sábado, 3 de outubro de 2015

O PRECEITO DA ESMOLA NO NOVO TESTAMENTO

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


CAPÍTULO VIII 

O PRECEITO DA ESMOLA
NO NOVO TESTAMENTO
 

Nas suas pregações às margens do Jordão, o Batista precursor começou de inculcar o preceito favorito de Jesus — o amor ao próximo — preludiando ao grande ensino do Messias. Corriam as turbas em massa a ouvi-lo e interrogá-lo sobre o que era preciso fazer para subtrair-se à ira de Deus; e eles lhes dizia: “O que tem duas túnicas, dê uma ao que não tem; e o que tem que comer faça o mesmo” (S. Lucas, III. 11).
Aparece o Divino Redentor, e os seus lábios jamais se cansam de repetir a lei da caridade e o preceito da esmola espiritual e temporal, chamando-o a característica de seu Evangelho. O Novo Testamento é lei de amor, de caridade, de misericórdia e de benevolência. E Jesus fala claro: “Dai esmola do que sobra; quod superest, date eleemósynam.” (S. Lucas, XI, 14). E note-se que não é conselho ou exortação, mas ordem absoluta, expressa em modo imperativo, que não admite réplica.

Alhures diz: “Vendei o que possuis e dai esmola. Fazei para vós bolsas que se não gastam com o tempo, um tesouro que se não esgota no céu; ao qual não chega o ladrão, e que a traça não rói.” (S. Lucas XII, 33). — Néscio, grita ele a um rico, esta noite serás chamado à eternidade e as coisas que ajuntaste para quem serão? — Como se dissesse: aquela riqueza ficará no mundo, na mão dos herdeiros, mas se tu a tivesses dado aos necessitados, tê-la-ias encontrado além do túmulo.
Jesus ensina também o modo de exercer com fruto a hospitalidade: “Quando deres jantar, ou ceia, não chames teus amigos; nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos que forem ricos; para que não te convidem eles por sua vez, e te paguem com isso; mas quando deres banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz, porque não têm com que te retribuir; porém, ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.” (S. Lucas, XIV, 12 a 14). Depois de ter narrado a parábola do ecônomo infiel, acrescenta: “E eu vos digo: granjeai-vos amigos com as riquezas da iniquidade para que, quando necessitardes, vos recebam nos tabernáculos eternos.” (S. Lucas, XVI, 9). Chama iníquas as riquezas porque muitas vezes são adquiridas com fraudes e injustiças.
Era costume dos fariseus dar esmola unicamente para serem vistos e admirados; e o Divino Redentor repreende-os severamente, ensinando-lhes a fazer boas obras por um fim mais nobre: “Quando dás esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como praticam os hipócritas nas sinagogas e nas ruas para serem honrados pelos homens. Em verdade vos digo, que eles já receberam a sua recompensa. Mas, quando dás esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a tua direita, para que a tua esmola fique em segredo, e teu Pai, que vê o oculto, te recompensará.” (S. Mateus, VI, 2 a 4).
Para mais excitar à prática desta virtude ele considera feito a si próprio o que se faz aos pobres. Como já ficou dito, ele agradecerá aos eleitos, no dia do juízo final, de terem-no vestido, saciado, consolado, hospedado, visitado no cárcere ou no leito, na pessoa do próximo; ao passo que repreenderá acerbamente os réprobos por terem-no desprezado na pessoa dos pobres. E tudo terá sua recompensa; até o simples copo d'água dado por seu amor: “E todo o que der a beber a um destes pequeninos um copo de água fria, a título de esmola, digo-vos em verdade que não perderá sua recompensa.” (S. Mateus, 42).
S. Pedro, um dia, ousou perguntar ao Divino Mestre: — “Eis-nos aqui, os que deixamos tudo e te seguimos; que haverá então para nós?” — E Jesus lhe disse: — “Em verdade vos digo que, na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono de sua glória, vós, que me seguistes, sentar-vos-eis também em doze tronos, e julgareis as doze tribos de Israel. E todo o que deixar por amor de meu nome a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os filhos, ou a herdade, receberá o cêntuplo, e possuirá a vida eterna.” (S. Mateus, XIX, 27 a 29).
Jesus, sempre doce, sempre cheio de bondade, assume um tom terrível contra os ricos mofinas e os ameaça de eterna condenação. Veremos num capítulo à parte as suas ameaças. E ele mesmo praticava o que ia ensinando, para dar-nos exemplo, e distribuía aos pobres a sobra do que lhe davam os judeus.
