sábado, 28 de novembro de 2015

Confiança irrestrita no Santo Anjo da Guarda

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2 Confiança irrestrita no Santo Anjo da Guarda 

Duas coisas nos poderiam abalar a confiança no Anjo da Guarda: o temor excessivo do perigo e a dúvida do seu socorro.
Em ambas as atitudes grande injúria faríamos ao Santo Anjo. Seria admitir ou falta de fidelidade da sua parte, ou de sabedoria e prudência, ou de poder.
Aliás, a ofensa tem alcance inda mais considerável. Vai atingir o mesmo coração paterno de Deus, que nos teria assim confiado a um guarda incapaz de proteger-nos.
Não é tal a atitude do verdadeiro crente e devoto do Santo Anjo da Guarda. Muito pelo contrário, ele faz suas as palavras de S. Bernardo: “Que podemos nós temer sob a proteção de tão grandes guardas?” — Quid sub tantis custodibus timeamus?

Como diz S. Inácio de Loyola em seus “Exercícios Espirituais”, o demônio espalha os seus satélites por todo o mundo, não deixando pessoa em particular sem o seu especial tentador. Esta doutrina de um especial tentador de cada homem, está fundamentada na opinião de alguns dos Santos padres.[1] Entretanto, em nada ela nos deve atemorizar, pois, como diz S. Tomás de Aquino, bem pode ser que os demônios que nos tentam pertençam a um grau de hierarquia mais elevado que o nosso Anjo da Guarda. Mas mais poder tem este que aqueles pelo simples fato de serem instrumentos da todo-poderosa justiça divina.[2]
É preciso, entretanto, não confundir confiança com presunção.
Aquele que, confiado no poder de seu Anjo da Guarda, deixa, por assim dizer, toda a iniciativa da luta ao Santo Anjo, não recorre fervorosamente a ele, não pede o seu auxílio em fervente oração, — este não tem confiança, tem presunção.
Da mesma forma a confiança que nos leva a expor-nos ao perigo, não é confiança, é presunção.
Repitamos aqui que a proteção dos Anjos segue e imita a divina Providência, de que é efeito.
Ora a Providência de Deus, ainda que vele sobre nós, exige entretanto que a Ela recorramos pela oração, como criaturas livres que somos. “Pedi e recebereis” diz o Evangelho.
E também está escrito, apesar de haver Providência a velar sobre nós: “Quem ama o perigo, nele perecerá.”
Da mesma forma protegem-nos os Anjos, mas exigem oração e fuga dos perigos. Não somos autômatos, que se deixam guiar cegamente por outros. Não são os Anjos os chauffeurs de nossas almas: são nossos protetores, nossos guardas, nossos iluminadores, mas tudo de acordo com a nossa natureza racional e livre.
Diz S. Bernardo que Deus ordenou aos seus Anjos que nos guardassem “em todos os nossos caminhos” e não em nossos precipícios. Por isto, diz ele que quando o demônio disse a Jesus que se lançasse do alto do templo, citou o versículo da Escritura: “aos seus anjos Deus ordenou que te guardassem”, mas calou a parte que diz: “em todos os teus caminhos” (Sermo XIV in. ps. XC).
E por quê?
Porque caminhos não são precipícios. É necessário que na vida andemos por caminhos, mas não por precipícios. E quem neles se mete, neles perecerá, por soberba presunção.
Livros maus e más companhias, lugares e espetáculos maus, ocasiões, numa palavra, de pecado — eis os precipícios a que te não deves expor, caro congregado, querido jovem que me lês. Se em perigo, porém, te vires sem culpa tua, invoca o teu Anjo da Guarda e ele te protegerá em teus caminhos, pois não foste tu que te expuseste ao perigo, mas foi o perigo que se pôs em teu caminho. E o teu Anjo, instrumento da todo-poderosa Justiça divina, porá em fuga os demônios tentadores.


[1]     Origenes, Ron. IV, et XXXV in S. Luc. — S. Greg. Nisseno de vita Moysis. — Ver Suarez op. cit. l. VIII, c. XXI, n. 30.
[2]     Angelus, diz S. Tomás, qui est inferior ordine naturae, pracest daemonibus, quamvis superioribus ordine naturae, quia virtus divinae justitiae, cui inharente boni Angeli, potior est, quam virtus naturalis Angelorum.