domingo, 4 de outubro de 2015

QUE É O RICO? É O TESOUREIRO E O PROVEDOR DO POBRE

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CAPÍTULO IX 

QUE É O RICO?
É O TESOUREIRO E O PROVEDOR DO POBRE
 

Na ordem da criação, o rico é o tesoureiro do pobre, obrigado a prover às suas necessidades. Deus o favoreceu com riquezas, não para que as malbaratasse e gozasse a seu talante, mas para que socorresse os infelizes. Jesus Cristo ordenava que o supérfluo seja dado de esmola. Deve, pois, o rico dar muita esmola. Podia Deus distribuir igualmente os bens da terra e sustentar todos os homens como faz com a erva do prado, o lírio do campo, a árvore da floresta; invés, quis as desigualdades sociais, ordenando que uns auxiliassem os outros. Esta é uma verdade pouco entendida de muitos ricos, que se fecham no círculo estreito do próprio eu e não pensam senão em gozar, expulsando de sua porta ao pobre, como a um importuno. Contra esses, o Divino Redentor, sempre brando, sempre doce, tomou um tom terrível, ameaçando-os de eterna condenação: “Ai de vós, ó ricos, porque tendes já recebido a vossa consolação. Ai de vós que sois saciados, porque sofrereis fome. Ai de vós que rides, porque chorareis e gemereis.” (S. Lucas V, 24).

Na parábola do epulão mostrou claramente o triste fim dos ricos que pensam só em gozar, desprezando os pobres.
É Jesus quem nos conta: Havia um homem muito rico, que andava luxuosamente vestido e vivia vida regalada e ociosa, oferecendo aos amigos lautos banquetes. Havia também um mendigo chamado Lázaro, que inutilmente suplicava lhe mitigassem a fome com as migalhas que caíam da mesa. Algum tempo depois, morreram ambos. O pobre foi levado pelos anjos ao seio de Abrãao. Morreu o rico e foi sepultado nas profundezas do inferno. Por qual culpa? Talvez porque era blasfemo? desonesto? injusto ou ladrão? Nada disso. Foi condenado às penas somente porque se mostrou cruel para com o pobre Lázaro e só pensou em gozar.
É impossível salvar-se um rico que põe a sua esperança nos bens da terra e não é caridoso. É mais fácil passar uma corda no fundo de uma agulha que tal pessoa vá ao céu. Não há tergiversar. O rico que deseja salvar a alma deve dar esmola, desapegar o coração dos bens terrenos e conservar a pobreza do espírito, tão recomendada pelo Divino Redentor. Se o rico está obrigado a dar o supérfluo ao pobre, segue-se que, não o fazendo, é um ladrão que retém o alheio.
S. João Crisóstomo discorre deste modo: — Rico, ouve-me: são teus este dinheiro, estas terras, diz o mundo; não assim a fé: o senhor de tudo é Deus; tu não passas de simples administrador; hás de prestar conta ao senhor até de uma courela. E se Deus é o senhor, tem direito de discriminar o emprego das tuas rendas. Pois bem, vês aquele pobre que te espera à porta? veio para exigir em nome dele; Deus o mandou, e aqueles andrajos que o cobrem são a libré que to indicam tal. Vamos, sê pronto em o socorrer; não é um favor que fazes, é um tributo que pagas.
Cuidado! Assim o grande Santo Ambrósio, não recuses uma esmola, porque tanto é pecado tirar o alheio, quanto negar o que lhe é devido.
Causa asco ver certos ricos criarem uma matilha de cães de caça ou soberba tropa de cavalos e negar a um esfarrapado um naco de pão ou um abrigo! Como é doloroso ver certas senhoras criarem um cachorrinho, levarem-no ao braço, cobrirem-no de carícias, e afastarem com indignação o olhar de um pobre que lhes estende a mão súplice, julgando-se rebaixadas com a sua presença! No entanto o pobre é filho de Deus, é uma alma remida pelo sangue de Jesus Cristo!
Há ricos que se julgam seres privilegiados; nascidos para gozar, veem no pobre o pária da sociedade, como se fosse de natureza inferior, digna tão só de desprezo. Mas quão outros são os juízos de Deus! Deus ama o pobre e, para honrá-lo, quis nascer de pais pobres e na mais esquálida miséria. Escolheu para seus Apóstolos, não os magnatas de Herodes ou de Augusto, mas doze pobres pescadores; e viveu sempre rodeado pelo povo simples, protestando ter vindo evangelizar os pobres, por ter sido essa a missão de que fora incumbido. Evangelizare paupéribus misit me. Jesus subiu ao céu, mas continua a morar na terra no Santíssimo Sacramento e no tugúrio do pobre. Através dos andrajos que cobrem os membros descarnados dos míseros, os santos contemplam sempre a Jesus sofredor.
É célebre o fato sucedido a S. Martinho. Quando era soldado da cavalaria, encontrou um pobre seminu, que lhe pediu esmola, em nome de Deus. Martinho, não tendo dinheiro naquela ocasião, arrancou do manto, dividiu-o ao meio e deu uma parte ao pedinte. De noite apareceu-lhe Jesus Cristo vestido com o manto dado de esmola, e lhe agradeceu por tê-lo socorrido na pessoa daquele pobre. Imitem os ricos este exemplo e sejam pródigos para com os representantes de Jesus sofredor.
O apóstolo Santo Tiago tem palavras mais graves aos ricos que esquecem os seus deveres de caridade: “Eis, pois, ricos, agora chorai bem alto pelas desgraças que virão sobre vós. As vossas riquezas se putrefizerem, e as vossas vestes são comidas pelas traças. O vosso ouro e prata se corromperam, e a sua corrupção dará testemunho contra vós, e devorará a vossa carne como fogo. Entesourastes para vós a ira nos últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, o qual pela fraude lhes tirastes, está a clamar; e o clamor deles chegou até aos ouvidos do Senhor dos exércitos. Tendes vivido em festins sobre a terra, e na luxúria cevastes os vossos corações, como em dia de imolação.” (Cap. V).
Para evitar ameaças tão terríveis o rico deve imitar o bom samaritano e prover às necessidades dos pobres. Então, as maldições cominadas se trocarão em bênçãos. Deus ouve sempre a oração do pobre; e quando ele for ajudado por vós, fará chover sobre vossa cabeça, sobre vossas famílias, copiosas graças. Os pobres agraciados pelo centurião Cornélio, lhe obtiveram do céu a conversão. Um mensageiro celeste o pôs em relação com S. Pedro, a fim de ser instruído na fé e batizado com toda a família.
Quando se celebra um matrimônio ou um batizado, o verdadeiro meio para atrair os favores do céu sobre os esposos ou sobre a criança é socorrer os pobres. Experimentem-no as famílias, que se alegrarão com os salutares efeitos.