sexta-feira, 13 de novembro de 2015

APRESENTAÇÃO

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)

PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.



APRESENTAÇÃO
do Pe. Luiz Gonzaga Cabral, S.J. 

Nos séculos XIV e XV travou-se entre a França e a Inglaterra a porfiada luta que ficou na História com o nome de Guerra dos 100 anos.
A Alemanha no século XVII foi o teatro de outra guerra intestina, conhecida pela designação de Guerra dos 30 anos.
Entre a França coligada com as principais potências europeias e a Inglaterra unida à Prússia, feriu-se no século XVIII a Guerra dos 7 anos.
Dir-se-ia que as guerras rotuladas pelos anos da sua duração simbolizavam, no seu mesmo decrescer, a tendência para o abrandamento dos costumes e a aversão sempre maior aos longos períodos de beligerância.
Em verdade, se o critério dos instintos ferozes da guerra fosse o dos anos decorridos no porfiar de uma mesma campanha, a principal guerra do século XX teria podido reforçar a observação já feita, pois a sua duração foi de 4 anos apenas, com que se escalonariam essas fases de lutas, no decorrer de cinco para seis séculos, na seguinte estatística de um ralentamento animador: Século XV, 100 anos — século XVII, 30 anos — século XVIII, 7 anos — século XX, 4 anos.
Como porém, os horrores da guerra não têm como único, nem sequer como principal fator o tempo; a última destas quatro fases de luta, a contemporânea, a mais curta em duração, foi exatamente a que recebeu — não sem algum sacrifício da vernaculidade clássica à índole glótica da França — o nome de GRANDE GUERRA.

