segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O COMBATE DE CADA UM - Parte I

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)

PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.
 

O COMBATE DE CADA UM

Acabamos de dizer: todos devem lutar.
Mas a luta não é para todos da mesma maneira.
A tentação é, ao mesmo tempo, geral e relativa.
Examinemos os principais elementos desta relatividade.

1.º Elemento de relatividade: o temperamento

Há indivíduos que se impressionam muito facilmente mas outros não; uns comovem-se por um dá cá uma palha, outros ficam impassíveis ou “apáticos”. Mas é fácil de se compreender como entre os dois extremos opostos tem lugar toda a gama dos intermédios; e assim como se não passa bruscamente da grande claridade, do meio-dia, às trevas da meia-noite, assim entre os dois extremos, entre si muito distintos, de que falamos, se intercalam todas as modalidades da transição.
Podeis observar, desde logo, como é complexo o problema!
Não compreende somente dois termos: os suprassensíveis e os infrassensíveis, mas ainda um número incalculável de tipos médios.
São tantos quantos indivíduos!

2.º Elemento de relatividade: as crises


Acabamos de ver como nem sempre um indivíduo se assemelha ao outro.
Digamos mais. Nem sempre uma pessoa se parece consigo mesma! Passa por vários estados de crise; crises de idade, de depressão física, de tentações, de meios, etc., etc.
Quem há que não conheça o fenômeno próprio dos diabéticos? A menor escoriação, que se cicatriza dificilmente e mal, pode até complicar-se pela gangrena.
Certos estados morais lembram-nos este fenômeno patológico: Um simples arranhão pode tornar-se fatal.
Além das crises por acessos bruscos, convém mencionar ainda as crises periódicas e por assim dizer, crônicas.
Muitos fisiologistas pensam que o instinto, de que falamos, obedece a lei de um ciclo mensal.
Independentemente da influência das estações, que depois analisaremos, teria a paixão (por ex. ao começo) um máximo de intensidade seguido de um lento decrescendo, para recomeçar até ganhar um novo máximo de intensidade: de forma que este duplo movimento, ascendente e descendente, se poderia comparar ao fluxo e refluxo do mar.

3.º Elemento de relatividade: a hereditariedade

“Julgais ver as ações, credes ouvir as palavras dos contemporâneos… Reparai que após eles há uma inumerável multidão… aos milhares os homens já falecidos dão impulso aos que vivem e lhes determinam o procedimento e lhes ditam as palavras. Julgais caminhar por sobre as cinzas inertes dos finados; em verdade, porém, eles nos envolvem, nos oprimem, nos sufocam sob seu peso. Estão em nossos ossos, em nosso sangue, na polpa do nosso cérebro e sobretudo… quando as paixões em nós se agitam, escutai-lhes então a voz: ‘são os mortos que falam’.” (de Vogüe. Les morts qui parlent).
Cada um de nós suporta o peso da sua herança.
Nosso presente está sobrecarregado com o peso do passado.
“O passado!… éramos já tão velhos, quando nascemos!”[1]
“Podeis responder-me, perguntava um dia Napoleão I, quando se há de iniciar a educação da criança?… Cem anos antes de nascer!”
E de fato a nossa constituição fisiológica, passional, mental é, para assim dizer, um terreno de aluvião, muito complexo e para cuja formação concorrem hábitos bons e maus não só dos nossos pais, mas também dos nossos avós.
Porquanto não há simplesmente a herança propriamente dita ou dependência dos ascendentes, pai ou mãe, mas há também o atavismo ou regresso aos tipos da ascendência.
Nós operamos de harmonia com os nossos avós. A propensão mórbida às coisas sensuais é de um modo especial transmissível. Não ha dúvida que o vício, em si, não se pode herdar, por ser o pecado um desregramento da nossa vontade pessoal e livre. Mas esta vontade encontra solicitação no temperamento que se herdou, como o demonstra a experiência quotidiana.

* * *
Jovem! Tem presente o duplo aspecto, em que pode ser encarada a hereditariedade sob o qual és conjuntamente o termo da chegada e o ponto da partida.
Como filho, recebeste.
Como pai, transmitirás.
Cuida bem na tua próxima responsabilidade. O homem não peca só para si, senão também para os seus descendentes. Não te tornes o tronco maldito de uma raça tarada. Pensa como será terrível para um pai observar, mais tarde, em seus filhos, sintomas de degeneração, terríveis nevroses[2] e com a mão no peito haver de confessar: “O causador deste mal, sou eu…”
Legouvé descreve esta cena dolorosa em seu livro: Les pères et les enfants au XIX siècle.[3] O duque de Candé, quando moço, fora estroina. Pensava que tudo houvesse terminado com a sua mocidade. Transmitiu, porém, a seu filho uma enfermidade detestável e assistiu aos progressos do mal. “Quem o está matando sou eu”. No dia em que o jovem consente a entrada do gérmen fatal em seu sangue, não é só ele que lhe sofre as consequências, mas também o seu filho e os filhos dos seus filhos.
Oh sim, é amargo ser um filho de Adão! Mas eu conheço uma coisa ainda pior: é ser alguém, por si, um Adão transmitindo também um pecado original aos seus descendentes… Se te sentires em risco de caíres, traze à mente o príncipe de Candé.
“Respeita em ti o pai de amanhã!”
Sim, respeita em ti o pai de uma geração!
Seria cruel para teu filho o haver de acusar o seu próprio pai como Daniel Rovére, o herói do L’immolé de E. Baumann: “Acabo com estas gerações malditas!” (Pg. 193). “Se a vontade não fraqueava, o temperamento de seu pai recomeçava atormentá-lo”. (Idem, pg. 357).

* * *
Notamos, de passagem, que o fenômeno singular de que, por vezes e até muitas vezes, a maldita herança (física ou moral) não é direta senão cruzada; quer dizer que, o filho se assemelha à mãe e a filha participa mais do pai; “Filii matrisant, filiae patrisant”. Quando em nossos colégios desejamos conhecer melhor um rapaz não é ao pai, mas sim à mãe que seria mister convidar para vir falar à sala de visitas. O provérbio exato seria: “Qual pai, tal filha! qual mãe, tal filho!”
____________________________

[1] An. France, Le Lys rouge. pg. 276. 
[2] Os israelitas diziam com tristeza: “Nossos pais comeram as uvas ainda em agraço e por isso estão os nossos dentes embotados”. (Ezec. 18-2). 
[3] Citado por Fonssagrives, (Education de la pureté).
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...