segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Modo prático de reparar as nossas ofensas

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


3 Modo prático de reparar as nossas ofensas 

Reparar sem um sincero desejo de não tornar a cometer as injúrias feitas não é reparar. É agravar a culpa.
A culpa é um roubo e o fruto deste roubo é irrestituível.
A reparação é, portanto, a compensação que se dá em face da impossibilidade da restituição. Supõe o desejo de restituir o que se roubou, caso fosse possível. Ora, a disposição de restituir o roubado é incompatível com a de praticar outro roubo. Daí a necessidade de resolução de não tornar à ofensa, em quem quer que queira realmente reparar.
Isto, por sua vez, supõe o arrependimento da ofensa feita. Arrependimento, portanto, e resolução de emenda é condição sine qua non em toda verdadeira reparação.
Mas isto, ainda que indispensável, é apenas a condição. Não é tanto a reparação mesma, quanto o primeiro passo na vida de reparação ou, melhor ainda, a cessação da vida de ingratidão.
A reparação mesma, diz S. Bernardo que consistirá em fazer sobretudo todos aqueles atos que sabemos serem do agrado dos Anjos: in his maxime exercendum nobis, in quibus novimus Angelos delectari.

Na verdade, só assim compensaremos a dor da ofensa pelo prazer do obséquio, a injúria pela honra, o desacato pelo mais dedicado culto de devoção.
“Muitos são os atos, continua S. Bernardo, que a eles agradam ou que lhes agrada ver em nós. Tais são a sobriedade, a castidade, a pobreza voluntária (que praticam os religiosos), os frequentes suspiros pelo céu (jaculatórias, santos desejos), e a oração acompanhada de lágrimas e de afetos fervorosos do coração. Mais, todavia, que tudo, exigem de nós os Anjos da paz, a concórdia e a paz que convém entre irmãos.[1]
Os Anjos são habitadores da pátria celeste, e vivem totalmente da vida sobrenatural, que é a verdadeira vida — assim como nós vivemos totalmente da vida natural, e a verdadeira vida é o gozo perfeito, o conhecimento perfeito da verdade, o amor perfeito do bem e tudo isto, eterna e imorredouramente. Todos os atos, portanto, têm valor de vida verdadeira somente enquanto participam dessa vida sobrenatural. Tudo o mais que assim não for é realmente perdido. Por isto dizia S. Paulo: quer comais, quer bebais, tudo fazei para a glória de Deus. O motivo sobrenatural da nossa ação é que lhe dá valor.
Tudo isto vem expresso nas palavras do Arcanjo S. Rafael a Tobias: A oração com o jejum e a esmola (todos atos de valor para a vida sobrenatural) é melhor do que o trabalho de ajuntar tesouros (atos meramente naturais, sem valor, perecedouros). Se, portanto, queres agradar os Anjos, jovem que me lês, estima sobretudo a vida sobrenatural, pratica a caridade, vence as tuas paixões, reza, comunga, ouve as Missas que puderes.
Tudo o que fizeres ao próximo por amor de Deus, será esmola, toda mortificação, todo sacrifício será jejum, toda elevação da alma a Deus, todo pensar em Deus e a Ele amar será oração. Assim dizem os santos doutores que com estas três operações: oração, jejum, esmola, o homem totalmente se oferece a Deus. Com a oração oferece-lhe os bens da alma, com o jejum os bens do corpo, e com a esmola os seus bens exteriores de fortuna.
Entretanto há um tempo em que poderás praticar o jejum da acepção própria deste termo. É o tempo em que a Igreja o prescreve. Aproveita-te avidamente desta ocasião de agradar ao santo Anjo da Guarda, e enriquece a tua alma de bens sobrenaturais, fá-la gozar sempre mais daquela vida que vale a pena viver, porque é a vida verdadeira.
Dá às coisas deste mundo o apreço que elas merecem. Sabe renunciar discretamente ainda ao que é lícito, dizendo com S. Estanislau Kostka: “não nasci para as coisas da terra, e sim para as do céu; para estas hei de viver, e não para aquelas.”
Sê, enfim, como Jesus, o grande amigo de todos os que sofrem, de todos os enfermos, de todos os aflitos, levando-lhes o teu consolo, a tua ajuda. Sê apóstolo, faze com que as tuas palavras e os teus exemplos só possam conduzir ao bem. Faze, sobretudo, com que tenhas imitadores nesta sólida devoção aos Anjos, reparte com os teus irmãos em Cristo o fruto que dela colhes. Assim, muitos, por tua indústria, prestarão aos santos Anjos a honra que tu Lhe roubaste com as tuas ofensas. Oh, então farás condigna reparação, então poderás estar seguro de que vendo em ti o santo Anjo ações tão contrárias às que antes havias praticado, de todo se esquecerá do passado, tal como se nunca o passado houvesse existido.[2]


[1]     S. Bernardo aí alude às palavras, “Angeli pacis” Anjos de paz, que se leem na profecia de Isaías, XXXIII, 7.
[2]     Ierem. XXXI, 34. — A este passo alude S. Paulo, Hebr. X, 17.