quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

XXIII Acerca da flagelação

Nota do blogue: Agradeço a generosidade de uma bela alma que transcreveu esse texto. Deus lhe pague muito!

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula
Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917



I.  Considera agora as atrozes dores do Meu divino Filho durante a flagelação. Chegado ao Pretório de Pilatos, e condenado por este iníquo juiz a ser flagelado, é agarrado por soldados, algozes furibundos, que O despojam das Suas vestes, O amarram a uma coluna, e armados de azorragues medonhos, aqueles membros sangrados, aquela carne virginal. Oh! Horrível despedaçamento! Desde os primeiros golpes, aquele corpo santíssimo e delicadíssimo torna-se lívido. Os golpes redobram, o sangue corre a jorros, os algozes cruéis são banhados por ele e o solo fica ensopado. Esta flagelação foi tão bárbara que o Meu divino Filho, desde a planta dos pés até ao cimo da cabeça, não é mais que uma chaga; as carnes, laceradas por incessantes golpes, caem aos pedaços e os ossos ficam a descoberto. Quando os primeiros algozes se fatigaram, substituíram-nos outros imediatamente para não parar a flagelação. Havia uma lei que proibia dar-se a um condenado mais de quarenta pancadas; mas os bárbaros judeus querendo que Jesus expiasse sob as varas, fizeram-nO flagelar por soldados romanos, que não tinham a lei em conta alguma. Tu lamentas-te, Minha filha, e fazes grande ruído de má vontade daqueles que te odeiam, e sentes disso uma viva aflição; mas obrando assim imitas acaso aquela divina paciência? Vê como Jesus paga as complacências e os carinhos que tens prodigalizado a teu corpo; vê o que Ele faz para a tua salvação. Se tiveres um pouco de reconhecimento, poderás não te compadecer das Suas dores, sofridas principalmente para o teu bem e a tua redenção?

II. Qual foi a causa, ó Minha filha, daquela cruel flagelação? Foram a inocência de Jesus e os teus pecados. Tu eras culpada como todos os filhos de Adão, por isso, convinha que fosse inocente aquele que devia sofrer o castigo do culpado. A Sua inocência era tão manifesta, que não escapava aos olhos de um juiz tão injusto como Pilatos. Não conhecia Jesus, desde o princípio, que não achava n’Ele nada que merecesse um castigo ou a morte. Depois de tal declaração, quem não esperaria ver o Meu divino Filho posto em liberdade? Tal era, com efeito, o projeto de Pilatos, mas não fez mais que aumentar o furor da multidão cega, que lançava gritos tumultuosos e pedia a morte de Jesus. Pilatos, covarde e medroso, para satisfazer a multidão, condena a Jesus a ser flagelado, esperando que, em o mostrando em seguida todo magoado à população furiosa, a enterneceria e decidiria a não mais pedir a sua morte. Os escribas e fariseus, temendo que Jesus lhes fosse roubado pelo governador romano, excitavam os soldados, com promessas a dinheiro, a flagelá-lO até o fazer morrer sob seus golpes. Eis aí porque esses cruéis o laceraram com tanta ferocidade. Quanto mais eles O viam suportar com a paciência os seus golpes terríveis, mais a raiva lhes redobrava. Ó iníquo processo! É declarado inocente e condenam-nO! Não lhe encontram culpa alguma e castigam-nO! Ah! A Sua culpa é o seu amor que o levou a carregar-Se com os teus pecados e com os de todos os homens. Esses pecados O condenam no tribunal da justiça divina primeiro que no de Pilatos, e na sentença deste iníquo juiz Ele adora a de Seu eterno Pai. Ó minha filha, quanto àquela resignação deveria fazer-te corar de tua impaciência na menor contrariedade, dos teus lamentos a respeito da injustiça daqueles que te causam pesar. Se quiseres caminhar nas pegadas de Jesus, aprende d’Ele como deves conduzir-te nas tuas tribulações as mais injustas.

III. Observa, além disso, ó Minha filha, a indizível ignomínia, a confusão que sofreu então Jesus, Meu Filho, teu Redentor. Aquela ignomínia, como o tinha predito o rei profeta, fez corar o Seu rosto. Que amargura, e cruel vergonha para a Sua virginal modéstia! Que atroz afronta à Sua honra divina! O Criador do mundo, Filho de Deus feito homem, na mesma cidade onde, poucos dias antes, tinha sido proclamado filho de Davi, enviado de Deus, vê-se despojado das Suas vestes, preso a uma coluna como um vil e criminoso escravo, e flagelado cruelmente! Esta injúria confundiu-O tanto, que apelou para o testemunho de Seu Pai celeste, dizendo: Vós sabeis qual tem sido a minha vergonha e que ultrajes me têm feito sofrer? Mas tu dirás talvez: - Como permitia o Pai eterno que a pessoa do Seu divino Filho fosse submetida a tão bárbaro tratamento! Permitiu e o quis para te fazer compreender até que ponto a Sua justiça estava irritada contra o pecado, e quanto é horrível a enormidade das tuas culpas. Tratou com rigor um Filho inocente para derramar a abundância das Suas misericórdias sobre ti, culpada. Julga, pois o quanto foram profundas as chagas feitas em tua alma pelo pecado, visto que, para curar, foi preciso uma torrente de sangue e de feridas tão cruéis, infligidas na carne do Filho de Deus. Se este pensamento não te comove até as lágrimas, é preciso confessar que tens perdido ou o coração ou a fé, porque foi o teu orgulho a causa de tantas dores. Teria sofrido menos se os teus pecados tivessem sido menos numerosos e opressivos. Envergonha-te ó Minha filha, presença do rubor que fizeste sofrer teu Deus. Aproveita o tesouro infinito que Jesus verte das Suas chagas para a tua redenção. De outro modo, que horrível confusão se apoderaria de ti, apresentando-te perante o Seu tribunal espoliada da Sua graça e coberta das tuas manchas e iniqüidades.

Afetos: Ó boa e terna Mãe! Seria preciso que eu tivesse no peito um coração de bronze para me não mover de compaixão por tão monstruosas torturas. Ó judeus cegos e pérfidos, que furos vos animavam? Quem vos excitava a tanta crueldade? Que demônio se apoderava de vós e derramava em vós tanta barbaridade Ai! O demônio que vos excitava é o meu pecado! Mãe querida! Choro e tremo! Choro de dor a respeito da carne inocente do meu Redentor, tão cruelmente rasgada; mas tremo de assombro reconhecendo-me culpada dessa crueldade! Ouço, sim, ouço o ruído desses açoites! Vejo Jesus que, olhando-me com compaixão me diz: Estás satisfeita dos meus sofrimentos? Devo sofrer um pouco mais para merecer teu amor! Ó meu Redentor, como me tendes amado com excesso; que poderei fazer para minorar as Vossas dores? Ah! Nada mais que prostrar-me diante de Vós, chorar e detestar as minhas culpas, que foram a causa do Vosso horrível suplício e declarar que estou pronta a morrer mil vezes antes que ofender-Vos. Tal é a minha resolução, divino Jesus, tal é a minha promessa. Para o futuro, com a Vossa graça, serei modesta, recolhida, humilde, paciente; rogo-Vos ligueis à Vossa coluna a minha indomável vontade, para que não mais Vos possa resistir. Ó Maria, ó minha Mãe, pelos merecimentos daquela dolorosa flagelação e pelos Vossos, alcançai do Vosso divino Filho que as minhas resoluções sejam inabaláveis, a fim de que eu possa gozar do fruto de tantos sofrimentos, de tanto sangue vertido para a minha salvação.