sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

XXIV- Jesus com a Cruz às costas

Nota do blogue: Meus agradecimentos à Débora Maria pela transcrição desse belíssimo texto. Deus lhe pague, minha querida irmã.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula

Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917


I. Contempla agora, ó Minha filha, Jesus carregado da Sua cruz. A injusta sentença da Sua morte foi pronunciada. É preciso que suba ao Calvário, lugar do Seu suplício, e é condenado a levar a cruz. O furor desses desumanos não teria sido satisfeito se não tivessem sempre inventado novos meios de fazer sofrer mais tempo a sua vítima. Os maiores criminosos eram unicamente obrigados a levar o instrumento do seu suplício, e o Meu divino Filho, como se tivesse sido o maior de todos, foi carregado da Sua cruz, enquanto os ladrões que O seguiam e que deviam morrer com Ele foram dispensados dessa humilhação. Não Se recusou a isso. Toma a pesada cruz sobre os ombros nus, já lacerados pelos açoites, abraça-a, contempla-a como o altar onde irá consumar o holocausto da redenção de gênero humano, para reconciliar a terra e o céu, o homem e Deus. Carregado desse madeiro, o celeste Isaac, toma o caminho do Calvário. Uma grande multidão O precede e segue gritando: - Este Jesus, violador das leis de Deus dadas por Moisés, e que se pretendia fazer Filho de Deus, ei-lO condenado à cruz por sentença dos grandes sacerdotes e do governador romano! – Durante este caminho doloroso, que de irrisões, insultos e pancadas! Mas Ele suporta tudo, verificando o que David tinha profetizado d’Ele: todos os que me viam escarneciam-me e agitavam a cabeça. Minha filha a culpada covardia que dás a conhecer quando devias mostrar-te virtuosa em face do mundo, foi a causa destes opróbrios. Que motivo de condenação seria para ti, se te deixasses ainda vencer pelo respeito humano até não ousares fazer o bem! O Filho de Deus, não recusou parecer criminoso e malfeitor, por amor por ti, e tu terias vergonha de te pareceres uma das suas discípulas e segui-lO!

 II. Carregado do pesado madeiro da cruz o Meu divino Filho, teu amor, tinha já subido uma parte da montanha quando Eu O encontrei. Ó encontro cruel e doloroso! A Sua flagelação, o sangue que não cessava de derramar as Suas chagas, as Suas contusões, tinham de tal modo enfraquecido Jesus, que apenas podia andar. Caía a cada passo; os bárbaros, em vez de terem piedade d’Ele, apressavam-nO, aguilhoavam-nO, abanavam-nO, espancavam-nO. Assim impelido, caía em terra e os algozes, raivosos, arremessavam-se sobre Ele como cães da fila furiosos, e com bofetadas, pontapés e pauladas, ordenavam-Lhe que se endireitasse e corresse. O inocente cordeiro de Deus, sem abrir a boca para lamentar-Se, esforçava-Se por obedecer, ajudando-Se, para os endireitar, das Suas mãos e dos Seus joelhos; mas neste esforço caía em terra como indizíveis padecimentos. Oh! Como estas quedas Me dilaceravam as entranhas! Oh! como o peso da cruz oprimia o Meu coração! Oh! Como esses golpes e essas bofetadas feriam a Minha alma! Eu queria correr para Me carregar desse pesado madeiro, mas era repelida por esses bárbaros e não Me era permitido aproximar-Me d’Ele para O ajudar! Não era somente o peso da cruz que O Oprimia; aquele que governava então o universo inteiro por Sua onipotente virtude não podia ser abatido pelo peso desse madeiro. Mas, ó Minha filha, as tuas iniqüidades e as do mundo inteiro estavam amontoadas sobre esse madeiro, e foi esse o opressivo fardo que o fez muitas vezes sucumbir. Se tu estivesses presente e que eu tivesse implorado o teu socorro para libertá-lO, que não farias tu? Talvez tivesses exposto o teu peito à ponta das lanças; mas Eu não exijo tanto de ti. Peço-te unicamente que não mais O escarneças nem insultes para O fazer cair. – E quando o tenho eu feito, me perguntarás tu? – Todas as vezes te responderei eu, que chamas escrúpulo ao que o não é; quando zombas da piedade e daqueles que praticam o bem: quando aplaudes os que praticam o mal; quando desprezas aqueles que te admoestam ou te corrigem; quando te expões a situações perigosas; quando, por teus escândalos, excitas os outros ao mal; quando multiplicas as tuas impiedades por tantas recaídas, nos mesmos pecados; é então que tu te juntas a esses pérfidos para zombares d’Ele, O feres, O fazes cair oprimido sob a cruz. Compreende agora quantas vezes tens tomado um tão culpável e bárbaro prazer contra o teu Redentor.

