sábado, 26 de setembro de 2015

Os Ofícios dos Anjos

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2 Os Ofícios dos Anjos 

É com cuidado que um rei ou chefe de governo considera os seus súditos, para elevá-los, conforme a capacidade de cada um, aos cargos da administração oficial. Corresponde, então, perfeitamente, à excelsitude da dignidade e à jurisdição do seu cargo, a excelência dos dotes que neles descobre. É assim que a uns conserva junto de si, a outros envia como embaixadores; a uns encarrega o governo das províncias a outros a direção de cidades; a uns confia as pequenas comarcas, a outros as comunidades e pessoas particulares. Desta prudente e sábia distribuição de cargos, correspondentes às aptidões de cada um, é que resulta o bom governo do estado e a satisfação do povo.
Ora bem, isto é o que faz Deus Nosso Senhor, com sabedoria infinitamente superior, com relação aos Seus anjos criaturas Suas excelentíssimas e santíssimas. Neles a multidão nada tem de desordem ou confusão; nem poderia haver lugar para a desordem nas obras de Deus.
Segundo a doutrina dos santos Padres fundada nas sagradas Escrituras, constituem os anjos uma milícia ou exército comandado por nobilíssimos generais:[1] estão divididos em três hierarquias e cada qual consta por sua vez de três ordens ou coros.
A primeira hierarquia se compõe dos Serafins, dos Querubins, dos Tronos; a segunda das Dominações, das Virtudes e das Potestades; a terceira dos Principados, dos Arcanjos e dos Anjos.[2] Cada hierarquia, por sua vez, é ornada de dotes peculiares conforme a posição que lhe dá Deus na distribuição dos cargos do Seu reino celestial.

Interessa-nos, no momento, somente a terceira hierarquia, pois a ela é que está confiada, conforme a doutrina do angélico S. Tomás, a proteção e a guarda dos homens em particular e da humana sociedade.[3] Eis como vem isto discriminado pelo santo doutor: a guarda de cada homem em particular é confiada ao último dentre os coros angélicos ao coro dos Anjos; a guarda mais universal da comunidade humana ao primeiro coro o dos Principados, ou talvez dos Arcanjos. (In I p. q. CXIII. a 3).
Não é que Deus assim haja feito por não ser capaz de por Si só reger as Suas criaturas… Tal acontece com os soberanos e os chefes das nações mas de nenhum modo com o ser onipotente, onisciente e infinito em todos os seus atributos. Assim, entretanto, Ele procede, porque os diversos graus de seres por Ele criados trazem sempre este cunho de harmoniosa correspondência entre si. Tem em vista fins altíssimos que a nossa mente não atinge. Mas ao par destes fins altíssimos pretende Ele também, sem dúvida, tornar mais suave o Seu governo e mais consentâneo à natureza humana. Céu e terra assim e é este um outro grande e belo motivo — formam um só reino de perfeitíssima caridade, em que criaturas superiores e já bem-aventuradas, como os anjos, prestam direção e ajuda a criaturas inferiores e ainda peregrinas neste mundo, prestando-lhes estas em troca a homenagem de um grato amor e de uma dócil submissão.[4]
Ah! verdadeiramente tudo fizeste com sabedoria (Salm. CIII. 24); omnia in sapientia fecisti.



[1]     Ver S. Tomás, I, p. q. CVIII; Suárez op. cit. l. I, cap. XIII e XIV. Alguns nomes, desses angélicos generais, nos são conhecidos, Miguel, nome que significa “quem como Deus?”, Gabriel = Fortaleza de Deus Rafael = Medicina de Deus.
[2]     Sciendum, assim fala S. Gregório Magno, quod Angelorum vocabulum nomen est officii, non naturae. O vocábulo Anjo exprime não já a natureza, mas o ofício, o ministério. Por isso pode ser empregado de um modo geral em relação a todos os coros, e em particular, ao ínfimo.
[3]     É de notar aqui com Suárez com quanta sabedoria Deus reserva a incumbência da guarda dos homens ao coro dos Anjos. Este coro, pelo fato de ser o ínfimo, é o que mais se aproxima do homem, e tem por isto imediata relação com ele. É, por conseguinte, segundo a disposição da divina Providência o mais adequado à guarda de cada homem em particular. Op. cit. l. VI, c. XVIII, n. 6.
[4]     “Somos com os Anjos, diz S. Agostinho, uma só cidade de Deus… de que uma parte, que somos nós, peregrina por este mundo, e a outra parte, que são precisamente os Anjos, está pronta a socorrer-nos.” De civit. Dei, l. X, c. 7.