quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O PRECEITO DA ESMOLA NO ANTIGO TESTAMENTO

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


CAPÍTULO VI 

O PRECEITO DA ESMOLA
NO ANTIGO TESTAMENTO
 

A oração, o jejum e a esmola foram sempre consideradas as obras mais agradáveis a Deus e mais próprias para merecer a sua graça. Por isso é que a Sagrada Escritura as recomenda continuamente e no Antigo e no Novo Testamento.
Deixando agora a oração e o jejum, para falar da esmola, diremos que na lei Moisaica os pobres eram tratados com grande caridade e socorrê-los era uma obrigação dos Israelitas. Para ver como Deus ama a classe pobre, leiamos este versículo do Êxodo: “Se emprestares algum dinheiro ao necessitado do meu pobre povo, que mora contigo, não o apertarás como um exator, nem o oprimirás com usuras.” (XXII, 24). Ameaça terrível dirige a quem vilipendia a viúva e o órfão: “Não farás mal algum à viúva nem ao órfão. Se vós os ofenderdes, eles recorrerão a mim e eu ouvirei os seus clamores; e o furor se acenderá e vos ferirei com a espada e vossas esposas ficarão viúvas e vossos filhos órfãos.” (Êxodo XXII, 22).

De sete em sete anos ocorria o ano em que se não semeava e o que os campos produziam espontaneamente era dos pobres. “Por seis anos semearás a tua terra e colherás os frutos. Mas no sétimo ano não a cultivarás; deixá-la-ás descansar para que os pobres do teu povo achem que comer e o que restar seja para as alimárias do campo; isto mesmo farás com a tua vinha e com o teu olivedo.” (Êxodo, XXIII, 11).
No mesmo ano sabático eram postos em liberdade os escravos presos por causa de dívidas. Os pobres podiam andar pelos campos e vinhedos a respigar as sobras da ceifa e da vindima, e era severamente proibido aos proprietários trilhá-los de qualquer modo: “Quando cortares a messe de teus campos, não segarás até a terra toda a superfície de teus campos, nem colherás as espigas que ficarem. Nem na tua vinha colherás o rabisco nem os bagos que caem; mas deixarás que apanhem os pobres e forasteiros.” (Levítico XIX, 10). Assim teve origem o pio costume de se deixar para os pobres a sexagésima parte da messa, da uva, de todos os produtos de lavoura. E se o amo esquecia no campo inteiros manípulos, estes ficavam para os pobres: “Quando segares a messe no teu campo e deixares por esquecimento algum manípulo, não voltes para o levar; mas deixá-lo-ás tomar ao estrangeiro, e ao órfão, e à viúva, para que o Senhor teu Deus te abençoe em todas as obras das tuas mãos” (Deuteronômio, XXIV, 19). Era rigorosamente proibida a usura e havia sérias prescrições a fim de que os credores não pusessem no olho da rua os que estavam impossibilitados de pagar.
E para mostrar aos homens como lhe fosse querida a misericórdia, Deus prescrevera leis de humanidade para com os animais. Era vedado açamar o boi quando debulhava o trigo na eira, para que pudesse comer e participar dos frutos de seu trabalho.
O caminheiro podia entrar nos campos e nos vinhedos e comer frutos até fartar-se, quando sentia necessidade de se restaurar. Lemos, com efeito, no Evangelho que, caminhando pela Palestina os Apóstolos com o Divino Redentor e sentindo os estímulos da fome, entraram em um campo para colher as espigas com que se alimentar. Os fariseus os reprovaram, não por terem tomado bens alheios, pois era lícito em caso de necessidade, mas porque era sábado; como se em tal dia não fosse lícito comer e se devesse morrer de fome.
Santo Job, do leito de suas dores, para defender a própria inocência contra seus caluniadores, protestou ter sempre repartido o pão com o pobre, ter hospedado o peregrino, ter sido luz ao cego, arrimo ao coxo, ter defendido o órfão e a viúva contra os seus opressores. Ele praticou todas as obras de misericórdia e era saudado o pai dos pobres. Desde a infância teve um coração aberto à compaixão.
