sábado, 28 de novembro de 2015

A MILÍCIA - O combate geral

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)

PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.
 

A MILÍCIA 
O combate geral 
O pensamento sintético desta brochura é este: “A Castidade é um heroísmo!” E o seu título: a “Grande Guerra”.
O subtítulo há de ser a exortação do Sagrado Livro: “Levantem-se os jovens e combatam”, (2 liv. Sam. 2-14); ou as palavras de Jó: “A vida do homem sobre a terra é um combate”, (Jó 7-1); ou o versículo do Eclesiástico: “Peleja… pela tua alma e combate até a morte”, (Ecl. 4-33); ou ainda as divisas de S. Paulo: “Sê bom soldado de Cristo Jesus”, (2 Tim. 2-3); “Combate o bom combate”, (1 Tim. 4-7); Esgrime à direita e à esquerda”, (2 Cor. 6-7).
S. Paulo, ótimo batalhador deste “bom combate” descreveu, peça por peça, o equipamento dos soldados valentes; “Revesti-vos com as armaduras de Deus para poderdes resistir no dia da prova e permanecer de pé depois de haverdes levado tudo de vencida”. “Sede fortes, cingi-vos de verdade, tomai a couraça da justiça, embraçai o escudo da Fé, com o qual possais aparar todos os dardos inflamados do maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do espírito”. (Efes. 6-13).


* * *
Exatamente porque encaramos esta virtude sob o aspecto de combate, citaremos muita vez Santo Inácio de Loyola. O antigo Capitão guardou sempre a alma de militar. E assim se resolveu a fundar um esquadrão de soldados com o nome de “Companhia de Jesus” em que a palavra “Companhia” tem um significado marcial. Ideou os seus “Exercícios espirituais” como uma espécie de escola militar. Representa a Deus como o divino Capitão.
Lede a meditação dos “Dois Estandartes”, e sobretudo a contemplação do “Reino de Cristo”, que aqui reproduzimos.

primeira parte

1.º Ponto — Porei diante dos meus olhos um rei, que a mão de Deus escolheu, e a quem todos os príncipes e todos os povos cristãos prestam respeito e obediência.
2.º Ponto — Julgarei ouvir este mesmo rei falar a seus súditos e dizer-lhes; “Minha vontade é conquistar todas as nações infiéis. O que quiser seguir-me há de contentar-se com a mesma comida, com a mesma bebida e com as mesmas vestes que eu. Trabalhe durante o dia, vele durante a noite comigo, para um dia compartilhar comigo, segundo a medida de seus esforços, os louros da vitória.”
3.º Ponto — Considerarei o que deveriam dizer os súditos fiéis de um rei tão generoso e tão bom; e como aquele que não aceitasse tais ofertas, seria por isso digno do desprezo de todos e merecia ser considerado como o mais covarde de todos os homens.

segunda parte

A segunda parte deste exercício não é mais que a aplicação dos três pontos da parábola precedente a Jesus Cristo Nosso Senhor.
E, quanto ao primeiro ponto: se o convite de um rei da terra a seus vassalos, move nossos corações, quanto mais não há de mover-nos o contemplar Jesus Cristo Nosso Senhor, Rei eterno, chamando e dizendo a todos e a cada um de nós em particular: “Minha vontade é conquistar todo o mundo, domar todos os meus inimigos e entrar assim na glória de meu Pai. O que desejar seguir-me e trabalhar comigo, arroste todas as fadigas, para depois me seguir também na glória”.
Considerarei, no segundo ponto, que o homem, que faz uso do seu juízo e da sua razão, não poderá hesitar em fazer esta oferta generosa de si, sujeitando-se a todos os sacrifícios e a todos os trabalhos.
Considerarei, no terceiro ponto, que todos os que quiserem unir-se mais intimamente a Jesus Cristo e assinalar-se no serviço de seu Rei eterno e Senhor universal, não se contentarão com oferecer-se a compartilhar com Ele os seus trabalhos, mas, combatendo a própria sensualidade, o amor à própria carne e ao mundo, saberão ofertar-lhe estas dádivas da mais alta importância e do mais elevantado preço…”

