Nota do blogue: Meus agradecimentos à Débora Maria pela transcrição desse belíssimo texto. Deus lhe pague, minha querida irmã.
Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula
Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917
I. Contempla agora, ó Minha filha, Jesus carregado da Sua
cruz. A injusta sentença da Sua morte foi pronunciada. É preciso que suba ao
Calvário, lugar do Seu suplício, e é condenado a levar a cruz. O furor desses
desumanos não teria sido satisfeito se não tivessem sempre inventado novos
meios de fazer sofrer mais tempo a sua vítima. Os maiores criminosos eram
unicamente obrigados a levar o instrumento do seu suplício, e o Meu divino Filho,
como se tivesse sido o maior de todos, foi carregado da Sua cruz, enquanto os
ladrões que O seguiam e que deviam morrer com Ele foram dispensados dessa
humilhação. Não Se recusou a isso. Toma a pesada cruz sobre os ombros nus, já
lacerados pelos açoites, abraça-a, contempla-a como o altar onde irá consumar o
holocausto da redenção de gênero humano, para reconciliar a terra e o céu, o
homem e Deus. Carregado desse madeiro, o celeste Isaac, toma o caminho do
Calvário. Uma grande multidão O precede e segue gritando: - Este Jesus,
violador das leis de Deus dadas por Moisés, e que se pretendia fazer Filho de
Deus, ei-lO condenado à cruz por sentença dos grandes sacerdotes e do
governador romano! – Durante este caminho doloroso, que de irrisões, insultos e
pancadas! Mas Ele suporta tudo, verificando o que David tinha profetizado d’Ele:
todos os que me viam escarneciam-me e agitavam a cabeça. Minha filha a culpada
covardia que dás a conhecer quando devias mostrar-te virtuosa em face do mundo,
foi a causa destes opróbrios. Que motivo de condenação seria para ti, se te
deixasses ainda vencer pelo respeito humano até não ousares fazer o bem! O
Filho de Deus, não recusou parecer criminoso e malfeitor, por amor por ti, e tu
terias vergonha de te pareceres uma das suas discípulas e segui-lO!
II.
Carregado do pesado madeiro da cruz o Meu divino Filho, teu amor, tinha já
subido uma parte da montanha quando Eu O encontrei. Ó encontro cruel e
doloroso! A Sua flagelação, o sangue que não cessava de derramar as Suas
chagas, as Suas contusões, tinham de tal modo enfraquecido Jesus, que apenas
podia andar. Caía a cada passo; os bárbaros, em vez de terem piedade d’Ele, apressavam-nO,
aguilhoavam-nO, abanavam-nO, espancavam-nO. Assim impelido, caía em terra e os
algozes, raivosos, arremessavam-se sobre Ele como cães da fila furiosos, e com
bofetadas, pontapés e pauladas, ordenavam-Lhe que se endireitasse e corresse. O
inocente cordeiro de Deus, sem abrir a boca para lamentar-Se, esforçava-Se por
obedecer, ajudando-Se, para os endireitar, das Suas mãos e dos Seus joelhos;
mas neste esforço caía em terra como indizíveis padecimentos. Oh! Como estas
quedas Me dilaceravam as entranhas! Oh! como o peso da cruz oprimia o Meu
coração! Oh! Como esses golpes e essas bofetadas feriam a Minha alma! Eu queria
correr para Me carregar desse pesado madeiro, mas era repelida por esses
bárbaros e não Me era permitido aproximar-Me d’Ele para O ajudar! Não era
somente o peso da cruz que O Oprimia; aquele que governava então o universo
inteiro por Sua onipotente virtude não podia ser abatido pelo peso desse
madeiro. Mas, ó Minha filha, as tuas iniqüidades e as do mundo inteiro estavam
amontoadas sobre esse madeiro, e foi esse o opressivo fardo que o fez muitas
vezes sucumbir. Se tu estivesses presente e que eu tivesse implorado o teu
socorro para libertá-lO, que não farias tu? Talvez tivesses exposto o teu peito
à ponta das lanças; mas Eu não exijo tanto de ti. Peço-te unicamente que não
mais O escarneças nem insultes para O fazer cair. – E quando o tenho eu feito,
me perguntarás tu? – Todas as vezes te responderei eu, que chamas escrúpulo ao
que o não é; quando zombas da piedade e daqueles que praticam o bem: quando
aplaudes os que praticam o mal; quando desprezas aqueles que te admoestam ou te
corrigem; quando te expões a situações perigosas; quando, por teus escândalos,
excitas os outros ao mal; quando multiplicas as tuas impiedades por tantas
recaídas, nos mesmos pecados; é então que tu te juntas a esses pérfidos para
zombares d’Ele, O feres, O fazes cair oprimido sob a cruz. Compreende agora
quantas vezes tens tomado um tão culpável e bárbaro prazer contra o teu
Redentor.
