sábado, 17 de outubro de 2015

A ESMOLA DEVE SER FEITA DURANTE A VIDA

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


CAPÍTULO XIV 

A ESMOLA DEVE SER FEITA DURANTE A VIDA 

O preceito da esmola há de ser praticado durante a vida. Alguns há que raciocinam deste modo: — “Agora penso em desfrutar o meu capital e não quero diminuí-lo com doações e esmolas; quando estiver à morte, deixarei um legado para os pobres, mandarei rezar muitas Missas…” Não! Esses tais se enganam crassamente. Jesus Cristo ordena que se dê esmola do supérfluo dia a dia, toda a vida, porque se os pobres têm fome, não podem esperar até a vossa morte. Além disso, o bem que fazemos durante a vida vale muito mais do que na hora da morte, quando somos obrigados a deixar tudo.
Costumava dizer S. Leonardo de Porto Maurício: “Ilumina mais um lume diante, que não dois atrás.” E queria dizer com isso, que vale mais o pouco em vida, do que o muito na morte e depois da morte.

Ademais, tendes certeza de que a vossa vontade será executada? Quantas vezes não se faz desaparecer o testamento, ou é contestado no tribunal ou interpretado em outro sentido!
Quase todas as obras pias se lamentam de alguma injustiça na execução de testamentos em seu favor. O bem que se pode fazer hoje não se deve deixar para amanhã, pois a vida é incerta e pode chegar improvisamente a morte. Fazendo bom uso do nosso dinheiro, impedimos o mal, salvamos mais almas, somos úteis à religião e à sociedade civil, afastamos as desgraças corporais e espirituais, temporais e eternas da cabeça de muitas pessoas, às quais, se tardia, a nossa caridade seria inútil.
Apraz-me repetir ainda uma vez, que não se trata de conveniência ou de conselho, mas de grave obrigação. O preceito da esmola é cotidiano, e obriga a dar o supérfluo aos pobres, vez por vez; se são indigentes, têm necessidade de alimento todos os dias. Horroriza ouvir contar que todos os anos, principalmente no coração do inverno, morrem de fome e de frio tantos infelizes! A sua morte horrível pede vingança contra aqueles ricos que talvez os tenham despedido de sua porta sem um auxílio, e quem sabe se com desdém os tenham mandado trabalhar se quisessem comer.
Muito embora se tratasse de vadios, nós recebemos do mesmo modo a recompensa prometida por Jesus Cristo, se dermos esmola. Se, às vezes, falsos pobres nos enganassem, nem por isso nós deixaremos de receber o prêmio temporal e espiritual prometido aos misericordiosos.
Determinemos, pois, dar esmola em vida enquanto temos tempo, forças e meios e não deixemos para o fazer na hora da morte.[1] É agora que os pobres pedem o nosso auxílio, é agora que os orfanatos esperam o nosso contributo para educar as crianças abandonadas; é agora que os hospitais esperam víveres, remédios para aumentar o bem que já fazem a tantos doentes; é agora que as missões católicas têm necessidade de meios para propagar a religião e a civilização entre os infiéis.
Santo Job se alegrava com o pensamento de que sobre sua cabeça descesse a bênção do pobre que ele socorria. Os ricos que dão esmola experimentarão a mesma alegria e os mesmos favores.
S. Vicente de Paulo, o apóstolo da caridade, dizia: “Quem ama os pobres durante a vida, nada tem a temer na hora da morte; observei sempre isto; daí o insinuar esta máxima às pessoas a quem vejo angustiadas pelo pensamento da morte.”

[1]          Dum tempus habémus operémur bonum, é a palavra santamente excitadora de S. Paulo.