Nota do blogue: Agradeço a generosidade de uma preciosa alma por essa transcrição. Deus lhe pague, minha irmã. Com esse texto encerramos esse livro faltando apenas as orações finais que estão a ser feitas por outra irmãzinha.
Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula
P.S: Especial, em andamento formiguinha, AQUI.
Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917
I.
Considera, ó Minha filha, que o crime daquele que oculta os seus pecados em
confissão, por maior que seja, é sempre maior que o crime que se comete
aproximando-se da sagrada mesa em estado de pecado. Ó ingratas criaturas! Na
confissão profanam o sacramento das divinas misericórdias; na comunhão profanam
o sacramento do amor infinito de Deus para com os homens; insultam o autor dos
sacramentos e da graça na Sua própria pessoa, ó Minha filha, o pecado destes
indignos excede demasiadamente a atrocidade do crime cometido por aqueles que
sacrificaram o Meu divino Filho; porque esses O sacrificaram sobre o Calvário;
os sacrilégios sacrificam-nO no coração, onde Lhe erigem um patíbulo bem mais
doloroso e cruel. Os judeus crucificaram-nO durante a Sua vida mortal sobre a
terra, onde viera morrer para a redenção do mundo; os sacrílegos sacrificam-nO
no tempo em que vive glorioso no céu. Os judeus maltrataram-nO, por que O não
conheciam, e os sacrílegos tratam-nO indignamente no ato mesmo em que O veneram
e recebem como seu bem supremo e seu Deus. Finalmente, os judeus não O
crucificaram mais que uma vez e os sacrílegos tantas quantas O recebem
indignamente. Tratam-nO como Judas e mais horrivelmente ainda. O discípulo
pérfido, com um falso beijo, traiu-O e entregou-O aos judeus a fim de que a sua
cólera se saciasse sobre ele; mas os sacrílegos entregam-nO nas mãos do demônio
que habita a sua alma, a fim de que Se torne brinquedo dele; ó perfídia! Ó
afronta espantosa! A este crime horrível, os anjos que seguem Jesus por toda a
parte derramam amargas lágrimas, e todas as criaturas estremecem de indignação.
II.
Considera também, ó Minha filha, com que repugnância Jesus Cristo, Meu divino
Filho, entra, sob o véu da Eucaristia, num coração corrupto e manchado pelo
pecado. Não receberia injúria maior se fosse lançado aos cães ou arremessado
sobre um monturo. Aí apenas acharia imundícies materiais e não receberia nem
mais injúria nem mais ataque que os raios do sol que passam sobre tais objetos.
Lançado aos cães, achar-Se-ia numa criatura que nunca O ofendeu; mas numa alma
sacrílega, tanto que durem as espécies sacramentais, é constrangido a ficar
unido ao Seu maior inimigo, - o pecado mortal. Eis-ai um crime do qual só a
idéia faz horrorizar. Quantas vezes tenho tido de desviar dos Meus olhos esse
horrível espetáculo! O Meu divino Filho, oculto no sacramento, conduzido pelas
mãos dos padres, dado às almas culpadas onde o demônio habitava! Oh! Sim, à
vista disto derramaria abundantes lágrimas se pudesse no céu sentir a dor; os
meus amargos prantos molhariam toda a terra, tão aflito estaria o Meu coração.
Ó Minha filha, não tens tu chegado nunca a este excesso de receber Meu Filho
indignamente na sagrada comunhão? Se assim é, se tens participado do sacrilégio
de Judas, deves temer e assustar-te partilhar a sua sorte. A penitência, ó Minha
querida filha, é uma penitência pronta, pode só salvar-te duma grande desgraça.
III.
Considera finalmente os males indizíveis que provém das comunhões sacrílegas, e
a que terrível condenação se expõe todo aquele que ousa participar indignamente
do corpo e sangue do Meu divino Filho. Donde provém que entre vós, escrevia S.
Paulo aos Coríntios, há tantos fracos, tantos enfermos, tantos fulminados por
uma morte repentina? Provém de que não fazem diferença nenhuma entre a mesa
divina onde é dado o corpo do Senhor e as mesas profanas. Mas isto nada é
comparado com outros males maiores enumerados pelo mesmo apóstolo. Aquele que
ultraja tão indignamente o seu Deus, que despreza o objeto de tanto amor, que
profana o valor infinito da redenção, come e bebe o seu julgamento. Troca em
veneno mortal o que devia dar-lhe a vida, e em selo de eterna condenação o
sangue que devia assinalá-lo para a glória eterna. No cálice da salvação, bebe
a cólera mais terrível da justiça divina. Tu tremes de horror, ó Minha filha,
com o pensamento do sacrilégio, e dizes em teu coração: Como pode o Senhor
sofrer um tão grande insulto e não tirar dele logo uma vingança severa? Oh!
Quantos são castigados por uma morte horrível ou por outros castigos não menos
espantosos! Uma das Minhas servas fiéis admirava-se junto de Deus por que
tantas comunhões sacrílegas não eram imediatamente punidas. – Não te
surpreendas, respondeu o Meu divino Filho; o pecado dessas almas más é tão
grande, tão enorme, que não tem nesse mundo castigo proporcionado, e que Me
reserve para puni-lo no outro. Desgraçados desses infelizes! Oh! Mais valia não
terem nascido se eles não reparam os seus erros enquanto é tempo. Acautela-se, Minha
querida filha, de chegar até esse excesso. Se por tua desgraça tens cometido um
crime igual, acalma sem demora a justiça divina com as lágrimas da penitência,
porque é tempo ainda.
Afetos.
Meus Deus! Quem me amparará! Quem me fortificará para que o meu coração se não
parta de dor? E vós meus olhos, transformai-vos, sim, transformai-vos em duas
fontes de lágrimas acerbas, à vista dos excessos de iniqüidade cometidos pelos
sacrilégios contra o meu Salvador. Ingratidão humana, como és monstruosa! Mais
ai! Não tenho eu cometido esse crime enorme? Não tenho nunca recebido o meu
Salvador indignamente? Não tenho nunca abandonado Jesus Cristo por um horrível
sacrilégio às mãos do demônio, que pelo pecado habitava na minha alma, para que
ele fosse o seu brinquedo? Ó Mãe Santíssima, Vós bem sabeis que não obstante me
não lembre de ter cometido um tal sacrilégio, tremo entretanto e estremeço em
pensar que talvez me tenha tornado culpada dele sem o saber. Desgraçada de mim,
se assim é, a minha ignorância, na verdade tornaria a minha culpa menos
monstruosa, mas não a desculparia inteiramente. Ó Mãe amabilíssima, já que Vos
tendes dignado esclarecer-me, não desprezeis ajudar-me a abrandar o Vosso
divino Filho, meu Redentor. Que Ele me conceda a graça de fazer penitência das
minhas culpas passadas, que não mais cometa o enorme crime de sacrilégio, se
nunca o cometi, por que a Deus não agrada.