Outros campos de batalha há, porém, diferentes de Azincourt ou Orleans, de Lützen ou Rocroy, de Koelin ou Rosbach, do Marne ou de Verdun; são os das regiões da alma, em que se travam as lutas psicológicas do espírito contra a carne, da razão contra a paixão, da Fé contra as fraquezas da vontade.
Ora de todas essas lutas do homem, nenhuma iguala o “COMBATE DA PUREZA”.
E aqui não andam tão independentes, como naqueloutras guerras, a intensidade e a duração.
O COMBATE DA PUREZA merece bem o nome de GRANDE GUERRA tanto por ser de todos o mais renhido, quanto por ser igualmente o mais diuturno.
GRANDE, sem dúvida, porque e tão árduo e bravo que não lhe é demais toda a estratégia e todo o heroísmo; mas também grande porque é de todos, grande porque é de sempre.
Foi de certo esta a razão porque o benemérito e ilustradíssimo filho de D. Bosco, R. Pe. José J. de Sant’Anna, nesta esmerada tradução, em que, de princípio a fim primou pela fidelidade mais escrupulosa, não hesitou em modificar aparentemente o título da obra.
E digo aparentemente, porque ao verter para vernáculo LE COMBAT DE LA PURETÉ do R. Pe. Hoornaert, da Companhia de Jesus, pela expressão sugestiva A GRANDE GUERRA; se por uma parte solicitou habilmente os leitores com o chamariz de uma alusão frisante ao maior sucesso da atualidade e a mais lutuosa tragédia bélica de toda a História, por outra deu uma exatíssima tradução psicológica do título original.
É que o COMBATE DA PUREZA é, por excelência, A GRANDE GUERRA; — grande, pela grandeza do heroísmo e por isso mesmo grande, pela grandeza do triunfo.
E porque não há de a nossa mocidade aspirar a esse triunfo?
Cingir a coroa de lauréis, subir ao carro de metais preciosos marchetado de marfim ou tartaruga e cravejado de pedrarias, suspender do ombro a toga de púrpura abrochada de brilhantes, ascender ao Capitólio trilhando sendas juncadas de flores e polvilhadas de ouro; tudo isso concedia-o Roma ao general vencedor, após uma campanha de heroísmo.
Muito outro será o triunfo dos que forem vencedores nos combates da Castidade.
Depressa murchavam os louros dos mais afamados bosques sagrados da Itália; ao passo que imarcescível é a coroa que exorna a fronte dos castos: nem espera pelo além para nimbar-se com os resplendores que o Apocalipse atribui aos virgens; já no aquém da vida mortal, irradia as claridades sorridentes dessas fisionomias desanuviadas que são o apanágio dos puros.
O coche triunfal, por mais que se lhe atrelassem as quadrigas alvíssimas, afinal rodava lento costa-arriba; no seu triunfo, o casto, em vez de rodas de ouro girando sobre o lajedo da Via Capitolina, bate, num surto leve, as asas nevadas desferindo o voo para o Céu de Deus.
A toga do triunfador urdiam-na, em terciopelo, os teares da Apúlia, tingido o fio pelos ostros de Tiro; mas a túnica do triunfador da castidade entretecem-na cárbasos angélicos que o Vidente de Patmos admirou no recorte das estolas cândidas em que se envolviam os seguidores do Cordeiro.
Finalmente a ladeira do Capitólio é substituída, para a ovação dos imaculados, por aquela subida para o monte de Deus, que Davi declarou senda exclusiva dos Inocentes: Quis ascendet in montem Domini? Innocens manibus et mundo corde.
Porque não há de pois a nossa mocidade — torno a dizê-lo — aspirar a esse triunfo?
Felizmente esta pergunta envolve uma suposição inexata. A nossa mocidade, não só vai aspirando já a esse triunfo, senão que entrou garbosa na batalha.
O movimento de reação contra o sensualismo soergue os brios dos moços e por toda a parte ecoam límpidas as suas vozes, como um protesto contra a covardia dos vencidos de ontem.
Na França, que ainda não há muito alimentava os paladares derrancados de uns velhos de 20 anos com a pornografia deprimente de Émile Zola, surgiu como por encanto uma literatura juvenil, cheia a um tempo de másculo vigor e de primaveril frescura, em que uma plêiade de rapazes, cheios de talento e de beleza moral, renegam dos instintos rasteiros, em que tantos consumiam o melhor das suas energias, para alcançarem esse ideal de castidade, que lhes dá limpidez à inteligência, nobreza ao carácter, vigor ao organismo, dedicação à vontade, delicadeza à imaginação, alegria à alma, e até elegância ao porte e formosura ao semblante.
Felizmente essa ressurreição da juventude não é o apanágio exclusivo da Europa desiludida!
Um dos mais elevados e deliciosos prazeres da minha vida tem sido o convívio desta juventude alegre e forte, com a qual na Congregação Mariana Acadêmica da Bahia, tenho prelibado os triunfos do Brasil de amanhã.
Presenciei-lhes as surpresas e os entusiasmos, as vitórias e os gozos nessa campanha bendita.
Surpresas! porque a muitos ouvi aquela ingênua exclamação: — “Padre! nunca imaginei que fosse tão fácil!”
Resposta, tanto mais irrefutável quanto mais filha da sinceridade espontânea, para lançar em rosto aos pusilânimes que pretendem acobertar a covardia das suas derrotas com a capa de uma pretensa impossibilidade, e buscam libertar-se das censuras da consciência própria com a mentira caluniosa de que “todos assim fazem”.
Mas a essas surpresas sucedem os entusiasmos; porque o resultado natural dessa encantadora experiência é o ardor do apostolado, vibrante de comunicar aos outros a venturosa paz que para si conquistaram.
Tal apostolado exercita-se primeiro entre amigos.
Cimentam-se, na mocidade aureolada pelo amor da pureza, amizades fortes e suaves, como não as há melhores.
A conversa intolerantemente avessa a tudo o que é grosseiro, degradante, sensual, alteia-lhes, como sem esforço, o nível; paira bem longe dos lodaçais e charcos; busca as cumeadas de ares lavados; remonta-se à limpidez do azul; e com a conversa, defere também voo o coração; enoja-se das podridões da matéria e saboreia as doçuras do espírito; torna-se por isso mesmo apreciador dos grandes méritos e, por uma consequência lógica, distribuidor das grandes dedicações; que mais lhe falta para ser realizador das grandes amizades?
Dos amigos, o apostolado dos castos, estende-se a todos.
Um destes queridos jovens apresentou no Círculo Católico de Estudos da Mocidade Acadêmica, que é uma das subseções da Congregação, a apologia da Castidade sob os pontos de vista científico e social.
Outro tinha coacervado, para a sua defesa de tese, copiosa documentação, muita da qual técnica sobre o aspecto médico.
Um terceiro dos meus congregados, já formado há três anos e hoje clinicando no Rio de Janeiro, anunciava-me, em carta há pouco recebida, o seu livro em preparação sobre a Fisiopsicologia da Castidade.
Afinal, neste desabrochar de açucenas, não é só na Bahia que o Brasil pode respirar o seu aroma reconfortante.
No Rio, a “Liga em favor da moralidade” é uma obra de juventude à qual os moços emprestam toda a simpática vibração das suas esplêndidas audácias.
Em S. Paulo, há dois anos apenas, um dos inteligentes médicos da geração nova escolheu para tese de doutoramento, a defesa integral dos direitos da Castidade.
Em Pernambuco, os organizadores do próximo Congresso Médico vieram convidar-me, a mim que não sou médico, mas que sou Padre e que por isso lhes parecia autorizado relator, para apresentar, numa das suas sessões, como tese — de — número do — Congresso, um estudo sobre a castidade pré-matrimonial.
Incompatibilidade de ocupações para a mesma época inibiu-me de aceitar o honroso convite; mas, já em 1919, a um numerosíssimo auditório de médicos, na Igreja de S. Pedro desta cidade do Salvador, ao expor, na solene colação do grau a mais de cinquenta doutorandos em Medicina os direitos e as glórias da Castidade, pude ler àquele brilhante auditório algumas páginas admiráveis de um dos catedráticos da Faculdade Baiana, o Exmo. Sr. Dr. Alfredo de Magalhães, na sua obra Orthophilia, onde desassombradamente se proclamam aqueles mesmos direitos e glórias.
Tudo isto são consoladores sintomas de que às gratíssimas surpresas e aos nobres entusiasmos desta ardente mocidade brasileira, corresponderão os heroísmos da vitória e os gozos do triunfo neste “Combat de la Pureté” que o R. P. Sant’Anna, eminente tradutor do volume sugestivo de Hoornaert, transladou à nossa língua com a vibrante alusão de:

GRANDE GUERRA

Bahia, Colégio Antonio Vieira. Festa do Anjo de Pureza, Santo Estanislau Kostka, 13 de Novembro de 1923.

P. Luiz Gonzaga Cabral, S.J.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...