III. Os judeus cruéis e os soldados, vendo a sua vítima tão extenuada, forçaram Simão, o Cireneu, que ali se encontrou por acaso, a levar a cruz. Obrando assim, não era porque estivessem comovidos de compaixão, mas porque temiam ver Jesus expirar sob o Seu fardo e ficaram privados do prazer de O pregar sobre a cruz. Não foi sem mistério ó Minha filha, que Jesus quis que o Cireneu levasse a cruz um momento, para fazer compreender aos homens que queria ser ajudado. Oh! Ingratidão humana! A repugnância do Cireneu a encarregar-se dela, revelou qual seria a repugnância dos homens em levá-la e os esforços que fariam para fugirem a isso o mais possível. Que monstruoso contraste! Jesus inocente, pelo amor pelo homem, recebe a cruz e leva-a com uma generosidade, uma paciência e constância perfeitas, e o homem culpado repele-a e aborrece-a! Minha filha, como tens levado a tua cruz até hoje? Tens-te aplicado a fugir-lhe, evitando com todo o cuidado o que repugna a tua natureza corrupta! Obrigada, todavia a levá-la, tem-no feito forçada, como o Cireneu, tem-na antes arrastado com cólera, aturdindo com lamentações e gritos a tua família e a tua vizinhança? Tens muitas vezes tentado arremessá-la por terra com desprezo, queixando-te mesmo do Deus que a lhe deu, crendo não a merecer ou achando-a demasiadamente pesada? Ah! Envergonha-te da tua delicadeza, reconhece a injustiça da tua cólera e dos teus lamentos na tribulação. Se tu nunca tivesse por teus pecados merecido a cruz, deverias ainda assim levá-la com reconhecimento, para imitar e consolar o teu Redentor; quanto mais depois de a teres merecido por tantas culpas! Se queres salvar-te, não se pode chegar ao céu por outro caminho. Todos os predestinados a tem levado. Eu mesma a levei, e bem sabes quanto ela é pesada, e tu ousas pretender não a levar por modo nenhum.

Afetos. Não, Mãe querida, eu não pretendo dispensar-me de levar a cruz; não, não quero renunciar ao céu por não sofrer e gemer um pouco sob o peso da minha cruz sobre a terra. Ó cruz santa, tu serás um dia a glória dos justos que te tiverem levado com Jesus, e a confusão dos maus que te tiverem desprezado; eu não quero nesse dia terrível ser condenada por ti. Desde este momento beijo-te com piedade, abraço-te, afeiçoo-me a ti, instrumento adorável da minha salvação, altar sagrado da minha redenção. Eu me arrependo de ter te apreciado tão pouco até o presente. Quanto eu era cega e indigna! Não fazia mais que assemelhar-me a esse Cireneu que te levava com tanta repugnância e forçado, em vez de me parecer com Jesus, meu Redentor, a quem devia imitar levando-te com paciência! Ó Mãe, querida, o meu coração confrange-se com este pensamento! Mas ai de mim! Não estou eu unida a esses bárbaros algozes! Tenho-me deleitado, cruel, em agravar as dores de Jesus, meu único bem, a insultá-lO, a feri-lO, a fazê-lO cair por minhas recaídas tão frementes no pecado. Tenho sido um monstro de ingratidão. Ó meu dulcíssimo Salvador, para sofrer uma indigna como eu, era preciso nada menos que uma paciência infinita. Ah! Se uma só cruz não basta, Senhor, dai-me tantas quantas Vos aprouver. Rogo-Vos unicamente junteis a elas uma graça proporcionada, a fim de que conVosco e à Vossa imitação, possa levar a cruz com resignação e paciência. Ó Maria, minha boa e terna Mãe, obtém-me esta graça por Vossa intercessão.