domingo, 27 de setembro de 2015

O ABANDONO À DIVINA PROVIDÊNCIA - Capítulo I

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

O ABANDONO À DIVINA PROVIDÊNCIA
pelo
P.J.P de Caussade, S.J


LIVRO PRIMEIRO
NATUREZA E EXCELÊNCIA DA VIRTUDE DO ABANDONO

CAPÍTULO I
Toda a santidade dos justos da antiga lei, bem como a de S. José e a da própria Virgem Santíssima, consistiu na fidelidade à vontade de Deus.

Deus fala, ainda hoje, como falava a nossos pais, quando não havia diretores nem métodos. A fidelidade à von­tade de Deus era toda a espiritualidade; mas esta não se encontrava posta em arte que a explicasse de maneira tão su­blime e tão pormenorizada, com tantos preceitos, tantas instruções e tantas má­ximas. As necessidades presentes exigem-no, sem dúvida; mas não era assim noutros tempos, em que havia mais retidão e simplicidade. Sabia-se que em cada momento temos um dever a cumprir com fidelidade, e isto bastava aos ho­mens de então. Nele se ia concentrando sucessivamente a sua atenção, como o ponteiro do relógio que vai marcando as horas, e em cada minuto aponta o espaço que deve percorrer. O seu espírito mo­vido sem cessar pelo impulso divino, encontrava-se insensivelmente voltado para o novo objeto que se lhes oferecia, segundo a disposição divina, em cada hora do dia.


Tais eram os segredos do proceder de Maria, a mais simples das criaturas e a mais entregue a Deus. A resposta que deu ao Anjo, quando se limitou a dizer-lhe: Faça-se em mim segundo a tua palavra, continha toda a teologia mística dos Seus antepassados. Tudo aí se reduzia, como no presente, ao mais puro e ao mais singelo abandono da alma à vontade de Deus, qualquer que fosse a forma por que esta se apresen­tasse.

Tão digna e tão nobre disposição, que constituía todo o fundo da alma de Ma­ria, brilha admiravelmente nessa pala­vra tão simples: Fiat mihi. Notemos que ela está perfeitamente de acordo com a que Nosso Senhor deseja que nós te­nhamos, sem cessar, nos lábios e no co­ração: Fiat voluntas tua. É certo que aquilo que se exigia a Maria nesse momento de tamanha transcendência era gloriosíssimo para Ela. Mas não se deixaria deslumbrar por todo o brilho dessa glória, se a vontade de Deus, o único objeto capaz de a impressionar, não tivesse detido o seu olhar.

Essa divina vontade é que a regia em tudo. Quer as Suas ocupações fossem comuns ou elevadas, a Seus olhos eram somente sombras, escuras umas vezes outras vezes resplandecentes, nas quais encontrava matéria para glorificar a Deus e reconhecer as obras do Todo Poderoso. O Seu espírito, transportado de alegria, considerava tudo o que tinha de fazer ou de sofrer em cada momento, como um dom d'Aquele que sacia de bens os corações que só d'Ele se alimen­tam e não das espécies ou aparências criadas.