* * *
Jovens, vós compreendeis certamente esta meditação, porque, ao chamado do Rei Alberto I, respondestes com tanta generosidade.[1]
Deus igualmente vos chama a outro combate: ao combate da virtude. Correstes à guerra para defender um Rei magnânimo e salvaguardar os direitos da Pátria muito amada.
Eram porém, um rei e uma pátria terrestres! Lutastes como leões. E entretanto o valor não teve sempre sua recompensa! Até os mais valentes, e sobretudo o mais valente, se arriscava a morrer!
O heroísmo podia permanecer oculto e até mesmo ignorado!
E quantos combates, quantos feitos gloriosos
Passaram esquecidos, sendo tão famosos.
Contudo para esta glória humana e para esta breve recompensa, afrontastes perigos indizíveis: as minas, os schrapnells e os gases, a lama das trincheiras e o tiro ceifador das metralhadoras e os arames farpados.
“Resististes até ao sangue”. Escrevestes uma epopeia tão bela que as pedras a cantaram, ou tão triste, que até as mesmas choraram.
E, sendo assim, não devereis ser também corajosos para com o Rei divino e na certeza da mais completa vitória?
Não vos iludais: a virtude exige uma luta e de tal forma terrível que muitos jovens que se mostraram heróis naquela, a de 1914 a 1918, vêm a fraquear nesta. É necessário, às vezes, mais heroísmo para as lutas interiores do que para lutar contra inimigos externos.

* * *
Muito mais do que aquela, dura, sem cessar, esta guerra!
Foi necessário combater, por quatro anos, a grande guerra.
É necessário combater, por toda a vida, os inimigos da Castidade.
Sempre de “sentinela alerta”; sempre “in praecinctu”, como diziam os Romanos.
Meu Deus! Como é duro ter que, sem cessar, recomeçar o combate, importuno por vezes, estonteador!
Até a mesma paz não é mais do que uma trégua, e deve ser uma paz armada. “Si vis pacem, para bellum”. O armistício será assinado no céu!
Por covardia, os desertores abandonam as armas.
Tu não deves imitá-los.
Sempre a pé firme, revestido com as tuas armaduras, até ao dia da santa alvorada! Lutar até ao fim.
A 23 de Outubro de 1914, partia o tenente belga Carlos Perrot para o assalto aos jardins de Saint-Laurent, nas proximidades de Arrás. Sentia-se tomado por ardente febre, efeito de uma bronquite aguda. Um de seus amigos interveio, dizendo-lhe: “Fica: já cumpriste, nobremente, o teu dever!”. “Nunca se põe termo ao cumprimento do próprio dever”, lhe tornou ele.

* * *
“Miles Christi!”
Combate, meu jovem paladino, com a tua brilhante espada!
Sê leal cavaleiro.
És cavaleiro, sim, embora não ostentes a cota de malhas, a cimeira e o capacete.
Assim como não é o hábito que faz o monge, assim também não é a couraça que faz o cavaleiro! Debaixo duma couraça de ferro, pode ocultar-se vilíssimo coração.
E debaixo de delicadas vestes, pode palpitar um coração generoso.
O penacho! Só pôde servir de adorno ao capacete.
Já o tens no coração. Muito melhor assim.
Os moços hoje em dia riem-se, quando se lhes fala de cavalaria. Isso já não é conosco, bem o sabeis, isso não passa de linda poesia! A guerra fez-nos grosseiros e positivos. O sangue correu durante quatro anos: tanto vermelho impede nos agora fazer caso do azul!
Os antigos cavaleiros não seriam hoje reconhecidos pelos nossos soldados: Levavam penachos brancos. Ai de nós se assim fizéssemos!
Empunhavam longa lança. Mais prático é ter um bom fuzil.
Eles exibiam-se em torneios, sob os olhares de suas damas. Nós nos sepultávamos nas trincheiras, procurávamos as cavidades mais profundas, com medo dos aviões.
Aviões pelos ares, toupeiras em terra; eis a verdadeira guerra!
Eles regressavam cobertos de flores; e nós, de piolhos.
Eles não se separavam de seus falcões; nós tínhamos por companheiros os ratos.
Seus coxotes eram brilhantes; nossos calções (quando nos era dado encontrá-los) estavam cobertos de lama.
Eles desfraldavam gloriosos gonfalões e bandeiras brancas, recamadas de ouro; nós trocaríamos toda essa pompa aparatosa pelas sólidas granadas a despedirem, como presentes ao inimigo, seus estilhaços, como confeitos de guerra!
Assim motejam os combatentes hodiernos os antigos cavaleiros. Mas que importa ao nosso caso que sejam os heróis de hoje superiores aos antigos cavaleiros? O que importa, ó meu jovem lutador, é que escolhas uma ou outra forma de luta. Pouco ou nada adianta que tu lutes pela antiga ou pela moderna forma; o que sim importa é que tomes parte na luta!
Preferes nossos infantes aos cavaleiros? Adiante meu valente! sê pois o esforçado soldado de Deus!

