terça-feira, 29 de setembro de 2015

Privilégios da natureza angélica

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2 — Privilégios da natureza angélica 

Percorramos a escala dos seres criados por Deus: os minerais, que apenas existem, mas que não vivem; os vegetais, que vivem, mas que não gozam da vida sensitiva (que lhes seria facultada por sentidos como os dos animais); os animais que veem, cheiram, ouvem, etc., mas que não têm conhecimentos intelectivos; o homem, que goza de vida intelectiva, mas que a goza dependentemente do cérebro, que é matéria; e enfim os anjos, que gozam da vida intelectiva independentemente da matéria.
Estes são, portanto, os seres mais perfeitos jamais saídos das mãos de Deus, assim como os minerais, que abrem essa escala de seres, são os mais imperfeitos, ou por outra, os que gozam de menos perfeições.

Em todos há uma tal ou qual semelhança com o seu Artífice: o simples ser, a simples vida, a vida cognoscitiva, a vida intelectiva, são semelhanças do ser, da vida e do modo de conhecimentos divinos. Mas somente do homem está escrito: foi criado à imagem e semelhança de Deus. É verdade que o homem dentre os seres deste mundo é o que mais se aproxima de Deus pelo seu maravilhoso ser, à uma material e espiritual, mas o anjo ainda atinge maior perfeição, e ainda mais, por conseguinte, se assemelha a seu Criador, — isto devido à sua mesma essência, que é de todo simples e espiritual. E em razão desta simplicidade de essência, Deus, melhor que no homem, reflete no Anjo a sua natureza perfeitíssimamente simples e espiritual. E, consequentemente, mais se pode achegar em perfeição à inteligência de Deus, a inteligência do Anjo, e ao poder de Deus o maravilhoso poder do Anjo.
Quanto à inteligência, é sabido que a dos maiores gênios da humanidade não podem nem sequer comparar-se à sua; e quanto ao poder, um Anjo somente é mais poderoso que um exército de homens.
A propósito, enérgica é a expressão de S. Gregório Magno, aludindo a uma passagem do profeta Ezequiel. Se o homem, diz ele, é feito à semelhança de Deus, o anjo é selo (e como que sinete) de semelhança; na verdade, quanto mais imaterial é uma natureza qualquer, tanto mais vivamente traz em si estampada (aí está a ideia de selo) a imagem do Artífice supremo:… “signaculum similitudinis dicitur.”[1]
São, portanto, os Anjos, seres maravilhosos, naturezas superiores, de indizível perfeição, sumamente privilegiados de Deus Nosso Senhor.
Mas isto não é ainda toda a verdade.
O anjo, como o homem, foi elevado à ordem sobrenatural. E que quer dizer isto? Quer dizer que lhe infundiu no ser Deus Nosso Senhor a graça santificante, dom seu inefável. É, efetivamente, a graça santificante um tão grande dom de Deus às suas criaturas intelectuais, que as eleva acima de todo ser criado e acima de toda perfeição natural. A criatura que tal graça recebe torna-se, de modo inefável, participante e consorte da mesma natureza divina, como diz o apóstolo S. Pedro (2, I, 4). Nela, de então em diante — enquanto permanecer em estado de graça — habita Deus N. Senhor, presente a ela de modo particular. Quem poderá então medir a estreita união e íntima amizade de tal criatura com seu Criador?…
Desde então, como consequência, fica a criatura toda outra, enriquecida pelas virtudes sobrenaturais e com direito à contemplação da mesma essência divina, a conhecer a Deus tal como Ele é em si mesmo, como diz o apóstolo e evangelista S. João: “videbimus Deum sicuti est.”
Ora, quidquid recipitur, ad modum recipientis recipitur: aquilo que se recebe, é recebido conforme as disposições do que recebe. Sendo assim nenhum ser seria mais apto à recepção da graça santificante do que o anjo, pela excelência e dotes naturais de sua natureza espiritual. E, por conseguinte, nenhum ser, como o anjo, se alçou sobre si mesmo e como que se transfigurou sob a maravilhosa influência da graça santificante.
São os anjos, verdadeiramente, na manhã da criação, os seus primeiros astros, conferindo-lhes Deus a graça ao mesmo tempo que lhes infundia o ser: “Simul eis, como diz S. Agostinho, et condens naturam, et largiens gratiam.” (De Civit. Dei, l. XII. c. IX).

[1]     In Evang. l. II, hom. XXXIV, n. 7.