domingo, 27 de setembro de 2015

JUROS VANTAJOSOS NESTA VIDA E A GLÓRIA ETERNA NA OUTRA

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


CAPÍTULO III 
JUROS VANTAJOSOS NESTA VIDA 
E A GLÓRIA ETERNA NA OUTRA

O banco de que falamos, não abriu falência, nem abrirá jamais; não só, mas também é o mais vantajoso, pois multiplica os capitais em pouco tempo. Os bancos terrenos dão ordinariamente cinco ou seis por cento de juros; mas o divino banco da esmola oferece nada menos que o cêntuplo nesta vida, como penhor, e depois, na outra, as riquezas do céu, tesouros que não podem ser roubados pelos ladrões, nem estragados pelas traças; pérolas e diamantes que formarão a nossa coroa para sempre. Não é exagero para engrandecer a beleza e utilidade da esmola, mas a pura realidade, promessa formal de Jesus Cristo; de fato, lemos no Evangelho (S. Marcos X, 30): “Quem abandonar as suas coisas por amor de mim, diz Ele, receberá centiés tantum, nunc in témpore hoc, et in saéculo futuro, vitam aeternam.” Receberá o cêntuplo das bênçãos que Deus enviará à sua pessoa, a seus bens, a seus negócios; o cêntuplo na paz do coração; o cêntuplo na concórdia da família; o cêntuplo nas graças espirituais na vida e na morte. E não é só: os juros do divino banco da esmola vão além do túmulo e obtém-nos lá no céu uma glória eterna, uma coroa imarcescível, um trono firme. Este banco, fundado por Deus no tempo, é destinado principalmente a enriquecer-nos de riquezas imortais, que são as verdadeiras riquezas, as únicas que merecem ser amadas e procuradas pelo homem, pois não nos podem ser roubadas.

