sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

XXVII- Acerca do Paraíso

Nota do blogue: Meus agradecimentos vão novamente à Débora Maria pela transcrição desse belíssimo texto. Deus lhe pague, minha querida irmã.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula


Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917

 
I. Minha filha, o fruto dos sofrimentos suportados com paciência por Meu divino Filho para salvar o mundo, é o Paraíso que os homens devem esperar. As coisas da terra não satisfazem nunca inteiramente o espírito e o coração, e aqueles que se perdem nelas são iludidas e enganadas. Aqui são prazeres das dores. Os prazeres nunca te contentam plenamente; as dores fazem-te triste e desgraçada. Em vão buscarias tu a felicidade num mundo de exílio. Num vale de lágrimas e de amargura. A terra não é a pátria para que Deus te criou; uma ou outra pátria te espera, - o céu. Mas aquela pátria não a desejas tu, não suspiras por ela, porque a não conheces. Oh! Se te fosse concedido lançar para ela um único olhar, asseguro-te que nunca mais poderias ver senão com desgosto as mais radiantes belezas desta terra; estar separada do céu uma só hora te pareceria um suplício tão intolerável como não conceberias outro mais cruel. Para dar-te alguma idéia daquela pátria, ó Minha querida filha, pensa na doce surpresa que te alegrará quando o teu fiel Anjo da Guarda, vindo ao teu encontro, te estender meigamente a mão para te convidar a subir ao céu. A rapidez do pensamento não iguala o arremesso que atrairá a tua alma para a venturosa morada. Chegada ao umbral, ei-lo, exclamarás tu em êxtase, eis o Paraíso. Ó Paraíso tu és meu, eu vejo-te, possuo-te. Penas, angústias, tribulações, doenças, morte, tristezas de todo o gênero, adeus para sempre. Deixei-vos lá baixo no mundo, tentações, demônios, inferno, não vos temo, não vireis mais perturbar a minha alegria. Grandes coisas me têm sido ditas de ti sobre a terra, ó gloriosa cidade de Deus, mas quanto estavam abaixo do que vejo agora, do que gozo! Não me tem sido revelado mais que uma fraquíssima parte das tuas glórias! – assim exclamarás tu cheia de júbilo e de felicidade. Os tronos, os reinos deste mundo, que tu tanto admiras, ó Minha filha, dá-os Deus muitas vezes aos Meus inimigos; pensa pois qual será a recompensa que Ele dá lá no alto aos Seus filhos, se o que concede aos Seus inimigos é tão belo. Como o Deus que tu adoras é eterno, imenso e infinito, assim eterna, infinita e imensa é a glória que Ele te prepara no céu, porque ela não é distinta da d’Ele mesmo. E não quererás tu aspirar àquela pátria!

II. Introduzida no Paraíso pelo teu Anjo da Guarda, ó Minha filha, quem poderá dizer a alegria e júbilo que sentirás nessa venturosa entrada? O mundo é cheio de ilusões, e quando o véu cai, passa-se da alegria ao desencantamento; mas o Paraíso contém a verdadeira glória e a verdadeira felicidade! Consiste ela na visão beatífica de Deus em quem todas as perfeições e todas as grandezas têm o seu complemento achar-te-ás no céu em presença do Senhor que nunca teve princípio, por que é eterno, que criou todas as coisas por que é onipotente; que alegra por Si mesmo todos os espíritos celestes: porque é infinitamente belo, infinitamente amável, vê-lo-ás cercado de todas as falanges de anjos e santos que gozam da Sua glória há séculos e séculos, não se fatigando nunca de a possuir, nem deixando nunca de O contemplar. Os esplendores infinitos e sempre novos que não deixam de admirar nesse imenso oceano de verdade, de beleza, de perfeição, arrebatam-lhe cada vez mais o coração. Conhecerás no céu que compensação é dada às almas experimentadas pela tribulação, e àquelas por que por Meu divino Filho Jesus têm sido pobres sobre a terra, têm suportado desprezos, dores e privações. Verás, ó Minha querida filha, na glória, virgens, mártires, confessores e penitentes de quem partilharás a sorte e a felicidade. Lá, o teu espírito se abrirá ao conhecimento de todos os seres; o véu dos mistérios cairá; iluminada pela luz divina, verás duma visão intuitiva o que é agora objeto da tua fé. Lá não terás mais desejos; o teu coração estará plenamente satisfeito. E Eu! Eu te abraçarei como uma filha fiel que tem correspondido aos Meus convites, e nós entoaremos juntas um cântico de glória ao Deus que nos criou e glorificou. Ó Minha filha, que alegria que o Paraíso é!

