sexta-feira, 2 de outubro de 2015

BELA DOUTRINA DO LIVRO DE TOBIAS

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


CAPÍTULO VII 

BELA DOUTRINA DO LIVRO DE TOBIAS 

O livro de Tobias é o livro da esmola. Deus não se contentou de inculcar essa virtude em todas as obras do Antigo e Novo Testamento; quis inspirar um tratado especial, que explicasse a beleza, a eficácia e os frutos salutares da caridade para com os pobres, propondo um exemplo luminoso de pessoa esmoler no santo velho Tobias.
Nasceu Tobias na cidade de Cades de Neftali, no reino de Israel; e desde menino observou a lei de Moisés, agindo com critério superior à sua idade. Corriam, então, dias tristes para a religião; e enquanto todos adornavam os vitelos de ouro levantados pelo ímpio Jeroboão, ele soube conservar-se puro da idolatria, indo a Jerusalém para adorar a Deus no templo, oferecendo as suas primícias e os seus dízimos. Mas a virtude que nele brilhou e o distinguiu, foi a caridade para com os pobres, aos quais dava o supérfluo. Levado prisioneiro para Nínive, com os de sua tribo, por Salmanassar, rei dos Assírios, redobrou a esmola para com seus irmãos que gemiam na escravidão. Deus fez que ele caísse nas graças do monarca, o qual o elevou ao cargo honorífico de Provedor régio. Tobias serviu-se da liberdade e da influência que tinha na corte para auxiliar os seus concidadãos, visitando-os e dando-lhes auxílio material e espiritual.

Vieram, porém, os dias de prova. Morto Salmanassar, sucedeu-lhe no trono o filho Senaqueribe, o qual se mostrou cruel para com os hebreus, fazendo matar a muitos, máxime depois que perdeu seu numeroso exército, ao pé das muralhas de Jerusalém, por obra do Anjo exterminador. Tobias ia à procura de cadáveres para sepultar, de nus para vestir, de famintos para desalterar, de aflitos para consolar, multiplicando-se a si mesmo para fazer frente a tantas necessidades. Disso teve conhecimento o bárbaro imperador, que o condenou à morte e à confiscação dos seus bens. Tobias teve tempo de fugir e de se homiziar, até que o monarca foi morto por seus próprios filhos; foi quando readquiriu os bens e o primitivo cargo.
Deus, porém, o reserva a outras provas dolorosas para o purificar. O santo continuava a sepultar os seus irmãos mortos, deixando, às vezes, a refeição para fazer aquela obra de caridade.
Cansado, um dia, deitou-se à sombre de um muro, onde as andorinhas nidificavam, e ali adormeceu; durante o sono caiu-lhe nos olhos um pouco de cisco do ninho daquelas avezinhas, e ficou cego. Naquela desventura ele manifestou heroica paciência e inteira resignação à vontade de Deus semelhantes à de santo Job, às imprecações dos parentes e amigos pela sua caridade, ele opôs a esperança da vida futura. A estulta mulher chegou até a exprobar-lhe as esmolas, dizendo: “Claro está que se desfez em fumaça a tua esperança e agora se vê o fruto das tuas esmolas.” Então, Tobias, vendo que os homens o afligiam tanto, lançou-se nos braços da bondade divina; e pediu-lhe que o tirasse do mundo. Supondo que Deus se dignara escutar a sua prece, chamou o filho à sua cabeceira e deu-lhe as derradeiras lembranças, que são o compêndio da mais santa e perfeita moral. Entre outras coisas recomenda-lhe insistentemente a sua virtude predileta, a esmola.
“Faze esmola dos teus bens e não voltes o teu rosto a nenhum pobre, porque desta sorte sucederá que também não se afaste de ti a face do Senhor. Da maneira que poderes, sê caritativo. Se tiveres muito, dá muito; se tiveres pouco, procura dar de boamente também esse pouco; porque assim entesouras uma grande recompensa para o dia da necessidade; porque a esmola livra de todo o pecado e da morte; e não deixará cair a alma nas trevas. A esmola servirá duma grande confiança diante do sumo Deus, para todos os que a fazem.” (Cap. IV).
Parece que se não possa fazer maior elogio da esmola. Depois de ter-lhe dado estes e outros santos conselhos, manda-o cobrar uma quantia emprestada ao primo Gabel, na cidade de Rages. Enquanto o filho procura um companheiro de viagem, Deus, como prêmio da caridade daquela santa família, envia o Arcanjo Rafael, em forma humana, para o acompanhar. É sabido tudo o quanto aconteceu no caminho e o que fez o guia celeste. Às margens do Tibre fá-lo tomar um enorme peixe para conservar algumas partes dele, dá-lhe por esposa a prima Sara, filha de Raquel; faz que receba o dinheiro procurado e o reconduz ileso aos seus genitores, que já temiam alguma desgraça pela demora.
O fel do peixe serve para restituir a vista ao velho Tobias e a família está no auge do contentamento. Só então é que o Arcanjo Rafael dá-se a conhecer; e revela a Tobias que Deus operou todas aquelas maravilhas como prêmio de sua caridade e exalta a esmola e as obras de misericórdia.
“Boa é, disse, a oração com o jejum e a esmola; melhor que amontoar tesouros; pois que a esmola livra da morte e limpa os pecados e faz achar a misericórdia e vida eterna. Portanto, eu vos digo a verdade e não vos deixarei latente este mistério: — Quando fazias oração, com lágrimas, quando deixavas a tua refeição e de dia escondias os mortos em tua casa e de noite os sepultavas, eu te acompanhava nas tuas ações. E porque Deus muito te amava, fez-se mister que a tentação te experimentasse.” (Cap. XII).
Essas palavras do Arcanjo merecem ser atentamente meditadas, porque fecundas de importantes ensinamentos.
Ele proclama a santidade e a eficácia da oração unida ao jejum e à esmola, profligando o hebetismo dos que só pensam em ajuntar tesouros para si, fechando a porta ao pobre faminto. O jejum e a esmola são as duas asas com as quais a oração se eleva até ao céu. A caridade para com o próximo livra-nos da morte, remite a pena temporal devida aos nossos pecados, move Deus à misericórdia e faz-nos conseguir as alegrias do paraíso.
Quando Tobias sepultava os cadáveres, com risco da própria vida, e espalhava o perfume de sua caridade para com os irmãos que gemiam sob o peso do cativeiro e eram oprimidos pela tirania assíria, o Anjo do Senhor recolhia as bagas de suor derramado e numerava todos os seus atos de piedade para oferecê-los a Deus, em odor de suavidade.
Como foi grande o poder da esmola! Fez descer do céu um Anjo para acompanhar o filho na viagem e para operar todos os prodígios de que se admirarão os séculos.
Demos esmola, e seremos abençoados por Deus como o foi o santo velho Tobias, que recebeu cem por um nesta vida e a glória eterna na outra.
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