segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O OURO É TERRA BRILHANTE

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


CAPÍTULO IV 

O OURO É TERRA BRILHANTE 

Afinal de contas, que é esse ouro ao qual tanto nos afeiçoamos, ao ponto de nos esquecermos das necessidades da alma? É um pouco de terra brilhante, lodo reluzente, um metal que Deus escondeu no seio das rochas e nas entranhas dos montes, e que os rios levam ao mar com a areia e os cascalhos. O ouro não serve para alimento, nem remédio; e para nós são mais úteis e preciosos o trigo da campina, a lenha do bosque, o carvão mineral.
Referem as fábulas que um rei da antiguidade andava tão apaixonado pelo ouro que pediu com insistência aos deuses lhe concedessem o favor de transformar em ouro tudo o que tocasse. Por desgraça foi ouvido. Ébrio de alegria deu ordens para que se sacrificasse em agradecimento aos deuses. A sua alegria, porém, foi breve e converteu-se para logo em amargo desengano e em profundo desespero. Ele transformara em ouro brilhante o paço e os móveis; tudo em roda dele luzia daquele metal que tanto amava. Chegou a hora da refeição e pôs-se à mesa. Apenas tocava uma iguaria ou bebida, elas se transformavam em ouro, pelo que não pôde mais comer, nem beber. Só então caiu em si o infeliz rei e maldisse seu amor desordenado ao vil metal; mas, era tarde. Morreu dias após, consumido pela fome e pela sede.

Conta-se também de um avaro que ajuntara muito dinheiro, e de medo dos ladrões tinha-o escondido no fundo dum subterrâneo fechado por uma grande porta de ferro. Todo dia, ele descia sozinho para ver e contar seu tesouro, levando sempre novo dinheiro, que sabia ganhar, trabalhando assiduamente e comendo mal. Entrando no subterrâneo tinha sempre o cuidado de tirar a chave da fechadura e levá-la consigo, porque a porta, uma vez fechada, não se abria senão com a chave. Um dia, porém, que tinha ganho mais que de costume, ébrio de alegria, abriu a porta e a fechou para sempre. Contou o seu tesouro, como soía fazer, ajuntou os novos ganhos e, ao ver tanto dinheiro, exultou de alegria, julgando-se o mais feliz dos mortais. Mas, ai! Dirigindo-se para a porta, percebe que a chave foi esquecida fora e que a saída está irrevogavelmente fechada. Que fazer? Pedir socorro? O subterrâneo é fundo e isolado e nenhuma voz pode ser ouvida. Arrombar a porta? É de ferro, e dez homens o não fariam. O infeliz avarento cavara a sua sepultura e nela se fechara para sempre. Teria com certeza dado todo aquele ouro por uma fatia de pão ou para ser posto em liberdade; mas só ele conhecia o esconderijo de sua riqueza.
Depois de alguns dias os vizinhos, tendo ido à procura dele, revistaram toda a casa, desceram ao subterrâneo e o encontraram cadáver com sinais de desespero no rosto e com as mãos apertando moedas de ouro…
Portanto, o ouro considerado em si mesmo não tem nenhuma utilidade e deixar-vos-ia perecer de fome. Se o considerarmos como metal, não é certamente o mais útil, pois o homem encontra mais vantagens no ferro, no cobre, no zinco. A única propriedade que tanto o recomenda é a grande maleabilidade, pela qual pode ser reduzido a folhas sutilíssimas. Por que, pois, é o ouro tão estimado e procurado? Unicamente porque os homens convieram que se representassem os valores pela sua raridade. Suponhamos que um dia fossem descobertas em quantidade desmesurada camadas de ouro nas entranhas da terra; o ouro perderia a cotação e os homens iriam procurar outro objeto mais raro para significar e representar os valores das coisas.
Quando os espanhóis se atiraram sobre o Novo Mundo, viram com espanto que os selvagens não apreciavam o ouro, a prata, as pedras preciosas, porque os havia em abastança. Quando, porém, os americanos viram que os europeus iam com avidez à cata de ouro e expunham-se a perigos e fadigas a fim de o conseguir, também eles começaram a julgá-lo coisa preciosa. Antes da descoberta do novo continente o ouro tinha mais valor, porque mais escasso; ao depois, tornou-se menos precioso pelas muitas minas descobertas.
Eis, pois, o motivo porque tanto amamos o ouro: representa os valores e com ele podemos procurar comodidades da vida e os prazeres terrenos; mas é sempre terra, lodo.
Como são estultos os avaros que amam o dinheiro e ajuntam ouro unicamente pelo prazer de vê-lo em suas mãos, fazendo grandes penitências e mortificações para economizar.
Não são menos estultos aqueles homens que amam desordenadamente o ouro, para viver vida cômoda. Mas, a vida do homem é tão breve, e o que não vale para a vida futura é vaidade e estultícia. Prudentes são os que com o ouro e as riquezas terrenas compram, por meio da esmola, os bens eternos do céu. O ouro é terra brilhante, vil metal; mas Deus em sua bondade permite-nos trocá-lo com as riquezas imperecíveis do paraíso. Pensemos seriamente nisto; invés de amar um pouco de terra vistosa, sirvamo-nos dela para merecer graças e favores que nos levam à santidade. Os pobres devem ser os vossos maiores amigos, porquanto serão os vossos defensores no dia do juízo e perorarão a vossa causa, apresentando à justiça divina o bem que lhes temos feito. Mas, ai de nós se lhes fechamos a porta e lhes negamos auxílio! Teremos a mesma sorte do rico epulão e pagaremos no inferno a truculência usada para com os nossos irmãos.
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