* * *
Prepara tua alma para a luta. A castidade é um estado permanente de guerra.
Esta pelo menos parece ser a condição normal e comum à todos nós. Uma vez por todas, ponhamo-nos de sobreaviso contra os enunciados absolutos, que são apenas processos de simplificação, nunca porém de precisão. As realidades humanas não são talhadas, mas moduladas. As fórmulas invariáveis, só quadram bem às matemáticas, mas quase nunca se adaptam às regras de moral.
Assim é que, tendo-se em conta as exceções, que acompanham quase sempre um enunciado absoluto, sobretudo nesta matéria delicada, pode-se afirmar que: a vitória da pureza se alcança à ponta de lança. “Não vim trazer a paz mas a espada”, afirmava o divino Mestre.
Pode-se aplicar a muitos cristãos o que S. Paulo dizia dos pecadores, ainda privados das luzes do Evangelho: “Sou carnal… não faço o que quero; mas o que detesto… Não sou eu quem opera, é o pecado que em mim habita. Reconheço que o bem não reside em mim, isto é, em minha carne; o querê-lo está ao meu alcance, mas não o praticar. Pois, que não pratico o bem que quero, mas o mal que não quero. Ora, se pratico o que não quero, já não sou eu quem opera; é o pecado que habita em mim… Gosto da lei de Deus segundo o homem interior; mas sinto em meus membros uma outra lei, que luta contra a lei da minha razão e que me torna escravo da lei do pecado existente em meus membros. Infeliz de mim. Quem me livrará deste corpo de morte?” (Rom. 7-14).
A expressiva palavra “continência” já por si designa a necessidade da luta para conter as más tendências.
O Padre Vermeersch escreve: “A mor parte dos homens, até mesmo os de costumes puros, devem lutar contra a propensão natural à luxúria”.[2]
Guibert é do mesmo parecer: “Na condição ordinária das coisas… a pureza é um verdadeiro triunfo. Salvo raras exceções, são rudes os combates que se travam no ser humano, entre a razão e o sentido… Confessardes que sois tentados vale o mesmo que dizerdes que sois homens”.[3]

* * *
Esta verdade patenteia-se sobretudo aos vinte anos.
A pureza, meu amigo, é para ti a primeira e indispensável virtude. Primeira, não quanto a dignidade, porque esta cabe às virtudes teologais, cujo objeto imediato é o mesmo Deus, mas no sentido de que a pureza é uma virtude, que supõe em ti os mais rudes combates e a máxima generosidade.
A obediência é a virtude do homem; mas a castidade é a virtude do moço.
“Meu caro jovem, a frequência e violência da tentação da carne não devem espantar-te demasiado. Explica-se ela cientificamente pela atração fisiológica que, normalmente, ao começar no homem a puberdade, se começa também a orientar neste sentido e que irregularmente se manifesta mais prematuramente nos temperamentos desequilibrados pelo caos sobre-excitante da vida moderna. Explica-se sobrenaturalmente também por ser ela a arma preferida de Satanás contra todos, e por ela se apossar mais facilmente das almas em que o vigor e os ardores da vida nova se extralimitam mais. Em grau mais ou menos forte ou de doença ou de crise, não deixa de ter lugar, penso eu, nas almas de todos os jovens”.[4]
O mesmo autor escreveu a respeito da castidade uma brochura com este sugestivo título: A luta pela vida.[5]
A um jovem; que se queixava de muitas tentações contra a pureza, respondia Lacordaire, a 22 de fevereiro de 1851: “A paixão de que vos queixais é a que mais tiraniza os homens; ela é universal, e o triunfo que o Evangelho sobre ela alcançou é uma das provas da divindade do Cristianismo”.

