domingo, 4 de outubro de 2015

O ABANDONO À DIVINA PROVIDÊNCIA - Capítulo VI

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

O ABANDONO À DIVINA PROVIDÊNCIA
pelo
P.J.P de Caussade, S.J


CAPÍTULO VI

O espírito e os outros meios humanos não são úteis senão enquanto servem de instrumento a ação divina

O espírito, com tudo o que dele de­pende, quer ocupar o primeiro lugar entre os meios divinos; mas é necessário relegá-lo para o último lugar, como um escravo perigoso. O coração simples, se o sabe utilizar, pode alcançar no seu uso grandes vantagens; mas também pode prejudicar muito, se não está do­minado. Quando a alma anela pelos meios criados, a ação divina diz ao co­ração que ela lhe basta; quando em má hora a ela quer renunciar, a ação divina diz-lhe que se trata de instrumentos que por si mesmos não se devem abraçar nem rejeitar, mas que se devem receber dela e amoldar com simplicidade à ordem de Deus, usando de tudo como se não se usasse, estando privado de tudo como se nada lhe faltasse.

A ação divina, como plenitude que é sem limites, não pode apoderar-se duma alma senão enquanto essa alma está vazia de toda a confiança na sua própria ação, porque esta confiança é uma plenitude encoberta que exclui a ação divina.


O obstáculo mais próprio para detê-la é o que a alma encontra em si mesma; porque os obstáculos exterio­res, esses sabe ela, quando lhe apraz, transformá-los em meios. Tudo lhe é igualmente próprio e tudo lhe é igual­mente inútil. Sem ela, tudo é nada, e o nada é tudo por ela. Meditação, contemplação, orações vocais, silêncio interior, atos das potências, sensíveis ou distintos ou menos percebidos, retiro ou ação, sejam em si mesmos o que se quiser; o melhor de tudo isso para a alma, é o que Deus quer no momento presente; e tudo isso a alma deve olhar com uma perfeita indiferença, como não sendo absolutamente nada.

Assim, não vendo senão a Deus em todas as coisas, deve tomá-las e deixá­-las todas ao divino arbítrio, para não viver nem se alimentar, nem esperar senão na Sua ordem, e não nas coisas que só por Ele tem força e virtude. A cada momento e a respeito de todas as coisas, deve dizer como o Apóstolo S. Paulo: “Senhor, que quereis que eu faça?” E não isto, nem aquilo, mas simplesmente:       “tudo o que Vós qui­serdes”. O espírito prefere isto, o corpo aquilo; mas eu Senhor não desejo se­não a Vossa santíssima vontade. Ação, contemplação, oração vocal ou mental, em atos ou em silêncio, em fé ou em luz, em distinção de espécies ou em graça geral: tudo isso, ó meu Deus, nada é, porque só a Vossa vontade é que a tudo isso comunica virtude. Só ela é o ponto central da minha devoção, e não as outras coisas, por mais elevadas e sublimes que sejam, porque a perfeição do coração e não a do espírito é que é o termo da graça.

A presença de Deus que santifica as nossas almas é essa habitação da Santíssima Trindade que penetra no íntimo dos nossos corações, quando eles se submetem à divina vontade: porque a presença de Deus, que se faz pelo ato de contemplação, não opera em nós essa união íntima senão como as outras coisas que são da ordem de Deus. Por­tanto, ocupa o primeiro lugar entre elas, porque é o meio excelente de união a Deus, quando a divina vontade ordena que se lance mão dela.

Na estima e no amor que temos à contemplação e aos outros exercí­cios de piedade, nada há que não seja legítimo, contanto que essa estima e esse amor se eleve totalmente ao Deus infi­nitamente bom, que Se digna de servir-Se desses meios para dar-Se às nossas almas.

Recebemos a um príncipe, recebendo o seu séquito. E seria fazer-lhe injúria não demonstrar afeto algum aos seus oficiais, sob pretexto de possuí-lo só a ele.