer uma coisa: purificar o coração, desapegar-se das criaturas e abandonar­-se inteiramente à Deus, Nesta pureza e neste abandono encontrará todas as coisas. Senhor, peçam-Vos embora os outros toda a espécie de dons, multipliquem as palavras e as orações; quanto a mim, ó meu Deus, não Vos peço senão uma só coisa, não tenho senão esta petição a fazer-Vos: Dai-me um coração puro! O coração puro como sois feliz. Pela viveza da vossa fé, vedes a Deus em Si mesmo. Vedê-lO em todas as coisas e a todo o momento, agindo dentro e fora de vós. Em tudo Lhe estais sujeito e em tudo se serve de vós. A maior parte das vezes não pensais nisso; mas pensa Ele por vós. O que por Sua ordem vos acon­tece e deve acontecer-vos, basta que vós o desejeis, pois Ele conhece perfeita­mente a disposição da vossa alma. Em vão procurais descobrir em vós este desejo e não o conseguis. Mas Ele vê-o muito bem. Como sois demasiado sim­ples! Acaso ignorais o que é um co­ração bem disposto? Não é outra coisa senão um coração onde Deus Se en­contra. Vendo nesse coração as Suas próprias inclinações, Deus sabe muito bem que permanecerá sempre inteiramente submetido às Suas ordens. Sabe ao mesmo tempo, que vós não conheceis aquilo que vos é útil; e por isso toma o cuidado de vo-lo dar.

            Que importa se vos contraria? Vós pensáveis ir para o oriente, Ele conduz-vos para o ocidente. Vós íeis di­reito contra os escolhos, Ele volta o leme e conduz-vos ao porto. Sem conhecimento nem de mapa nem de caminho, nem de vento nem de maré, as vossas viagens são sempre felizes. Se os piratas aproximam de vós, um pé de vento inesperado levar-vos num instante para longe do seu alcance, ó boa vontade, ó coração puro! Como Jesus soube marcar o lugar que vos é próprio, ao colocar-vos entre os bem-aven­turados. Que maior felicidade do que possuir a Deus e ser d'Ele reciproca­mente possuído. Estado delicioso e cheio de encantos, em que a alma dorme sossegadamente, reclinada no seio da Provi­dência; brincando, por assim dizer, ino­centemente com a divina Sabedoria, sem preocupações a respeito da sua carreira, a qual não sofre interrupção de nenhum gênero e por entre cachopos e pira­tas e no meio de contínuas tempestades, vai decorrendo sempre com a maior fe­licidade do mundo!
           Oh coração puro! ó boa vontade! vós sois o único fundamento de todos os estados espirituais! A vós é que foram dados e por vós é que à alma aproveitam os dons de pura fé, pura esperança, pura confiança e puro amor. No vosso tronco é que estão enxertadas as flores do deserto, isto é as graças preciosas que não se veem brilhar senão nessas almas inteiramente desprendidas, nas quais Deus como em lugar não habitado constitui a Sua morada, com exclusão de qualquer outro objeto. Vós sois a fonte fecunda donde partem todos os arroios que vêm regar os canteiros do esposo e o jardim da esposa. Vós tendes, com ra­zão, o direito de dizer a todas as almas: «Fixai-vos bem em mim; eu é que pro­duzo o belo amor, esse amor que sabe discernir o que há de melhor, para aí se fixar; eu é que faço nascer esse temor suave e eficaz, que produz o horror ao mal e o faz evitar sem perturbação; eu é que faço brotar esses conhecimentos belos e puros, que nos descobrem as grandezas de Deus e o valor da virtude que O honra; enfim, é de mim que se elevam os ardentes desejos, animados sem cessar por uma esperança a todas as luzes santa, que leva à prática cons­tante do bem, esperando firmemente a posse desse divino objeto que um dia há-de fazer, como agora, irias muito mais deliciosamente, a felicidade das almas fiéis».
            Vós podeis convidá-las todas as que venham a vós, para se enriquecerem dos vossos inesgotáveis tesouros. A vós re­montam todos os estados e todos os ca­minhos do espírito. De vós haurem o que têm de belo, de atraente, de encan­tadora, das vossas profundezas o tiram. Os frutos maravilhosos de graças e de virtudes de toda a espécie que neles se veem brilhar de todas as partes, e de que a alma aí se alimenta, são produtos dos vossos canteiros.
            Eia, pois, queridas almas, corramos, voemos a este mar de amor que chama por nós. Que esperamos? Ponhamo-nos a caminho sem demora; vamos perder­-nos em Deus, no Seu próprio Coração, para nos inebriarmos da Sua caridade. Nesse Coração encontraremos a chave de todos os tesouros celestes. Tomemos de­pois o caminho do céu. Não haverá lu­gar, por mais secreto, onde não possa­mos penetrar; nada estará fechado para nós: nem o jardim, nem a dispensa, nem a vinha. Se pretendermos respirar o ar do campo, de nós dependerá dirigir para aí os nossos passos. Enfim, iremos e viremos, entraremos e ficaremos, a nosso belo prazer, com esta chave de David, esta chave da ciência, esta chave do abismo em cujas profundezas se en­contram escondidas todos os tesouros ocultos da Sabedoria divina.
            Com esta chave divina se abrem as portas da morte mística e das suas trevas sagradas; por meio dela se desce aos lagos profundos e à caverna dos leões. Ela é que nos introduz nessa feliz mansão da inteligência e da luz, onde o Esposo descansa respirando o ar fresco do meio dia e revela às suas fiéis esposas os segredos do seu amor, Oh di­vinos segredos que não é permitido revelar e que lábios mortais não são ca­pazes de exprimir.
            Amemos, pois, ó almas queridas! É pelo amor que esperam todos os bens, para nos enriquecer. O amor dá a santi­dade e tudo o que a acompanha; está ao seu lado direito e ao seu lado esquerdo, para de todas as partes a fazer descer aos corações abertos a todas as efusões divinas. Oh divina semente de eterni­dade! Nunca seremos capazes de vos exaltar quanto devemos, mas para que falar tanto de vós? Mais vale possuir­-vos em silêncio do que louvar-vos com simples palavras. Mas que digo? Deve­mos louvar-nos, porém não o poderemos fazer senão na medida em que estiver­mos possuídos de vós. Porque em vós tomando posse dum coração, o ler, es­crever, falar ou agir ou fazer o contrá­rio, é para ele uma e a mesma coisa. Nada se busca e nada se rejeita; vivesse na solidão ou exerce-se o apostolado; goza-se de saúde ou sofre-se de doença; há simplicidade ou eloquência; numa palavra somos o que vós quiserdes que sejamos. O que vós sugeris ao coração, o coração como eco fiel repete-o às ou­tras faculdades.

            Neste composto material e espiritual que vós bondosamente considerais como vosso reino, é o coração que sob os vossos auspícios, reina e domina como penhor; e como não tem outros ins­tintos senão que vós lhe inspirais, todos os objetos lhe agradam sob o as­pecto que lhos ofereceis. Os que a na­tureza ou o inimigo quereriam substi­tuir em lugar deles, não servem senão para causar-lhe repulsa e horror; e se vós permitis que por vezes se encontre sur­preendido neles, é unicamente para o fazer; mais prudente e mais humilde; mas logo que reconhece a ilusão de que foi vítima, torna a vós com mais amor e une-se a vós com mais fidelidade.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...