* * *
A vida dos santos, escrita com sinceridade e lhaneza, mostra-nos que também eles sofreram o aguilhão desta paixão. Devemos sem dúvida excetuar alguns privilegiados da graça: todavia ainda esta paz absoluta, que gozaram, não foi muitas vezes senão a recompensa dalguma vitória assinalada, como, por exemplo, em Santo Tomás de Aquino. Os outros (e falo dos Santos!…) sentiram estes duros açoites de Satanás. Bastaria citar Santo Afonso Rodriguez, S. José de Cupertino, Santa Ângela, Santa Catarina de Senna.
S. Pedro Damião, para extinguir os ardores do sangue, metia-se num banho d’água gelada (Brev. 23 de fev). S. Bento atirava-se aos espinhais para, pelas dores, “domar os ardores da volúpia”. (Brev. 21 de março). Provavam pois os santos que tanto as almas como os corpos estão sujeitos a uma como lei de gravitação, a uma forte atração à terra.
Meditai atentamente uma emocionante página de S. Jerônimo: “Oh! quanta vez, no deserto, nesta vasta solidão, torrada pelos raios de um sol abrasador, abrigo áspero de monges, eu me sentia arrastado pela imaginação para os estonteadores prazeres de Roma! Ia sentar-me sozinho, cheio de amargura; terrível cilício me cruciava os membros; minha epiderme, enegrecida, assimilhava-se a de um etíope. Lágrimas e gemidos era o meu pão quotidiano; e, quando o sono por vezes triunfava de minha resistência, os meus ossos descarnados curvavam-se para o duro chão sem encontrarem repouso. E eu, que me havia condenado a esta prisão, sem outras companhias senão as dos escorpiões e bestas feras, sentia-me transportado ao vórtice dos turbilhões das festas romanas! Sim, o jejum me havia entorpecido os desejos e no entanto, sentia a minha alma devorada pelo fogo da concupiscência! Num corpo gelado, numa carne prematuramente condenada à morte, fremiam ainda os ardores das paixões… Passava semanas inteiras de pesada abstinência, para domar meu corpo rebelde… Internava-me pelo deserto… Se descobria alguma cavidade no vale, algum cimo alcantilado, algum rochedo abrupto… lá ia buscar um asilo para a minha prece, um cárcere para a minha carne miserável”.[6] E ousa enfim concluir: “A guerra da castidade é um estado de contínuo martírio”.

* * *
Uma primeira consequência do que acabamos de ver é que o jovem não deve descoroçoar nem espantar-se ao sentir o duro e cruel aguilhão de tais tentações. Perturba-se, porque não conhece, quiçá, senão o seu caso pessoal, julga como uma anomalia ou como um caso especial a sua vida. Se conhecesse a história íntima dos outros, se fosse o confidente das almas, bem compreenderia que ser tentado é o estado geral, é a condição normal de todos. O que mais faz admirar a quem estuda os homens é a semelhança fundamental dos mesmos. Um, está claro, será mais tentado, outro menos; um cederá, outro resistirá. Mas, quanto à essência, um jovem assemelha-se muitíssimo a outro jovem! Um homem a outro homem, um velho a outro velho!
“Quando se entrou em anos e se pôde fazer a comparação, é coisa para admirar ver-se o quanto o íntimo da nossa existência é, em todos, muito parecido.
Julgamos possuir em nós incomparáveis segredos, mas por muito pouco que o coração dos outros se nos patenteie, ficamos espantados ao encontrar no íntimo destas almas, misérias semelhantes as nossas, combinações perfeitamente equivalentes!… Todo o coração humano já adiantado em anos, passa por fases secretas… que não variam entre si, senão muito de leve”.[7]
Também por sua vez o Dr. Dejerine, no seu livro Psychonevrosos, atesta: “Quer seja um príncipe em ciências, ou um barão em finanças, ou herdeiro de tronos, ou um mui rude campônio, os sentimentos que agitam esses homens, são totalmente semelhantes”.
Daí, e seja dito de passagem, a utilidade desta óptica interna, desta exploração de todo nosso interior, chamado, “exame de consciência”.
“O homem, seja ele quem for, nota com verdade P. Bourget, traz em si a humanidade”, de sorte que conhecer bem o próprio coração, é descobrir os segredos de todos os corações humanos.
O Pe. de Ponlevoy escreveu na vida do Pe. Ravignan: “Aprendera ele a conhecer os homens em seu próprio coração!”