III.
Os judeus cruéis e os soldados, vendo a sua vítima tão extenuada, forçaram
Simão, o Cireneu, que ali se encontrou por acaso, a levar a cruz. Obrando assim,
não era porque estivessem comovidos de compaixão, mas porque temiam ver Jesus
expirar sob o Seu fardo e ficaram privados do prazer de O pregar sobre a cruz.
Não foi sem mistério ó Minha filha, que Jesus quis que o Cireneu levasse a cruz
um momento, para fazer compreender aos homens que queria ser ajudado. Oh!
Ingratidão humana! A repugnância do Cireneu a encarregar-se dela, revelou qual
seria a repugnância dos homens em levá-la e os esforços que fariam para fugirem
a isso o mais possível. Que monstruoso contraste! Jesus inocente, pelo amor
pelo homem, recebe a cruz e leva-a com uma generosidade, uma paciência e
constância perfeitas, e o homem culpado repele-a e aborrece-a! Minha filha,
como tens levado a tua cruz até hoje? Tens-te aplicado a fugir-lhe, evitando
com todo o cuidado o que repugna a tua natureza corrupta! Obrigada, todavia a
levá-la, tem-no feito forçada, como o Cireneu, tem-na antes arrastado com
cólera, aturdindo com lamentações e gritos a tua família e a tua vizinhança?
Tens muitas vezes tentado arremessá-la por terra com desprezo, queixando-te
mesmo do Deus que a lhe deu, crendo não a merecer ou achando-a demasiadamente
pesada? Ah! Envergonha-te da tua delicadeza, reconhece a injustiça da tua
cólera e dos teus lamentos na tribulação. Se tu nunca tivesse por teus pecados
merecido a cruz, deverias ainda assim levá-la com reconhecimento, para imitar e
consolar o teu Redentor; quanto mais depois de a teres merecido por tantas
culpas! Se queres salvar-te, não se pode chegar ao céu por outro caminho. Todos
os predestinados a tem levado. Eu mesma a levei, e bem sabes quanto ela é
pesada, e tu ousas pretender não a levar por modo nenhum.
Afetos.
Não, Mãe querida, eu não pretendo dispensar-me de levar a cruz; não, não quero
renunciar ao céu por não sofrer e gemer um pouco sob o peso da minha cruz sobre
a terra. Ó cruz santa, tu serás um dia a glória dos justos que te tiverem
levado com Jesus, e a confusão dos maus que te tiverem desprezado; eu não quero
nesse dia terrível ser condenada por ti. Desde este momento beijo-te com
piedade, abraço-te, afeiçoo-me a ti, instrumento adorável da minha salvação,
altar sagrado da minha redenção. Eu me arrependo de ter te apreciado tão pouco
até o presente. Quanto eu era cega e indigna! Não fazia mais que assemelhar-me
a esse Cireneu que te levava com tanta repugnância e forçado, em vez de me
parecer com Jesus, meu Redentor, a quem devia imitar levando-te com paciência!
Ó Mãe, querida, o meu coração confrange-se com este pensamento! Mas ai de mim!
Não estou eu unida a esses bárbaros algozes! Tenho-me deleitado, cruel, em
agravar as dores de Jesus, meu único bem, a insultá-lO, a feri-lO, a fazê-lO
cair por minhas recaídas tão frementes no pecado. Tenho sido um monstro de
ingratidão. Ó meu dulcíssimo Salvador, para sofrer uma indigna como eu, era
preciso nada menos que uma paciência infinita. Ah! Se uma só cruz não basta,
Senhor, dai-me tantas quantas Vos aprouver. Rogo-Vos unicamente junteis a elas
uma graça proporcionada, a fim de que conVosco e à Vossa imitação, possa levar
a cruz com resignação e paciência. Ó Maria, minha boa e terna Mãe, obtém-me
esta graça por Vossa intercessão.
