segunda-feira, 16 de novembro de 2015

LIVRO SEGUNDO - DA AÇÃO DIVINA E DA MANEIRA COMO ELA TRABALHA SEM CESSAR NA SANTIFICAÇÃO DA ALMA / A ação divina este presente em toda a parte e sempre, ainda que não seja visível senão aos olhos de fé.

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

O ABANDONO À DIVINA PROVIDÊNCIA
pelo
P.J.P de Caussade, S.J


LIVRO SEGUNDO
DA AÇÃO DIVINA E DA MANEIRA COMO ELA TRABALHA SEM CESSAR NA SANTIFICAÇÃO DA ALMA

CAPÍTULO I
A ação divina este presente em toda a parte e sempre, 
ainda que não seja visível senão aos olhos de fé.

            Na mão de Deus todas as criaturas estão vivas; os sentidos não percebem senão à ação da criatura, mas a fé vê em tudo a ação divina. Ela crê que Jesus Cristo vive em tudo e opera em toda a extensão dos séculos; que o me­nor momento e o menor átomo encerram uma porção dessa vida escon­dida e dessa ação misteriosa, a ação das criaturas é um véu que cobre os pro­fundos mistérios da ação divina. Jesus Cristo, depois da ressurreição, surpreen­dia os discípulos com as suas aparições; apresentava-se-lhes sob figuras que o encobriam; e logo que se manifestava, desaparecia. Este mesmo Jesus, que está vivo e sempre operante, surpreende ainda as almas que não têm a fé bastante esclarecida.

            Não há momento nenhum em que Deus não se apresente, sob a aparência de alguma obrigação ou de algum dever. Tudo o que se realiza em nos, à roda de nos, e por nós, encerra e cobre a sua ação divina que está presente dum modo real e certíssimo, mas com uma presença invisível; donde resulta que so­mos sempre surpreendidos e não conhe­cemos a sua operação senão quando ela já não subsiste.
            Se nós rasgássemos o véu e estivésse­mos vigilantes e atentos, Deus revejar-se-nos-ia sem cessar e gozaríamos da sua ação em tudo o que nos acontece. Em cada coisa diríamos: Dominus est! é o Senhor! e verificaríamos em todas as circunstâncias, que recebemos um dom de Deus; consideraríamos as criaturas como fracos instrumentos nas mãos dum artífice todo poderoso, e sem dificuldade reconheceríamos que nada nos falta, e que o cuidado contínuo de Deus o leva a distribuir-nos, a cada instante o que nos convém. Se tivéssemos fé, sentir­-nos-íamos agradecidos a todas as criatu­ras; acariciá-las-íamos e estaríamos reconhecidos no nosso interior, por vos servirem e se tornarem tão favoráveis à nossa perfeição, aplicada pela mão de Deus.
            Se vivêssemos, sem interrupção, dá vida da fé, estaríamos em um contínuo trato com Deus; falar-lhe-íamos face a face. O que é o ar para transmitir os nossos pensamentos e as nossas palavras, seria para as de Deus tudo o que nos acontece de fazer ou sofrer; seria o corpo de sua palavra, que em tudo se nos representaria no exterior; tudo para nós seria santo, tudo nos seria excelente. A glória estabelece um tal estado no céu; a fé estabelecê-lo-ia sobre a terra, e a diferença não seria senão no modo de o realizar.
            A fé é o intérprete de Deus. Sem os esclarecimentos que ela dá, não enten­demos nada da linguagem das criaturas. E uma escrita em cifra, um aglomerado de números, onde só vemos confusão; é um montão de espinhos do meio dos quais não supomos que Deus possa falar, Mas a fé mostra-nos como fazia a Moi­sés, o fogo da divina caridade ardendo no centro desses espinhos; dá-nos a chave desses números e faz-nos desco­brir nessa confusão as maravilhas da sa­bedoria do alto. A fé comunica a toda a terra uma face celeste; por ela é que o coração se sente transportado, arreba­tado, para conversar no céu.
            A fé é a luz do tempo, só ela atinge a verdade sem a ver; toca o que não sente; vê este mundo como se ele não existisse, vendo uma coisa muito dife­rente do que aparece. É a chave dos te­souros, a chave do abismo, a chave da ciência de Deus. A fé é que nos faz ver a verdadeira linguagem das criaturas; por ela é que Deus se revela e se mani­festa em todas as coisas. Ela é que as diviniza, lhes tira o véu e descobre a verdade eterna. Tudo o que nós vemos não é senão vaidade e mentira; a verdade das coi­sas está em Deus. Que diferença tão grande entre as ideias de Deus e as nos­sas ilusões. Como é que pode suceder que estando continuamente a ser adver­tidos de que o que se passa no mundo não é senão uma sombra, uma figura, mistério de fé, contudo nós procedamos sempre conforme ao sentido natural e humano das coisas, que não é senão um enigma? Caímos na armadilha como insensatos, em vez de levantarmos os olhos e de nos remontarmos ao princípio, à fonte, à origem das coisas, onde tudo tem outro nome e outras qualidades; onde tudo é sobrenatural, divino, san­tificante, onde tudo participa da pleni­tude de Jesus Cristo; onde tudo é pe­dra da Jerusalém celeste, em que tudo entra e faz entrar nesse edifício maravi­lhoso, Vivemos guiados pelos sentidos, e tornamos inútil essa luz da fé, que nos guiaria tão seguramente no labirinto de tantas trevas e figuras, no meio das quais nos perdemos como insensatos. Pelo contrário, aquele a quem a fé serve de guia, nada quer senão a Deus e de Deus vive sempre, deixando para trás a figura e ultrapassando-a.
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