* * *
Notamos em segundo lugar: exatamente porque a castidade supõe o combate e o triunfo, para a Igreja Católica é muito glorioso ter sido uma grande escola de amor idealmente puro[8] e de virgindade.
Um livro intitulado Pagãos (A. Eymieu), assinala este fenômeno como específico do Cristianismo.
Roma quer possuir seis Vestais, seis donzelas que consentissem em permanecer virgens, para guardar o fogo sagrado da deusa Vesta.
Para alentá-las ao sacrifício de renunciarem ao casamento, concedeu-lhes Roma favores extraordinários: os litores deviam inclinar o feixe de varas, quando elas passassem, os cônsules ceder-lhes, respeitosamente, o passo, os juízes não podiam discutir depoimentos delas, os carrascos deviam poupar os criminosos, se elas intercedessem por eles.
Roma concedendo privilégios tão assinalados e declarando suas Vestais acima da Lei, procurou entre seus 200 milhões de súditos seis donzelas que quisessem, mediante a promessa de tão excelsos dons, permanecer virgens para conservarem o fogo sagrado. E Roma não pôde encontrar seis Vestais voluntárias em todo o Império!
Viu-se então forçada a recorrer à violência e a recrutá-las à força, ameaçando-as com terríveis castigos, e sujeitando-as a uma guarda severíssima.
A virgindade conservada… sob o império do temor…!
Eis porém que Cristo aparece. Pede também Ele virgens para guardarem, cá na terra, a chama sagrada do ideal.[9]
E as encontra.
São atualmente uns 500 mil os sacerdotes no mundo, isto é, 500 mil almas que lhe juram perpétua virgindade; encontram-se ainda em todos os claustros, em milhares de mosteiros, jovens e donzelas que, voluntariamente, lhe juram perpétua castidade.
Antes da Revolução francesa, continua o autor citado, contavam-se em França vinte e oito religiosas sobre dez mil senhoras; depois dela, o número cresceu a sessenta e sete para as mesmas dez mil. E, no entanto, em França, as Vestais não são consideradas dentro da lei, como em Roma, mas infelizmente “fora da lei”. A entrada dessas heroicas, filhas de França, na própria pátria é uma tolerância prática e de modo algum um reconhecimento legal.
Num excesso de orgulho exclamou um dia um Imperador romano: “Seria bastante bater com o pé na terra para dela surgirem legiões de combatentes”. — Bastou bater Cristo com o pé no solo para desde logo surgirem legiões e legiões de virgens!
Ele é que operou este prodígio.
Só e não outro o fez.
Só Ele o podia fazer.
Ele “a Pureza das virgens”, Ele o Imaculado, e Filho da Imaculada, Ele que amou com amor de preferência a João, o Apóstolo virgem e lhe concedeu, durante a última ceia, repousar tão perto de si a cabeça que podia ouvir em seu peito as pulsações do coração divino, Ele que reserva aos Virgens, no céu, um lugar especial ao lado do Cordeiro sem manchas, e lhes concedeu cantarem um cântico místico, que só os Virgens sabem repetir, Ele unicamente pode alcançar da fraqueza humana este admirável triunfo do espírito sobre a matéria e que, com toda propriedade, se chama heroísmo”.
Sim, heroísmo: e de tal modo que muitos santos não hesitam em pôr em paralelo o casto com o anjo, e na comparação, dão a palma de glória da vitória ao primeiro. Santo Ambrósio, no tratado sobre a Virgindade, exclama: “Os anjos vivem sem carne, os virgens triunfam da carne”. “É mais belo conquistar a glória angélica que tê-la recebido por natureza. O homem alcança a virgindade pela luta e com muitos esforços e o anjo a possui muito naturalmente”. (S. Pedro Crisólogo).
O casto não desce a pactuar com o vício.
Direis que também o anjo não desce a essa baixeza? Mas onde está o heroísmo de não cair no pecado da carne, quando se não tem carne?
“Eles, os anjos, não estão sujeitos às paixões: e nem o canto efeminado e nem as músicas mundanas e nem a beleza das mulheres os podem seduzir”. (S. João Cris.).
“Há entre o homem casto e o anjo, esta diferença: A castidade do anjo é mais feliz, a do homem é mais heroica”. (S. Bernardo, Ep. 24).
Todas as virtudes são belas, a castidade contudo é chamada por antonomásia “bela virtude” porquanto espiritualiza, digamos assim, os nossos corpos de barro.
Grandemente comovedor é em gentes, aos olhos do mundo, de pouco ser, ver brilhar nelas essa virtude “angélica”, que Tertuliano qualifica de: “caro angelicata”.
Realiza-se neles a palavra de Cristo: “São como anjos de Deus no céu”. (Mat. 22).
Fora-lhes necessário emprenhar-se em mil lutas, mas isto longe de ser humilhante é o que lhes constitui verdadeiro mérito.
O imaculado é um triunfador, é um herói.
É o homem forte por excelência.[10]
Jovem! Poderás ser atleta, ufanar-te com o título de primeiro “keeper”, de campeão dos “forwards”! Se entrando à noite, em casa, não tiveres a coragem de resistir a vil paixão, não passas de um covarde, herói dos esportes e dos matches!
E tu, pelo contrário, frágil criança, tu jovem e pálido, sem músculos para jogar os halteres, tu que nem ao menos sabes distinguir (que lástima!) um “hands”, de um “penalty” de um “corner”, mas sabes muito bem refrear tuas paixões, tu sim, és o verdadeiro valente, e a teus pés o gigante, de que antes falamos, nem é digno de te desatar as correias dos sapatos.
Homem, sim, és tu!
A pureza, como a virtude, não tem de feminino senão o nome!


