domingo, 25 de maio de 2014

A Pérola Preciosa - 14.º Mistério

Nota do blogue: Acompanhar esse especial AQUI.

A PÉROLA PRECIOSA

Breves pensamentos sobre o Rosário meditado, para sacerdotes.
pelo
Padre Wendelin Meyer, O.F.M.
Tradução portuguesa por
Alberto Maria Kolb


14.º MISTÉRIO
PARA O CÉU...

Os dias de Maria declinaram. A mais bela entre as mulheres sentiu aproximar-se o Seu fim; a morte, porém, não tinha pleno poder so­bre Ela. Ela, que teve em Si o Imperecível, havia de deixar este mundo sem se corromper Seu corpo.

O invólucro imaculado elevava-se com Sua alma cândida à terra da Inocência e Pureza.

No céu esperava o Pai a Sua filha, o Fi­lho a Sua mãe, o Espírito Santo a Sua esposa.

O sacerdote tem seu fim de modo diverso. Ele, que tantas vezes teve entre as suas mãos o Se­nhor da Vida, Cristo Jesus, ele que O teve sobre seu peito e encerrado em seu coração, é su­jeito à corrupção.

Ele há de descer à sepultura, há de pas­sar provavelmente pela antecâmara do céu, isto é, pelo purgatório, para satisfazer o que as pobres almas têm que expurgar. Depois, porém participará das alegrias de Maria pela entrada de sua alma ao céu.

Meditemos que o Pai recebe Sua filha, o Filho a Sua mãe, o Espírito Santo a Sua esposa.

O Pai recebe sua filha:

Maria era uma criança privilegiada.

Reteve em sua alma o sinete de uma pu­reza nunca perdida. A Sua vida era como o brilho da estrela matutina, o manso cintilar da au­rora. «Progreditur quasi aurora!» (Sab. 6-9). Ela passava em brilho todos os filhos de Adão, e até todas as fileiras dos Bem-aventurados; sim, era maior ainda; era a virginal filha do Padre Eterno, que encerrava em Seu coração todos os filhos desta terra, que por eles sofria e por eles orava. Quem poderá enumerar os filhos de Deus que Maria Santíssima já salvara antes de Sua morte? Ela foi a mais diligente e fervorosa fi­lha na casa de Seu Eterno Pai. Quem pois po­derá dizer-nos com que amor Deus Padre a recebeu em Seus braços no dia de Sua assunção!

Pai e Filha se encontraram.

Isto dá ao sacerdote uma idéia de suas fu­turas glórias na eternidade. Afastemos de nós o medo tão desgraçado e pernicioso! Ainda que entre o sepulcro e o céu acharemos o purgatório, contudo, além da Igreja militante, está o Pai de braços abertos, pronto a nos receber. Não somos filhos privilegiados da graça? Não temos em nós o Seu sinal indelével? O selo de nossa preferência? Quando o pai esperava com ardente desejo e entre saudades infindas o filho pródigo, não havia por acaso de saudar com mais carinho e mais afetos o filho sempre obe­diente e sempre disposto para a graça?

Além disso, toda a nossa vida era consagra­da ao dever e à obrigação de preservar da eterna condenação os filhos errantes e rebeldes, e conduzi-los à celeste mansão, levá-los à eterna pátria. Isto o Padre Eterno esquecerá? Não, nun­ca! um coração paterno nos espera. Abba, Pai, vós que habitais sobre as estrelas, longe, bem longe de mim, bendigo a hora e o momento em que me recebereis na mansão celeste, nas eter­nas e imorredouras alegrias do céu.

O Filho recebe Sua mãe:

Poderia Jesus esquecer-Se de Sua carinhosa mãe? Não, certamente não! A noite de Natal era demasiado encantadora e a esta santa noite a imagem de Maria era inseparavelmente uni­da. A casinha de Nazaré era sobremaneira íntima e idílica; nesta, Maria cuidava com tanto desvelo e maternal afeto de Jesus, repartindo estes cuidados com José, Seu casto esposo. Seu estado de Mater-Dolorosa na montanha do Gólgota é frisante exemplo do amor heróico de uma mãe. Não, tal Mãe jamais podia ser esquecida, por isso Jesus tinha saudades de Sua Mãe.

Entretanto da morte de Jesus à morte de Maria decorreram anos. Aproximando-se porém a hora da partida, recebeu Maria a vida celestial da mão d’Aquele a quem Ela deu a vida terrestre. Oh feliz encontro! Palavras humanas, são insuficientes para descrever os sen­timentos da Mãe e do Filho.

Novamente levanta-se o véu da Eternidade. Lancemos segunda vez um olhar sobre as nossas futuras alegrias do céu. Não poderemos por aca­so viver da doce esperança de encontrarmos se­melhante recepção? Quicumque enim fecerit vo­luntatem Patris mei, qui in coelis est, ipse meus frater, et soror, et mater est (S. Math. 12-50).

E a vontade do Pai foi para nós sempre cara e preciosa. Estávamos inúmeras vezes debru­çados sobre as sagradas páginas, pensativos, para tomarmos mais a fundo e compreendermos me­lhor esta vontade; aprofundávamos nesta Lei nosso espírito e nosso coração, quando os si­lenciosos momentos da meditação cercaram san­tamente todo nosso «eu».

E o púlpito sagrado bem poderia contar quanto nos era estimável esta vontade do Pai! «In lege Domini voluntas ejus». (Ps. 1-2), cla­ma este púlpito, esta cátedra da Lei, ao povo e à paróquia. A nossa própria vida, para exemplo do povo, procurávamos em todo o tempo con­formar com as prescrições divinas. — «Este então me é irmão, irmã, mãe...» Oh dia mui vezes feliz; dia de nosso ingresso no céu!

O Espírito Santo recebe a Esposa.

Admirável era a união da alma de Maria com o Espírito Santo. Ele A enchia completamente, A regia descia sobre Ela em línguas de fogo. Em Maria jazia o conteúdo total do «Cantica Canticorum», aquela tenra vida, que se consumia de amor pelo Seu eterno esposo. Separada do mundo e absorta em Deus, des­cansava a Santa Virgem nos braços de Seu Amado. «Adjuiro vos filiae Jerusalem per capreas, cervos que camporum, ne suscitetis neque evigilare faciatis dilectam, donec ipsa velit (Cant. 3-5).

O Espírito Santo edificou n’Ela a Sua ha­bitação. «Tota pulchra es arnica mea, et macula non est in te». (Cant. 4-7).

Esta santa esposa voava à eterna pátria, para contemplar Seu Divino Esposo face a face.

Também esta Assunção ao céu servirá para nós de ensinamento. A nossa vida não está ela em íntima união com o Espírito Santo? Não foi este amado hóspede de nossa alma mão direita em todos os nossos ministérios sacerdotais?

O veni, veni Sancte Spiritus! Quantas vezes saíram estas palavras de nossos lábios! E Ele, o Divino Paráclito, ajudava a nossa fraqueza, abrandava a nossa tristeza, inflamava o nosso ânimo. Quem, porém, poderá exprimir em pa­lavras a consolação nas horas tristes e amar­gas que Ele infiltrava, qual bálsamo refrige­rante, em nosso coração atribulado? Este «aduleis hospes anima» nos espera, para nos céus ser-nos ainda mais, do que foi para nós na terra. Exulta satis, filia Sion! (Zach. 9-9).