terça-feira, 4 de dezembro de 2012

XVII- Acerca da confissão sacrílega

Nota do blogue: Meu agradecimento à Débora por essa transcrição. Deus lhe pague, minha irmã.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula

P.S: Especial, em andamento formiguinha, AQUI.

Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917


I. Considera, ó Minha filha, o grande mal que se comete ocultando as culpas em confissão. De quantos infelizes se ri o demônio que põe em campo todas as manhas para os perder eternamente! O temor e a vergonha que experimenta naturalmente aquele de que a consciência não está pervertida, tendo de abandonar-se ao pecado, inspira-lha Deus para a impedir de ceder à tentação. Mas a sede ímpia do prazer, a confiança de que facilmente se poderá fazer penitência, que facilmente se obterá o perdão de Deus, são artifícios diabólicos pelos quais o demônio se aplica a dissimular o horror do pecado e impelir as almas para o precipício. Num tal perigo, que fazem tantas desgraçadas? Atraídas e seduzidas pela enganadora suavidade que lhes apresenta, desprezam a voz de Deus. Fazem calar a consciência, e aproximando dos seus lábios a taça envenenada, fogem das mãos de Deus para se lançarem nos braços do espírito maligno que as seduziu. A conveniência, a ordem de seus pais, o respeito humano, obriga-as a confessarem-se; fazem-o, mas, ó Deus! Não é de modo nenhum para se purificarem de suas culpas, é para cometê-las maiores. Um pecado já cometido leva-as a outro, e o abismo arrasta-as para outro abismo mais profundo. Então, essa vergonha que devia ser-vir-lhes de freio, inspira-lha o demônio a fim de que ela seja para estas desgraçadas um obstáculo invencível que as impeça de declararem as suas culpas, cometidas com a esperança de confessarem-se delas. Daí provém que muitas vezes, são inúteis os esforços do ministro sagrado para levá-las a uma confissão sincera; inúteis são os remorsos e as luzes que lhes comunica o Seu divino Filho; inúteis são os incentivos da graça divina. Teimam no silêncio, e depois de estarem tornadas rebeldes pelo pecado, tornam-se sacrílegas profanando o sacramento da penitência. Oh! Minha filha, quantas cristãs indignas não tenho visto que, por esta mal entendida vergonha, tem trocado em instrumento de condenação um sacramento instituído para a sua salvação. Será tu do número? Pensa nisso detidamente.

II. Considera além disso, ó Minha filha! O precipício cada vez maior onde as arrasta o demônio depois de lhe ter feito cometer esse sacrilégio. Persuadindo-as que confessar então um pouco mais ou menos as culpas é a mesma coisa, excita-as a enodoarem-se sempre de novos pecados. As desgraçadas caem demasiadamente neste laço. Mas quando poderão realizar a sua esperança? Será quando as suas iniqüidades tenham crescido sem medida? Quando a alma estiver incapaz de se pôr a caminho da salvação? Quando o excesso das suas culpas lhes cegar a inteligência, endurecer o coração e perverter a vontade? Ai! As desgraçadas não refletem que a vergonha aumenta à maneira que aumentam os pecados, que talvez então lhes falte a graça de que carecem para bem se confessarem, que Deus lha recusaria indignado pelo desprezo que por ela tiveram quando lha oferecia: que, cortando-lhes dum golpe o fio da vida, as precipitará na perdição. Ó Minha querida filha, quantas têm sido arrastadas ao inferno por essa falsa confiança! Esperavam poder vencer um dia a vergonha de se confessar, mas esse dia não chegou. Em seu lugar veio o dia do Senhor para as punir como merecia o seu horrível sacrilégio. Algumas lisonjeavam-se de obter misericórdia por meio de grandes penitências sem passar pela dura obrigação de confessar os pecados de que tinham tanta vergonha; mas Deus é constante nos Seus decretos, ó Minha filha! Quem quer alcançar o perdão das suas culpas, deve-as confessar; tal é a Sua lei. Não quiseram observá-la e condenaram-se. Por seu exemplo, ó Minha filha, aprende o que te espera, se como elas te deixares enganar pelo demônio.

III. Para venceres a vergonha, considera que confessas as tuas culpas a um homem formado do mesmo barro que tu, capaz das mesmas culpas, e obrigado por conseguinte a condoer-se das tuas fraquezas. É-lhe imposto um silêncio sagrado que não poderá nunca violar, embora seja ameaçado de morte. Nada poderá causar-lhe admiração de tudo quanto lhe digas para manifestar a tua consciência. Pensa que, se a vergonha te faz guardar silêncio, os pecados que não tiveres acusado a teu confessor serão revelados em face do mundo inteiro. Então o teu confessor os conhecerá, mas sem poder perdoá-los. Serão conhecidos por teus pais, tuas amigas e tuas companheiras. Qual não será a tua confusão, ó Minha filha! O que é vergonhoso é cometer os pecados e não os acusar. Mas dize-Me: se tu estivesses segura que o teu confessor conhecia de antemão todos os teus pecados por uma graça privilegiada, como Deus se tem dignado conceder a alguns dos Seus servidores, terias vergonha de os declarar? Não o creio. Reanima a tua fé; esse ministro sagrado ocupa o lugar de Deus, e Deus não sabe já tudo? “Sim, eu seu tudo, te diz Ele pelo seu profeta, e tenho visto tudo quanto tens feito na espessura das trevas, tudo quanto está revolvendo-se na mais obscura profundidade do teu coração e do teu espírito.” Figure-se-te pois que te acusas, não a um homem, mas a teu Deus, e vencerás toda a vergonha. Doutro modo, perante o tribunal de Deus, que ouvirás tu, ó Minha filha? “Tu julgavas ocultar-Me os teus desvarios como os ocultares ao Meu ministro; enganas-te. Vou agora lançar-te em rosto todas as tuas torpezas.” Ah! Pensa bem nisso! Este pensamento dar-te-á forças para venceres tão funesta vergonha.

Afetos. Reconheço, ó Mãe Santíssima, que é preciso ter uma alma orgulhosa, rebelde às vontades divinas e iludida pelo demônio para se obstinar e ocultar as suas culpas na confissão. Ai! Não as confessando com arrependimento e sinceridade, poderei fugir à condenação eterna? Ocultando-as ao confessor, poderei ocultá-las igualmente a Deus e impedir que no derradeiro dia não sejam manifestadas a todo o universo para minha eterna confusão? Ah! Longe de mim, pois nesse santo tribunal todo o rodeio e toda a duplicidade, porque se não pode enganar Deus. Longe de mim toda a vergonha desarrazoada. Ah! Corarei de ter ofendido o meu Deus, e Vós Mãe querida, e não de fazer conhecer meus pecados. Ó Virgem Santíssima, já que Vos tendes dignado iluminar-me com tão vivas luzes e conceder-me tão salutares conselhos, dignai-Vos ainda alcançar-me a força de cumprir os meus deveres neste ponto. Que eu tenha das minhas culpas tão verdadeiro arrependimento, que possa purificar a minha pobre alma e obter de Deus um completo perdão.
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