No sermão da ceia, que pode chamar-se o testamento de Jesus aos seus discípulos, o Mestre recomenda a caridade. “Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei.” (S. João, XIII, 34); “meu preceito é que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei.” (XV, 12). A caridade, pois, é o preceito principal, a lei característica do Evangelho, o mandamento do Divino Redentor.
Em seus sermões, Jesus narrou a parábola do bom Samaritano, para mostrar de maneira clara e simples quem possui a verdadeira caridade para com o próximo. O primeiro mandamento da lei é o amor a Deus e o segundo é o amor ao próximo. Qual há de ser a medida do amor ao próximo? — O amor a nós mesmos, isto é, nós devemos amar o próximo como a nós mesmos.
Os apóstolos aprenderam do Divino Mestre a lição do amor, e em suas cartas recomendam sempre a caridade espiritual e temporal. S. João fala dela tantas vezes, que mereceu a antonomásia de apóstolo da caridade. “Aquele que tem riquezas deste mundo, e vê a seu irmão em necessidade, e lhe cerra as suas entranhas: como está nele o amor de Deus?” (I. S. João, III, 17). Nos últimos anos de sua vida era levado à igreja, e não sabia dizer outra coisa: “Meus filhinhos, amai-vos reciprocamente.” Enfadados os discípulos de ouvir sempre a mesma coisa, perguntaram-lhe porque lhes não falava dos outros preceitos, ele que, tendo-se inclinados ao peito de Jesus, conjecturara os mistérios sublimes; e o apóstolo respondeu: “Outras coisas vos não direi, pois isto é o que nos manda especialmente o Senhor; e isto perfeitamente executado basta para fazer-nos santos.”
O Apóstolo S. Paulo ordena coletas em várias Igrejas para socorrer os irmãos de Jerusalém, desolados pela carestia, e exorta os fiéis a porem semanalmente no gazofilácio algum dinheiro. “Aquele que semeia pouco, também segará pouco; e o que semeia com abundância, também segará com abundância.” (II Cor. IX, 6). E os exorta a não temer a inópia, que Deus os proverá: “Poderoso é Deus para fazer abundar em vós toda a graça; para que em todas as coisas tendo sempre o suficiente, tenhais abundância para toda sorte de obras boas.” (Id., 8). São dignas de nota as palavras da epístola aos Hebreus: “E não esqueçais de fazer bem e de repartir com os outros; porque com tais sacrifícios se agrada a Deus.” (XIII, 16).
Santo Tiago diz: “A religião pura e imaculada aos olhos de Deus e nosso Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e conservar-se sem ser contaminado deste século.” (I, 27). Alhures increpa os que ficam só nas palavras e não socorrem os pobres: “Porém, se um irmão ou irmã estiverem nus, e necessitarem do alimento cotidiano, e lhes disser algum de vós: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos, e não lhes derdes o que hão mister para o corpo, que lhes aproveitará?.” (II, 15 e 16).
Os primeiros cristãos eram observantes do preceito da caridade e entregavam aos Apóstolos o supérfluo, para que distribuíssem aos necessitados. Os Atos dos Apóstolos lembram com reconhecimento a Tabita, senhora piedosíssima, que empregava em boas obras tudo quanto tinha, socorrendo os indigentes; e foi ressuscitada por S. Pedro como prêmio de suas virtudes. Os pagãos pasmavam ao ver a união e a caridade que reinavam entre os cristãos e diziam uns aos outros: — Vede como se amam![1]
Vieram os santos da Igreja e todos, às rebatinhas, recomendam a esmola, mostrando a sua necessidade, beleza e utilidade. S. João Crisóstomo foi um verdadeiro apóstolo da esmola; ao terminar os seus sermões, as matronas tiravam das orelhas as arrecadas para dá-las aos pobres. S. João de Alexandria, chamado o Esmoler, tinha consigo uma lista de oito mil pobres para socorrer diariamente. Houve santos que depois de terem dado todos os seus haveres, ficaram escravos para libertar o próximo. Mais. A Igreja teve uma Ordem Religiosa que fazia profissão de livrar os escravos dos turcos e tais religiosos ficavam em lugar dos escravos quando não podiam diversamente livrar os que tiveram a infelicidade de cair nas mãos dos infiéis. Valham esses exemplos e as palavras do Divino Redentor para fazer-nos amar a caridade e a esmola!

[1]          É célebre o exemplo de S. Pacômio, o qual se converteu ao cristianismo admirando a caridade fraterna que reinava soberana entre os prosélitos de Jesus Cristo. — “Uma religião que dá tais preceitos, disse ele, por certo que é divina” — e abraçou-a.
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