terça-feira, 6 de outubro de 2015

Proteção à alma

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


Capítulo IV 

O MANDATO QUE CUMPREM 

De que se ocupam precisamente junto de nós, os nossos Anjos da Guarda? Que fazem, em nosso favor? — Ocupam-se naquilo de que Deus os encarregou, cumprem com o mandato que Deus lhes deu. E que mandato foi este? “Que te guardem em todos os teus caminhos: ut custodiant te in omnibus viis tuis.” Que te guardem — nas jornadas do teu espírito através dos perigos espirituais — nas jornadas do teu corpo através dos perigos materiais — enfim em tudo, e sempre, por toda a tua vida.

1 — Proteção à alma 

A alma, como espiritual que é, não pode ser atingida pelas desgraças e acidentes materiais deste mundo. O seu perigo é o perigo moral do pecado e, como consequência deste, a condenação eterna.
Mas, há real perigo de condenarmo-nos? É Jesus Cristo que o diz: “larga é a porta e espaçosa é a estrada que leva à perdição, e muitos são os que tomam por elas. Que apertada é a porta que leva à vida, que estreita a sua estrada, e como são poucos os que por elas trilham!” Há, pois, real perigo de condenarmo-nos. Não é pois de admirar que em tão constante perigo de trilharmos o mau caminho, nos tenha dado Deus Nosso Senhor um anjo da sua corte celeste para proteger-nos, guiar-nos, conduzir-nos!

Além disto pode ser que não sejamos tão espirituais que prefiramos a vida sobrenatural aos prazeres do mundo, e que por outra parte nos falte ânimo para seguir pela estreita senda do céu. Por outro lado a experiência dos esforços passados, nos pode desanimar. Sempre a entrar no bom caminho, e sempre a dele ver-se afastado! Não obstante, fica de pé a sentença do divino Mestre: só será salvo quem perseverar até o fim.
Pois bem, para animar-nos no bom caminho, para reconduzir-nos a Ele, quando transviados, é que nos deu Deus o santo Anjo da Guarda. Essas consolações espirituais que sentes na prática da virtude, no exercício da mortificação, na renúncia aos desejos da carne, quem é que te infunde? O teu Anjo da Guarda, que assim te quer animar a prosseguires no bom caminho. E de quem é essa voz que te chama quando transviado, que te repreende no íntimo do teu coração, que te admoesta e como que te convida a tornar ao bom caminho? Do teu Anjo da Guarda. Eis o que faz junto de tua alma o teu Anjo da Guarda.
E pode ser que perseveres no bom caminho mas que sofras terríveis assaltos do demônio. O demônio, como diz o apóstolo S. Pedro, como um leão a rugir ronda por perto, à procura de uma presa para devorar. Far-lhe-á frente o teu Anjo da Guarda (desde que tu mesmo te não entregues ao inimigo), pô-lo-á em fuga, enchê-lo-á de temor por sua virtude sobrenatural, livrar-te-á das suas malhas, enfim será o teu escudo, o teu defensor, o teu libertador.
Particularmente encantadoras, dentre os mais comuns exemplares da arte cristã, são as imagens dos santos Anjos. Que beleza sobrenatural não ressumbra nessas pinturas, e como vêm vivamente expressos aí os três ofícios do santo Anjo da Guarda — de guarda, arrimo e escudo, ou seja, de guia, protetor e defensor! É guia, pois aponta para o céu, e indica o caminho que para lá nos leva; é arrimo, pois dá o apoio de seu potente braço ao inexperiente infante que conduz; é defensor e libertador, pois com seu simples olhar fulmina ao horrível dragão que a ameaçá-los se lhes atravessa no caminho.[1]
As orações da Igreja assinalam esses mesmos três ofícios dos Anjos. A oração do Anjo da Guarda, que nos ensina o catecismo, é uma das mais belas que compôs a piedade cristã — toda repleta de sentimentos de confiança, reconhecimento da bondade de Deus e humilde submissão. Confiança: Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador; reconhecimento da bondade de Deus: já que a ti me confiou a piedade divina; humilde submissão: sempre me rege, guarda, governa e ilumina, Amém. E aí estão expressos, ao mesmo tempo, os três ofícios do Anjo da Guarda; é ele com efeito, o zeloso guardador, que rege, que governa, que ilumina.
E digamos por último que, como verdadeiro guarda, guia e apoio, os anjos de todos se dedicarão e socorrer-te “tomando-te nos braços”, como enérgica e belamente exprime a S. Escritura, para que não te venhas a magoar nas pedras do caminho: in manibus portabunt te, ne forte offendas ad lapidem pedem tuum (ps. XC).

[1]     Esses ofícios dos Anjos da Guarda assim são discriminados por vários autores: O Anjo da Guarda a progredir no bem — a não cair em pecado — se nele se cair, a dele levantar-se — se dele não se levantar, não cair tão frequentemente para ruína própria e alheia. Este último efeito da guarda dos Anjos vem ainda notado por S. Tomás, I. p. q. CXIII, a 4. ad 3.