sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A PREDESTINAÇÃO DO RICO DEPENDE DA ESMOLA

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


CAPÍTULO XII 
A PREDESTINAÇÃO DO RICO 
DEPENDE DA ESMOLA

Salva-se o rico se pratica o preceito da esmola; aliás, perder-se-á irreparavelmente. A obrigação da caridade é grave e se encerra no sétimo mandamento: “Não furtar.” Já que o supérfluo pertence ao pobre, comete um furto quem não lho dá. Não é ladrão o que não quer pagar uma dívida e retém o que pertence ao alheio?
“Praecipio tibi, ut aperias manus fratri tuo egéno ac páuperi qui versátur tecum in terra. Eu, disse o Senhor no Deuteronômio, com a plenitude de minha divina autoridade, ordeno a ti, minha criatura, a quem enriqueci por mera liberalidade, que, do muito que te dei, disponhas de uma parte para o sustento dos pobres.”

Que diríeis se o sol retivesse toda a luz e não a comunicasse ao mundo, ou o mar detivesse todas as águas em seu seio, e não as levantasse ao céu por meio de vapores, porque descessem em chuva benéfica para fecundar a terra? Com certeza vós lhes diríeis: — Senhor sol, e senhor mar, tamanha quantidade de luz e de água não é exclusivamente para vós. Estas coisas o Criador vô-las deu a fim de que repartais com o mundo, para iluminá-lo, para fecundá-lo. As Escrituras falam claro: — Senhores ricos, quod superest, date eleemósynam.
Deus tem supremo domínio sobre as riquezas todas e a Sua Providência vela sobre todas as criaturas; a alguns dá mais, porém, com a obrigação expressa de auxiliar os necessitados.
E por isso, no Eclesiástico, o Espírito Santo adverte o rico a não negar esmola ao pobre, porque lhe é devida. O rico, por sua vez, reflita seriamente nisso, e se lembre de que no tribunal de Deus, ser-lhe-á pedida conta severa do uso ou do abuso de seus bens. O rico epulão foi sepultado no inferno unicamente porque pensava em gozar das riquezas, negando esmola ao pobre Lázaro, para com o qual foram mais compassivos os seus cães, que lhe lambiam as chagas.
Não satisfazem, por certo, os seus deveres os que dão apenas uma moeda ou uma fatia de pão. O preceito inclui todo o supérfluo. Mas, porque há tanta dificuldade em socorrer os pobres, enquanto se esbanja dinheiro em festas, em passatempos, em vestidos de luxo para seguir a moda? Melhor seria evitar despesas inúteis e enxugar tantas lágrimas, saciar a fome a tantos infelizes. O rico que pratica durante a vida o preceito de esmola tem um penhor seguro de predestinação. S. Jerônimo deixou escritas palavras verdadeiramente consoladoras: “Non mémini me legisse mala morte defunctum, qui libérius ópera caritátis exercuerit.[1] Não me recordo de haver lido que uma pessoa caridosa tenha morrido mal.”

* * *
Na vida do glorioso Patriarca de Assis, escrita por S. Boaventura, conta-se que o santo estendeu uma vez a mão a um militar, implorando a caridade por amor de Deus. O militar fê-la de boamente, e S. Francisco se ajoelhou logo para rezar por ele, como soia fazer com os demais benfeitores. Deus lhe revelou que aquele militar, embora sadio e robusto, em breve teria morte improvisa. O santo correu-lhe ao encalço e:
— Vós, lhe disse com grande afeto, fizestes uma caridade temporal e, em troca, quero fazer-vos uma espiritual; e vos aviso da parte de Deus que vos restam poucos dias de vida. Confessai-vos e preparai-vos para o grande passo.
O militar se preparou com muitos exercícios de piedade e pouco depois da confissão morreu, dando certeza de salvação.
Imaginemos agora, que aquele militar, invés de fazer caridade, tivesse dito um desdenhoso “ide trabalhar”, ou então “não tenho”; Francisco não teria rezado por ele, não teria recebido o aviso de sua morte próxima; e um homem do mundo, morrendo improvisamente, sem confissão, salva-se? 
* * *
Mais instrutivo ainda é o fato seguinte narrado por Santa Teresa no capítulo quinze do livro das Fundações. Um senhor de Valladolid deu à santa a sua casa com amplo jardim, para que fizesse um mosteiro das religiosas de sua Ordem. Dois meses após aquela generosa oferta, o benfeitor morreu improvisamente, sem poder receber os Sacramentos. Diante de tal desventura, Santa Teresa doeu-se profundamente, tanto mais que na cidade murmurava-se que a vida desse senhor não tinha sido irrepreensível.
Pôs-se então a rezar fervorosamente pela alma de seu benfeitor; e teve revelação de Deus que ele se salvara, e sua alma ficaria no purgatório até que fosse celebrada a primeira Missa em sua casa. Como prêmio de sua caridade para com a santa, Deus lhe concedera a contrição perfeita no momento em que a apoplexia o golpeou. Se não desse de presente a sua casa, talvez não se salvasse; pela caridade, mereceu a contrição e com esta uma santa morte. Ele terá dito certamente: — Ó feliz esmola, pela qual mereci uma glória eterna! E do céu terá contemplado com satisfação a sua casa transformada em convento, causa de sua felicidade eterna. 
* * *
Concluamos, pois, com o dilema: “Ou esmola ou condenação.” Para o rico não há meio termo.
Ele se salva, se for fiel à prática do preceito da caridade; e terá o mesmo fim do epulão se, como este, fechar a porta ao pobre. O rico é obrigado a socorrer o pobre; mas o pobre não tem direito de se apropriar dos bens do rico, quando este lhe nega esmola. Ambos comparecerão ao tribunal de Deus; então, o pobre acusará o rico de furto e de crueldade e pedirá vingança.
Tenho para mim que os ricos, entre a esmola e a condenação, escolherão a esmola e serão pródigos para com os necessitados, os quais se tornarão seus advogados no dia terrível do juízo.[2]



[1] Epistola ad Nepotiam.
[2] Causam temor salutar aquelas palavras do salmista: Dormiérunt somnum suum et nihil invenérun omnes viri divitiárum suárum in mánibus suis. (Salmo 75).