sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Proteção em tudo, e sempre, por toda a nossa vida

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


3 — Proteção em tudo, e sempre, por toda a nossa vida 

O desabrochar de uma vida!… Grande mistério, maravilhosa coisa!… Começar a existir é começar a tomar parte nas lutas desta vida, é candidatar-se a um trono no céu, é expor-se ao perigo das encruzilhadas que nos podem fazer transviar.
E é no começo do caminhar que se escolhe o caminho a seguir. É claro que a criança não está em condições de poder escolhê-lo. Escolhem-nos os pais — oh que grande responsabilidade! Os pais são os anjos visíveis da criança. Os Anjos da Guarda são os Anjos invisíveis. Ambos velam por esta tenra vidinha que começa — e oxalá saibam os pais cooperar com o Santo Anjo de Deus!

Para eles não há essa inversão de valores muita vez adotada pelos pais, em que os interesses espirituais da criança, que são os de maiores consequências para a vida e para a morte, são pospostos aos interesses simplesmente materiais e naturais da vida.
Apenas abre os olhos o pequenito à luz do mundo, põe-se-lhe ao lado o amável protetor, a cercá-lo dos cuidados que inspiram a sua fraqueza e pequenez. Mas não se limita a proteger-lhe a vida do corpo. Ele sabe que há uma vida infinitamente mais valiosa: a vida sobrenatural, que é participação da mesma vida de Deus. Ele sabe que aquela criancinha pode participar dessa vida, incorporando-se pelo santo batismo, a Cristo, que de direito a possui. Da sua parte faz o que lhe é possível para que, aquiescendo a suas inspirações, levem-no logo os seus pais à pia batismal.
Mas eis que já desponta a luz da razão. É então que se lhe apresenta o Anjo de Deus como guia e ilustrador dessa mentezinha que então começa a refletir, como orientador daquele coraçãozinho que começa a tomar consciência de que ama. A sua mente há de procurar o Autor da Vida, e o seu coração há de amá-lo com todas as suas forças. O caminho por onde leva o seu protegido é o caminho do bem, que é sempre ladeado pelas barreiras de uma educação de todo solidamente cristã.
E para as lutas do espírito, que com o uso da razão já principiam, arma-o com as armas do cristão, armas espirituais que lhe são ministradas no sacramento da Confirmação. Mas o mundo é sedutor, e hoje como nos dias de Sodoma a carne corrompe o caminho do homem…
Um impulso natural no homem, radicado nas profundezas do seu ser, ameaça o adolescente que ainda ignora os recursos de vida, que em si possui, e que pode deixar-se arrastar ao vício e à vida desregrada. Observando o Santo Anjo tudo isto, e a um perigo tão íntimo ele opõe um remédio igualmente íntimo, que desça ao âmago do coração humano e aí ponha a virtude e a inclinação a todo bem. E este remédio é a Eucaristia.
E ao par da Eucaristia, está a devoção a Maria Santíssima. Inspirando-lhe o amor de Maria, o Santo Anjo lhe inspira um remédio igualmente íntimo e durável, que lhe purifica os afetos, lhe transforma o interior da alma em tabernáculo de Jesus.
Vêm os trabalhos, os dissabores, as lutas pelo pão quotidiano. É já um consolo o sabermos que temos ao nosso lado um Anjo de Deus, e que ele já possui, o que possuiremos depois dos trabalhos da vida. Mas, além disto, que fortaleza de ânimo não inspiram aos homens de fé sincera os Santos Anjos da Guarda! Que paz na velhice, que serenidade na última enfermidade, que conformidade na morte!
E é este o caminho por onde, desde a sua juventude, vai o Anjo da Guarda levando o seu protegido: Proverbium est: adolescens iuxta viam suam, etiam cum senuerit, non recedet ab ea. O adolescente, ainda depois de velho, não se afastará daquele caminho que tomou em sua juventude. Felizes, portanto, daqueles que desde a sua juventude seguem pelo bom caminho, fiéis às inspirações do Santo Anjo da Guarda!
Eloquentemente S. Bernardo: solícitos tomam parte em nossas alegrias, confortam-nos em nossas penas, instruem-nos em nossa ignorância, em nossos riscos nos protegem, a tudo próvidos atendem: sollicite congaudent, confortant, instruunt, protegunt, providentque omnibus, omnes in omnibus.[1]
Felizes de nós se desta verdade nos soubéssemos persuadir! Que ventura tê-los ao nosso lado nas viagens, como companheiro, na enfermidade como médicos, como amigos na adversidade, como sapientes conselheiros nas dúvidas e perplexidades, poderosa ajuda nas fadigas e desânimos da estrada que trilhamos, qualquer que seja ela!
Jovem cristão, jovem congregado, é a ti, sobretudo, que me dirijo. Invoca o teu Anjo da Guarda nas dificuldades dos teus estudos, e aos demais títulos seus para contigo, ele ajuntará mais este de celeste preceptor e mestre teu!
Mas não é tudo. Não há durante o dia ocupação alguma, em que não nos assista o Santo Anjo da Guarda. Esta foi a ordem que ele recebeu de Deus: guardar-nos em todos os nossos caminhos — in omnibus viis. Neste mesmo instante em que lês, jovem caríssimo, contigo o Santo Anjo se inclina sobre esta piedosa leitura, e te ajuda a torná-la proveitosa para a tua vida prática. E depois desta leitura irás porventura recrear-te de alguma forma: contigo estará o Santo Anjo. Contigo ele irá ao teu colégio, contigo estará à mesa, e velando o teu sono permanecerá quando te deitares a dormir. E dormirás… e despertarás na manhã seguinte… E de joelhos em terra, farás a tua oração. E quem a levará ao trono de Deus? O teu Anjo da Guarda, tal como foi visto por S. João em uma de suas visões.
A oração nos une a Deus, e nos alcança as graças necessárias à nossa salvação. Não há, por este motivo, ato nosso em que mais se compraza o caritativo espírito celeste. Dizem-nos os santos que quando rezamos nunca estamos sós: assistem-nos os Anjos de Deus, rejubilantes sobremodo, na exultação de sua celeste alegria! Sendo assim, contínua será a alegria dos Anjos, se contínua for a nossa oração, conforme ao ensinamento de Cristo nosso Redentor: “é preciso sempre orar e nunca deixar de fazê-lo.” Na verdade nada mais desejam os Santos Anjos, com tanta solicitude, do que transformar a nossa vida em uma contínua oração.[2]

[1]      Ep. LXXVIII, ad Sugerium.
[2]      Três “vias” distinguem os autores ascéticos: a via purgativa, própria dos principiantes na vida espiritual; a iluminativa, própria dos que já vão aproveitando nos caminhos do espírito e a unitiva, própria dos perfeitos. Em cada uma destas vias trazem os Anjos a sua ajuda aos homens. Aos incipientes, purgando-os dos seus defeitos; aos proficientes, iluminando-os com sábios ensinamentos; aos perfeitos corroborando-lhes a perfeição com seu validíssimo conforto. Ah! Bem é verdade que nos guardam em todos os nossos caminhos! A estas três vias alude S. Dionísio no livro de Cael. Hierarch., no cap. III.
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