sábado, 17 de outubro de 2015

O QUE SINGULARMENTE OFENDE OS SANTOS ANJOS

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


Capítulo VI 

O QUE SINGULARMENTE OFENDE
OS SANTOS ANJOS


Não há pecado, evidentemente, que não ofenda os Anjos da nossa Guarda. Não há pecado, portanto, que por nós não deva ser evitado por respeito à presença do Santo Anjo de Deus. Há, entretanto, alguns pecados que os ofendem mais gravemente. É mister aborrecê-los profundamente e evitá-los com todo o cuidado para não desgostar ao amável protetor nosso e zeloso guarda de nossa alma.
É fácil compreender que pecados sejam estes, se consideramos os Santos Anjos de Deus sob os três aspectos seguintes: com respeito a Deus, seu Criador e Senhor, com respeito a eles mesmos, e com respeito a nós, os homens.

Com respeito a Deus, são ministros zelosíssimos seus: espíritos administradores… Todo pecado, portanto, que ofende diretamente a majestade de Deus, é-lhes igualmente profundamente injurioso e profundamente os ofende.
Com respeito a si mesmos são puríssimos espíritos. Quer isto dizer que, não sendo, como os homens, compostos de carne e espírito, são de todo isentos dos atos carnais e sensuais inerentes à natureza humana. Todo ato sensual, portanto, não permitido por Deus Nosso Senhor, todo ato carnal não dirigido pela razão, de todo repugna a sua puríssima e toda espiritual natureza.
Enfim com respeito aos homens são os seus guardas e nada têm mais a peito do que a sua salvação: “missi propter eos qui hereditatem capient salutis.” Ora, há um pecado que se opõe a essa missão dos Anjos: é o pecado de escândalo. O escandaloso leva as almas à perdição como os Anjos da Guarda à salvação. Eis, portanto, a terceira espécie de pecado que os Anjos grandemente abominam. 