III. Mas a tua alegria não seria de modo nenhum perfeita se pudesse ser perturbada, se pudesse acabar; ora eis aí o que nunca sucederá. Sobre a terra, ó Minha filha, por mais feliz que seja um coração, à sua ventura é demasiadamente imperfeita e receia sempre que lhe fuja. Se a tem constituída nos bens da fortuna, os ladrões fazem-no sempre tremer; se a tem constituída fora disso, as doenças, as calamidades, os incêndios, as perseguições, os inimigos, perturbam essa felicidade mal assegurada, e cada dia, além disso, a morte pode arrebatar-lha. Mas no céu, livre de toda a tribulação e de toda a desgraça, não terás mais a temer adversidade alguma. Aos teus temores passados sucederá uma paz, uma tranquilidade indizível tocante ao futuro. O pensamento de que um bem que se ama há de ser perdido, há de ser abandonado, entristece profundamente e troca a alegria em amargura. Nenhum pensamento semelhante há no céu. Admitida na venturosa pátria, gozarás a abundância de todo o bem sem recear mal algum. Acidente algum, incômodo poderá perturbar a tua felicidade ou torná-la menos perfeita, por que ela será eterna. Este pensamento, minha filha far-te-á gozar a cada instante a doçura de todas as delícias de que gozarias durante toda a eternidade. Não te consideras bem feliz, ó Minha filha, ouvindo estas coisas? Não te inflamam elas dum amor pelo Paraíso? Que loucura seria a tua se para não te sujeitares a uma pena passageira, e para gozar duma sombra de felicidade fugitiva, te arriscasses a perder uma tão grande glória! Quantas vezes todavia, não tens sido culpada desta loucura. Abre os olhos e aprende a melhor apreciar o céu para o futuro.

Afetos. É demasiadamente verdade, ó Maria, minha boa e terna Mãe! Cega e insensata não tenho apreciado o céu como devia. Um bem tão grande, que o Filho de Deus, a sabedoria incriada do Pai, tem sofrido as penas os trabalhos e dores de toda a Sua vida para mo merecer: um bem tão grande, que para adquiri-lo para mim que o tinha perdido, crês não ter dado bastante dando a Sua vida e derramando todo o sangue de Suas veias; um bem tão grande, tenho-o estimado menos que as coisas da terra, menos que a saciedade de uma paixão, menos que uma bagatela e uma vaidade, menos que o prazer duma miserável criatura. Depois de ter reconhecido o mal que tenho feito, serei do mesmo modo louca para o futuro? Serei bastante covarde para temer um pouco de cansaço e dor sofrida a fim de ganhar o céu? Não, com certeza. Por maiores que sejam as minhas aflições, amargas as minhas dores, custosas as minhas humilhações, ainda que os demônios me tentem, que as paixões se desencadeiem, que o mundo reclame, tudo será inútil; tenho-os demasiado escutado no passado. Ó Mãe terníssima! Não quero por um nada, não quero pelo mundo inteiro perder o céu. Não quero, recusando sofrer um pouco, expor-me ao perigo de perder a consolação de gozar um dia o céu. Espero, ó Maria! Perseverar nestas resoluções, se como me tendes feito a graça de reconhecer o meu erro, me obtiverdes a de o corrigir por uma pronta enérgica penitência.