Apraz-me citar por inteiro as suas belas palavras: “Quem me via, falava bem de mim, porque eu livrara o pobre que gemia e o órfão sem defesa. Bendizia-me todo aquele que perigava, e ao coração da viúva eu levava conforto. Revesti-me de justiça, e adornei-me da minha equidade, como de manto e diadema. Fui luz ao cego e arrimo ao coxo. Era o pai dos pobres; e das coisas que desconhecia fazia diligentíssima inquisição. Arrancava a máscara aos maus, e arrebatava-lhes dos dentes a presa. (XXIX). Chorava as aflições dos outros e minha alma era compassiva com o pobre.” (XXX, 25). E mais adiante acrescenta: “Se neguei aos pobres o que me pediam e se iludi a esperança da viúva; se sozinho comi o pão e não fiz participante ao órfão “por isso que desde a infância cresceu comigo a misericórdia e comigo nasceu”; se fiz pouco caso do que perecia, porque não tinha com que se cobrir, e o pobre que estava nu, se me não bendisse ele, e se não foi aquecido com lã de minhas ovelhas; se levantei a mão contra o órfão, mesmo quando me via superior no tribunal, despregue-se o meu ombro com sua junta e se despedace o meu braço com os seus ossos. Pois que temi sempre a Deus, e a sua majestade podia eu suster. Se o meu poder consistisse no ouro e ao ouro eu disse — “Confio em ti”; se a minha consolação repousa nas minhas muitas riquezas e nas aquisições feitas com minhas mãos…, se a minha terra grita contra mim e se com ela choram os sulcos, se sem pagar-lhe o tributo, comi de seus frutos e afligi a alma dos que a cultivam: nasçam para mim abrolhos em vez de trigo e espinhos em lugar de cevada.” (XXXI). Felizes os ricos que podem dizer o mesmo e imitam a Job na prodigalidade para com os pobres!
Era de costume entre os hebreus, nos dias de solenidade e de alegria, fazer os pobres participar de sua mesa, a fim de que a alegria fosse geral, como se refere que aconteceu na festa estabelecida por Mardoqueu em memória da libertação do excídio decretado por Aman, e nas solenidades celebradas por Esdras. E o vate italiano, Alexandre Manzoni, recordando esse piedoso costume, convida os cristãos a fazerem o mesmo no dia de Páscoa.[1]
Nos salmos, David recomenda a esmola alegando a sua utilidade e as vantagens que traz ao homem.
Já citamos as palavras do salmo 40: Beatus qui intéllegit super egénum et páuperem. No salmo 111 descreve a beatitude do homem que teme o Senhor e que é misericordioso: “Feliz o homem que é compassivo e dá a empréstimo. A mancheias dá aos pobres; a sua justiça é perene, a sua galharda virtude será exaltada na glória.”
No salmo 81 exorta os juízes a fazerem justiça ao pobre, dizendo: “Até quando fareis juízos injustos e tereis respeitos humanos? Fazei justiça ao pobre e ao órfão; dai razão ao pequeno e ao pobre. Defendei o pobre e arrebatai o mendigo das mãos do pecador.”
Todo livro da Sagrada Escritura inculca o dever da esmola, repetindo-o sob mil conceitos, para gravá-lo na mente. Ouçamos os Provérbios: “Não te desamparem a misericórdia e a verdade; põe-nas à roda de teu pescoço, e grava-as nas tábuas do teu coração” (III, 3). “Honra o Senhor com as tuas faculdades e dá-lhe as primícias de todos os teus frutos. E os teus celeiros se encherão de quanto podes desejar e em tuas adegas haverá vinho em barda.” (III, 9 e 10).
Deus recompensa sempre tão fielmente a esmola feita ao culto divino e aos pobres, que entre os hebreus corria este provérbio: o dízimo enriquece e é manancial de bênção.
“Não impeças a quem pode fazer o bem, e se poderes, também tu pratica-o. Não digas a teu amigo: — Vai e volta; amanhã dar-te-ei; — quando podes dar logo.” (III, 28). “A clemência é o caminho da vida.” (XI, 19). “A alma que faz bem será farta, e o que embriaga, também ele mesmo será embriagado.” (XI, 25).
“Peca quem despreza o seu próximo e quem se compadece do pobre será feliz. Quem crê no Senhor ama a misericórdia. Estão no erro os que fazem o mal; a misericórdia e a verdade preparam os bens.” (XIV, 21 e seg.). “Quem oprime o mendigo injuria ao seu Criador; agrada-lhe, porém, o que se compadece do pobre.” (XIV, 31). “Quem fecha os ouvidos aos gritos dos pobres, gritará também ele sem ser ouvido.” (XXI, 13). “Quem exercita a misericórdia, achará vida, justiça e glória.” (XXI, 21). “Quem é inclinado à compaixão, será abençoado; porque do seu pão se servirá o pobre. Quem usa de liberdade, alcançará vitória e honra; e ele cativa o coração dos que os recebem.” (XXII, 9). “Quem dá ao pobre jamais estará em necessidade; mas quem despreza aquele que pede, sofrerá privações.” (XXVII, 27). No descrever a mulher forte, o Sábio dá-lhe o atributo da misericórdia para com o próximo: “Abre as mãos aos míseros e estende as palmas aos pobrezinhos.” (XXI, 20).