1 Injúrias que diretamente ofendem a majestade de Deus 

De dois modos é possível injuriar a Majestade de Deus. Primeiramente, de modo indireto, e como que por consequência, violando deliberadamente os seus preceitos ou proibições, tal como acontece no homicídio, na detração, no ódio para com o próximo. Em segundo lugar, diretamente, e per se, tendo por alvo da injúria, imediatamente, a mesma divindade sacrossanta, ou ainda os atributos infinitos, tal como se dá na blasfêmia ou quando com insensata ousadia se maldiz a sapientíssima providência sua. Se zomba de sua santa religião, se rebela contra os seus santos dogmas. São estas últimas, injúrias de lesa Majestade divina, e são sumamente ofensivas aos Anjos, zelosos ministros seus.
Qual é, com efeito, o ofício dos Santos Anjos com respeito a Deus? Como indica o mesmo vocábulo grego “angelos” são eles mensageiros e ministros de Deus. Ora bem, que ministro verdadeiramente fiel a seu senhor e solícito de seus interesses, não vibra de indignação contra o acinte de quem o insulta em sua mesma presença, não toma como suas as injúrias feitas ao seu Senhor, não se afoita cheio de zelo à pressão do ofensor e à vingança do ofendido? Assim fazem os fiéis servidores dos senhores da terra. Como não farão, então esses supremos ministros de Deus altíssimo?
É por vezes mentirosa, instável em todo o caso, e interessada, a fidelidade do homem ao homem; mas a fidelidade dos Anjos a seu Criador é leal, sincera, constante, acompanhada de zelo ardoroso.
Por outra parte, vai infinitamente menos do servo ao senhor, por grande que seja, desta terra, do que do Anjo a Deus, ser infinito que lhe deu o ser e tudo o que ele tem. É pois, para o Anjo, a Majestade divina, algo de tremendo, altíssimo e adorabilíssimo. Daí todo o zelo, desses seus ministros e servidores. Só na misericórdia divina, com que se conformam os Anjos, se pode achar a razão pela qual não vingam eles incontinente e implacavelmente as ofensas feitas à divina Majestade. Deus, que é Pai de Misericórdia, ainda oferece a esses pecadores o auxílio de sua graça; também os Anjos continuam prestando-lhes assistência, e como médicos compassivos todos se empenham para que os infelizes se reaviem no caminho do céu. Mas quem poderá dizer a indignação suma dos bem-aventurados espíritos, obrigados a ser testemunhos de tão horríveis excessos?
“Sanctum et terribile nomen ejus”: é santo e terrível, o nome do Senhor, diz o Salmista. Respeita-o pois, para que não venhas a ofender a sua divina Majestade e para que não causes ao bom Anjo da Guarda o desgosto de assistir a tão horrenda injúria do seu Criador e Senhor.
“Nem digas diante do Anjo: não há providência, para que não aconteça que irado o Senhor com tal falar, não faça perecer todas as obras de tuas mãos: neque dicas coram Angelo non est providentia, ne forte iratus Deus contra sermones tuos dissipet cuncta opera manuum tuarum” (Eccl. V, 5) — Guarda-te, pois, de tal falar, como te adverte o Espírito Santo. Não digas que o vosso Pai celeste não é bom ou não é justo. Não faças da sua santa religião objeto dos teus gracejos e muito menos das tuas zombarias. Submete a seus santos dogmas, que Deus se dignou revelar-lhe, o teu intelecto, certo de que Deus te guia na senda da verdade, sem o mínimo perigo de transviar-te.
Enfim, tudo o que se refere a Deus de um modo especial, é digno de veneração e respeito por tua parte: objetos, lugares, pessoas consagradas ao seu divino culto ou ao seu sagrado serviço. Guarda-te, portanto, de toda irreverência na igreja e de todo desrespeito para com os ministros do santuário ou as sagradas cerimônias que aí se realizam. Os Anjos, como diz S. Teodoro Studita, são os guardas que velam pelos altares e pelos templos de Deus: “per angelos altaria Dei custodiuntur et fidelium templa servantur.” Não é, por outra parte, por respeito aos Anjos, que S. Paulo preceitua que as mulheres devem conservar-se com o véu sobre a cabeça na igreja? Com que olhos não verão, pois, esses Anjos que aí assistem, o infeliz que faz da casa de Deus não só teatro para seu divertimento, mas lugar de licença e escândalo?[1]
Há, entretanto, um momento em que todo respeito de tua parte é pouco no templo de Deus: é o momento da santa Missa. Lembra-te que a ela assistem multidões de espíritos celestiais profundamente reverentes, e como que transidos de santo temor ante o altíssimo mistério que ali se cumpre.
E como remate de todas estas considerações, que deves tomar como inspiradas pelo teu Anjo da Guarda, e como que saídas de sua boca, guarda em teu coração estas palavras de S. Gregório Nazianzeno, que te farão venerar e respeitar os sacerdotes de Deus, e quiçá te movam a seguir-lhes a carreira: “os mesmos Anjos, diz ele, puros adoradores de Deus puríssimo, é provável que venerem o sacerdócio como coisa bem digna do seu culto: sacerdotium ipsi quoque Angeli, puri purissimi Dei cultores, tanquam ipsorum cultui minime impar, fortasse veneratione prosequuntur.[2] E se queres uma palavra de autoridade divina que eleve o sacerdote a uma como identificação com o próprio Cristo, guarda esta breve e profunda palavra dita aos apóstolos e seus sucessores pelo divino Mestre: “quem vos ouve, é a mim que ouve; e quem vos despreza, é a mim próprio que despreza; qui vos audit, me audit, qui vos spernit, me spernit.

[1]     Na oração in sanctos Angelos, n. 2, Migne Patrol. Graes. Tomo XCIX p. 730. — S. Jerônimo comenta o texto de S. Paulo a que aludimos nos Coment. in Math. l. III.
[2]     Orat. XVII, n. 12.
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