O Profeta-rei cantava na harpa as alegrias inefáveis da esmola e dizia no salmo quarenta: — “Feliz aquele que vem em auxílio do pobre e do mísero; o Senhor defendê-lo-á na hora da tribulação, conservá-lo-á ileso, dar-lhe-á a vida de sua graça, torná-lo-á feliz na terra e não o entregará nas mãos de seus inimigos.”
A magnitude dos lucros prometidos não deve causar maravilha. Nosso Senhor é um banqueiro riquíssimo e embora dê muito e enriqueça os homens, nunca empobrece. Os seus haveres são infinitos e não ficam diminuídos, como o mar que não se esvazia quando os homens lhe tiram as águas.
Todos, os ricos principalmente, deveriam pensar na prodigiosa fecundidade do celestial banco da esmola e nele pôr os seus capitais. Porventura não é melhor receber cem por um, que seis por cento? Não é melhor ficar rico no tempo e na eternidade, do que enriquecer-se somente cá na terra? Pondes os vossos capitais nos bancos da terra e os deixareis quando tiverdes de deixar a terra. Se, invés, colocais o dinheiro no banco da esmola, depois de terdes gozado juros centuplicados nesta vida, levá-lo-eis convosco e sereis ricos por toda a eternidade. É horripilante pensar a um avaro que passou a vida ajuntando dinheiro, confiando seus bens ora a este, ora àquele banco, sem socorrer os pobres, sem enxugar uma lágrima, sem desalterar a fome a um infeliz, alimentando, quiçá, galgos ou cavalos de raça, para fazer bela figura diante dos homens. Ei-lo agora estendido no leito de morte, e em breve deve deixar tudo e baixar à sepultura, sem poder levar nem um ceitil.
Por outro lado, como não deve consolar o rico no ponto de morte o pensamento de ter socorrido generosamente os pobres! Suas riquezas ele as achará na outra vida convertidas em méritos e glória eterna e morre consolado com a esperança do céu.
Procuremos, pois, acertar na escolha do banco e demos preferência ao divino banco da caridade, pondo nele os nossos capitais, porque apresenta tais garantias, que torna-se impossível uma bancarrota, e porque dá rendas vistosas. Destarte evitaremos a triste sorte do rico epulão e daquele outro infeliz que, depois de ter enchido os celeiros para gozar da vida, foi logo chamado ao outro mundo e obrigado a deixar tudo.
Não esqueçamos a promessa do Redentor: “Dai e vos será dado; e derramar-vos-ão no seio uma boa medida, bem cheia, e recalcada, e acogulada, porque com aquela mesma medida com que tiverdes medido, se vos há de medir a vós.” (S. Lucas, VI, 38).
Na vida dos santos vemos confirmada a retribuição do cem por um. Quanto mais davam, mais recebiam. 
* * *
S. João, Patriarca de Alexandria, foi chamado o Esmoler por causa das abundantes e continuadas esmolas que distribuía. Ele confessou ter-lhe Deus dado a correspondência fiel do cêntuplo por um. Jovem de quinze anos, tendo dado um manto a um pobre, no mesmo dia foi-lhe entregue o dinheiro no seu valor centuplicado.
De outra feita, ordenou ao seu esmoler que desembolsasse quinze escudos e os desse a um pobre forasteiro espoliado pelos ladrões; ao mordomo pareceu demasiada aquela soma e deu apenas cinco. No mesmo dia uma rica senhora mandou quinhentos escudos para os seus pobres. O santo, que já se habituara a receber cem por um, e vendo que isto agora não se verificara, suspeitou do mordomo, e procurou saber como este cumprira a ordem recebida; confessou sem ambages, que tinha dado cinco escudos somente. Foi o santo agradecer à piedosa senhora, e qual não foi a sua admiração ao saber que ela determinara mandar-lhe mil e quinhentos escudos e ao dar a ordem ao seu caixa, errara o número, notando só quinhentos.
S. João via a Jesus Cristo na pessoa dos pobres e por isso os chamava seus senhores. Enquanto, certo dia, um dos pobres por ele socorrido se desabafava nos mais ternos afetos de reconhecimento, o santo Bispo, lançando-se a seus pés, o interrompe com estas belas palavras: “Meu caro irmão, eu ainda não derramei o meu sangue por ti, como fez Jesus Cristo pela minha salvação e como está obrigado a fazer, se preciso for, um Pastor fiel.” 
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Reproduzo da vida de S. José Cottolengo o fato seguinte:
Quando lhe pediram em Utelle, que mandasse algumas Irmãs para atenderem ao hospital e abrirem um educandário, notou que não só não tinha dinheiro para fornecer o necessário às religiosas, mas nem ainda um ceitil para a viagem. Confiando na Divina Providência, sai tranquilo de casa e na rua Milão dá com o senhor Henry, seu conhecido e amigo.
O Santo foi-lhe logo dizendo:
— Devo ir a Utelle a fim de erigir uma casa das nossas Irmãs e não tenho no bolso nem sequer um centésimo. Quereríeis emprestar-me mil liras?
— Darei com muito gosto, respondeu o amigo.
Horas após, o Santo tinha a quantia necessária; ao recebê-la, pronunciou o infalível Deo gratias; e sorrindo acrescentou:
— Recordai-vos caro Henry, cinquenta por um.
Henry não compreendeu.
Cottolengo ao se despedir disse mais uma vez.
— Recordai-vos, Henry, cinquenta por um.
Passaram-se meses. Um belo dia, Henry recebia cinquenta mil liras por um bilhete de loteria que lhe custara mil. Só então compreendeu que Deus, para premiar a sua caridade, o recompensava precisamente como lhe fora predito. 
* * *
S. Vicente de Paulo, paupérrimo como era, chegou a distribuir em esmolas aos pobres milhões de francos. E donde tirava tanto dinheiro? Deus dera-lhe o cêntuplo por um e, mais ainda, inspirava aos ricos a proverem-no de dinheiro. 
* * *
Alfredo o Grande, rei da Inglaterra, destronado pelos dinamarqueses e obrigado em tempo de inverno a homiziar-se no castelo de Atelney, por pouco morria de fome.
Um dia, se lhe apresentou um mendigo pedindo comida; mandou que lhe dessem alguma coisa. Sua mãe, porém, advertiu que em casa só havia um pão. Alfredo roga à sua mãe que dê metade ao pobre, e tenha confiança naquele Senhor que saciara cinco mil pessoas com cinco pães e dois peixes e prometera o cêntuplo por um do que fosse dado por seu amor. A fé viva do monarca foi logo recompensada e a sua caridade heroica atraiu as bênçãos do céu sobre si e sua família. Porquanto, Deus lhe concedeu vitória completa sobre os dinamarqueses e o restabeleceu no trono. 
* * *
— Mas, objetará alguém, eu dou tanta esmola e não acho que Deus me dê cem por um.
— Vós vos enganais, respondo; a promessa de Jesus Cristo não pode falir. Certamente que Deus não manda vez por vez um anjo a pagar-vos cem por um; mas Ele vo-lo dá abençoando a vossa família, fazendo prosperar os vossos negócios, dando saúde, e o que é mais importante, colmando-vos de graças espirituais. Uma só graça, embora pequena, vale mais que todo o ouro do mundo.
E se, não obstante, virmos pessoas esmoleres visitadas pela tribulação, é sinal que assim exige a salvação de sua alma.
Quereis um exemplo? Lede:
Santa Teresa de Jesus recebia abundantes esmolas de um negociante que se recomendava sempre às suas orações; uma vez a Santa lhe falou assim: — “Tenho rogado muito por vós e foi-me revelado que o vosso nome está escrito no livro da vida pela generosa caridade que haveis usado para comigo; mas, no entanto, é mister que passeis antes por muitas provações.”
Tal aconteceu; uma tempestade pôs a pique as naus carregadas de mercadoria sua. Abriu falência. Cientes da desgraça, os seus amigos lhe subministraram o necessário para continuar o negócio. Novo desastre e nova falência. Pelo que ele, espontaneamente, fechou-se numa prisão. Seus credores, conhecendo a magnanimidade de seu coração, libertaram-no.
Reduzido à miséria, deu-se todo ao serviço divino e às obras de caridade e morreu santamente, cheio de méritos.
Ora, pergunto eu, deixou talvez de se cumprir a palavra do Divino Redentor neste negociante esmoler? — Absolutamente. Ele recebeu cem por um nas desgraças que lhe deram ampla ocasião de conseguir méritos, na paciência que Deus lhe concedeu, nas boas obras que praticou. Do céu deve certamente bendizer a caridade para com Santa Teresa e aquelas desventuras, que, suportadas por amor de Deus, lhe fruíram o paraíso.
Se tivesse tido prosperidade, apegaria o coração às coisas desta terra e talvez se condenaria.
Demos, pois, esmola, confiados que Deus nos recompensará largamente nesta vida e na outra e procuremos imitar os luminosos exemplos que os santos nos deixaram.