O Eclesiastes convida a distribuir o pão aos necessitados, figurados na água que passa, prometendo que receberá o prêmio na outra vida. “Lança o teu pão sobre as águas que passam, porque depois de muito tempo, o acharás.” (XI, 1).
O Eclesiástico se compraz em inculcar a caridade para com os pobres: “Filho, não defraudes a esmola do pobre, e não apartes dele os teus olhos. Não desprezes a alma esfaimada, e não exacerbes o pobre na sua necessidade. Não aflijas o coração do pobre e não defiras o auxílio a quem está angustiado. Não rejeites a petição do atribulado e não voltes a face ao pobre. Não apartes os teus olhos do necessitado, irritando-o; não dês ocasião aos que te pedem de te amaldiçoar por detrás, porque será atendida a imprecação do que amaldiçoa na amargura de sua alma e atendê-lo-á aquele que o criou.” (Cap. IV). “Oferecerás ao Senhor as espáduas das tuas vítimas e o sacrifício de santificação e as primícias das coisas santas; e estende ao pobre a tua mão, a fim de que seja perfeita a tua propiciação e a tua bênção.” (VII, 35). “Faze o bem ao teu amigo, antes de tua morte e estende a mão liberal ao pobre, segundo as tuas posses.” (XIV, 13). “Emprega o teu tesouro em cumprir os preceitos do Altíssimo e isto te aproveitará mais que o ouro. Deita a esmola no seio do pobre e ele rogará por ti contra toda espécie de males. Ela combaterá o teu inimigo muito melhor que a lança e o escudo dum campeão.” (XXIV, 14).
Os Profetas levantam-se para estigmatizar as usuras e a opressão dos pobres, inculcando com palavras enérgicas a esmola. Isaías exclama: “Reparte com o faminto o teu pão; e os pobres e os peregrinos leva-os para tua casa; se vires um nu, veste-o e não desdenhes a tua própria carne. Então, como após a aurora, despontará a tua luz e logo virá a tua salvação; a tua justiça te acolherá. Então tu invocarás o Senhor e Ele te ouvirá; levantarás a tua voz e Ele te dirá: Eis-me. Quando abrires as tuas entranhas ao faminto e consolares a alma aflita, nascer-te-á nas trevas a luz e as tuas trevas se mudarão em meio-dia. O Senhor dar-te-á sempre repouso e a tua alma encherá de esplendores e confortará os teus ossos e tu serás como um jardim regado e como uma fonte à qual não vem a faltar água.” (Cap. LVIII).
A Isaías fazem eco Jeremias e Ezequiel. Daniel, depois de ter feito ciente a Nabucodonosor do próximo castigo do céu, o exorta a resgatar com esmolas os seus pecados e iniquidades, dando-lhe esperança de perdão.
Miqueias diz da parte do Senhor: “Eu te ensinarei, ó homem, o que é bom e o que o Senhor deseja de ti, isto é, que sejas criterioso, ames a misericórdia e andes com solicitude diante de Deus.” (VI, 8).
Zacarias escreve: “Estas coisas diz o Senhor Deus dos exércitos: Julgai segundo a verdade e fazei frequentes obras de misericórdia aos vossos próximos. E guardai-vos de oprimir a viúva, o órfão, o forasteiro e o pobre, e ninguém trame no seu coração contra o próximo.” (VII, 9 e 10).
Como é que os judeus esqueceram tantos ensinos? Hoje, o nome de judeu, é sinônimo de usurário, fona, opressor dos pobres; e todavia eles leem, mesmo presentemente, com grande atenção e constância, a Sagrada Escritura e os trechos em que Deus recomenda a esmola. Nós, porém, sequazes de Jesus Cristo, sejamos coerentes conosco mesmos e pratiquemos os ensinos salutares dos Livros Santos, fazendo os pobres participantes do bem que Deus nos tem dado.

[1] Sia frugal del ricco il pasto:
ogni mensa abbia i suoi doni:
e il tesor negato al fasto
di superbe imbandigioni
scorra amico all'umil tetto,
faccia il desco poveretto
più ridente oggi apparir.