[1]             O autor refere-se à mocidade da Bélgica para a qual escreveu este livro.
[2]             Plerique… etiam eorum qui integris moribus praediti sunt, cum naturali propentione ad luxuriam, luctari debent. (Vermeersch De Cast. pg. 86).
[3]             A pureza. pg. 9.
[4]             Les âmes libres par Luc Miriam, pg. 46.
[5]             É a fórmula inglesa Struggle for life, aplicada à vida espiritual.
[6]             Ep. XXII ad Eustochium. De Virgine, N.º 7.
[7]             Sainte-Breuve. Volupté, pg. 133.
[8]             “Quando os antigos falavam de amor, era como se fosse sinônimo de sensualidade, e por isso é que os filósofos não tiveram para com o amor senão palavras de severidade e de desprezo. O sentimento do amor… é um sentimento cristão… Se não existisse virgens consagradas ao Senhor, não teria o mundo apresentado amantes como Rodrigo ou amantes como Ximenes”. (M. Thamim, S. Ambroise et la societé chrét.).
         “O que propriamente chamamos amor era um sentimento ignorado pelos antigos… É ainda ao Cristianismo que, lutando pela pureza do coração, chegou a lançar a espiritualidade nesta tendência que lhe era a mais refratária”. (Chateaubriand, Le genie).
         Estas duas apreciações parecem-nos verdadeiras, mas são muito absolutas.
[9]             A virgindade, em si mesma, é preferível ao estado matrimonial e é mais perfeita. Cf. (Mat, 19-12; S. Paulo, 1 Cor. 7-25; Con. Trid. Sess. 24, can. 10).
[10]           A Bíblia refere as exclamações do povo à heroína Judite: “Vós mostrastes alma viril… Porque amaste a castidade e a mão do Senhor vos revestiu de tal força”. (Judite 15-11).
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