segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A ação divina é tanto mais visível aos olhos da fé, quanto são mais opostas as aparências sob as quais se esconde

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

O ABANDONO À DIVINA PROVIDÊNCIA
pelo
P.J.P de Caussade, S.J


CAPÍTULO II
A ação divina é tanto mais visível aos olhos da fé, 
quanto são mais opostas as aparências sob as quais se esconde

            A alma iluminada pela fé está bem longe de julgar das coisas como aque­les que as medem pelos sentidos, igno­rando o tesouro inestimável que elas en­cerram. O que sabe que uma pessoa disfarçada é o rei, procede de modo bem diferente quando dia chega, do que aquele que vendo a figura dum homem vulgar, o trata segundo a aparência ex­terior. Do mesmo modo a alma que vê a vontade de Deus nas mais pe­queninas coisas, nas mais desoladoras e angustiantes, recebe tudo com igual alegria, com igual reverência e júbilo; o que outros temem e fogem com horror, honra-se ela de o receber, abrindo-lhe de par em par as portas do coração. A bagagem é pequena, os sentidos desprezam-na; mas o coração, sob essa apa­rência vil, reverência do mesmo modo a majestade real; e quanto mais ela se abate para vir em segredo e sem ruído, tanto mais o coração se sente penetrado de amor.

            Não posso exprimir aqui o que sente o coração quando acolhe a divina von­tade, tão pobre, tão abatida, tão dimi­nuída. Ó como esta pobreza de Deus, este abatimento até habitar numa estre­baria, reclinado sobre um pouco de palha, chorando e tremendo de frio, penetra no belo Coração de Maria! In­terrogai os habitantes de Belém, vede o que pensam deste menino. Se ele es­tivesse num palácio, rodeado de fausto como um príncipe, não faltariam a lhe fazer corte. Mas perguntai a Maria, a José, aos Magos, aos pastores; e eles vos dirão que encontram nesta pobreza extrema uma coisa que não sabem de­finir mas pela qual Deus se lhes torna maior e mais -amável. O que falta aos sentidos, realça-o, aumenta-o e enrique­ce-o a fé; quanto menos alimento há para os alhos, mais há paira a alma. Adorar a Jesus no Tabor, amar a vontade de Deus nas coisas extraordi­nárias, não é uma vida de fé em grau tão excelente como amar a vontade de Deus nas coisas comuns e adorar a Jesus sobre a Cruz; porque a fé não é excelentemente viva senão quando o apa­rente e o sensível a contradizem e se es­forçam por destruí-la. Esta guerra dos sentidos torna a fé mais gloriosamente vitoriosa. Encontrar a Deus tão bom nas coisas mais pequenas ,e mais comuns como nas maiores, é ter uma fé invulgar, uma fé grande e extraordinária.
            Contentar-se com o momento pre­sente, é saborear e adorar a vontade di­vina em tudo o que temos de fazer e de sofrer, nas coisas que pela sua sucessão integram este momento atual. As almas assim dispostas adoram a Deus com re­dobrado amor e reverência, nos estados mais humildes; nada o esconde ao olhar perspicaz da fé. Quanto mais os sentidos teimam em afirmar "aí não está Deus", tanto mais essas almas abraçam e estreitam ao coração o ramalhete de mirra; nada as afasta nem as desvia. Maria há-de ver os Apóstolos aban­donarem a Jesus; porém Ela permane­cerá junto à cruz e reconhecerá o seu Filho, por mais que os escarros e as cha­gas O tenham desfigurado. Pelo contrá­rio, essas chagas que o desfiguram tor­nam-no mais adorável e mais amável à ternura dos olhos da Mãe, e quanto mais blasfêmias vomitarem os algozes contra Ele, mais crescerá o seu amor e veneração.
            A vida da fé não é senão uma busca incessante de Deus através de tudo aquilo que o esconde, o desfigura e por assim dizer o destrói e aniquila. É verda­deiramente uma reprodução da vida de Maria, que desde o presépio ao Calvário se conserva unida a um Deus desconhe­cido, abandonado e perseguido de todos. De igual maneira as almas de fé passam além duma série continuada de mortes, de véus, de sombras e de aparências, que teimam em. tornar irreconhecível a von­tade de Deus, a qual das buscam e amam até à morte da cruz. Sabem per­feitamente que é preciso deixar conti­nuamente as sombras, para correr após este divino sol que, desde o seu nasci­mento até ao seu acaso mesmo encoberto por escuras e densas nuvens, de contínuo ilumina, aquece e abrasa os corações fiéis que o bendizem, louvam e contemplam em todos os pontos desse misterioso per­curso.
            Correi, pois ó almas fiéis, alegres e infatigáveis, após este querido Esposo que faz o seu caminho a passos de gi­gante, dum extremo ao outro do céu, sem nada se poder ocultar a seus olhos. Caminha por sobre as ervinhas do prado do mesmo modo que por cima dos ce­dros das florestas. Sob os seus passos es­tão os grãos de areia da praia, como os dorsos das montanhas. Por toda a parte já Ele pousou os Seus pés; é segui-lO sem desfalecer, com a certeza de o encontrar onde quer que vos acheis.
            Ó que deliciosa paz desfruta a alma a quem a fé ensinou a ver assim à Deus através de todas as criaturas, como atra­vés de um véu diáfano. Então as escuridões tomam-se lumi­nosas, suaves as amarguras, A fé, mos­tra-nos as coisas na sua verdadeira luz, muda-lhes a fealdade em beleza e a malí­cia em bondade. A fé é a mãe da doçura, da confiança e da alegria; não pode usar senão de ternura e compaixão para com os seus inimigos, que tanto a enriquecem à própria custa. Quanto mais a ação da criatura é malévola, tanto mais a ação de Deu-s a torna proveitosa. Ao passo que o instrumento humano se es­força em prejudicar, o divino artífice, em cujas mãos está, serve-se dessa mesma malícia para desviar da alma aquilo que lhe pode fazer mal.
            A vontade de Deus não tem senão doçuras, favores, tesouros, para as almas submissas; nunca será demais a con­fiança que ponhamos nela, nem a ela nos abandonaremos demasiadamente. Ela pode e quer sempre o que mais há de contribuir para a nossa perfeição, contanto que de nossa parte não ponha­mos obstáculos à ação de Deus. A fé não duvida. Quanto mais os sentidos se mostram inseguros, revoltados, desespe­rados, tanto mais a fé nos diz: aí está Deus, tudo vai bem.
            Não há coisa alguma que a fé não possa penetrar e dominar. Dissipa to­das as trevas; e por mais esforço que as sombras façam, passa através delas, para chegar à verdade, abraça-a sempre com firmeza e jamais a abandona.
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