quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

VIII - O Julgamento Particular

Nota do blogue: Muito obrigada por essa transcrição, grande Alexandria Católica e parabéns pelo edificante blogue!

Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917



I. A morte afrontosa do pecador, ó Minha filha, horroriza todas as almas que têm fé, temor de Deus e desejo da sua eterna salvação; mas o julgamento que segue imediatamente à morte, não é menos temível nem medonho. Medita-o, pois e aprenderás o que deves temer, se não és fiel às obrigações contraídas com teu Deus. Que horrível surpresa para uma alma culpada, ver-se transportada; num momento ao meio do imenso oceano da eternidade, pobre, nua, abandonada de tudo, exceto dos seus pecados; forçada a apresentar-se perante o tribunal de Deus Todo Poderoso, onde as intrigas, as mentiras, o embuste e a fraude nada podem, de onde são excluídas as proteções e as considerações humanas, onde tudo é punido ou recompensado conforme os rigores da justiça, onde é preciso prestar conta mesmo de uma palavra inútil, onde nada pode escapar ao olhar penetrante de Deus! De que terror ela será atacada vendo-se de repente perante um Deus irritado por tantas culpas, prestes a pronunciar a sentença que vai decidir da sua sorte durante toda a duração dos séculos eternos! Todos os seus crimes, todos os seus erros, se lhe apresentarão no pensamento e não lhe permitirão defender-se, desculpar-se ou escusar-se. Presentemente a mocidade desenfreada vive loucamente, ri-se de Deus, não teme as suas ameaças, não se assusta dos seus castigos, não se espanta dos seus julgamentos; mas nessa terrível transformação de cena, a ilusão desaparece, e não lhes resta mais que o terror e o desespero. A alma então amaldiçoa os seus vícios, as incredulidades, a libertinagem, os prazeres, Oh! Como ela quereria voltar à terra para reparar o mal feito! Mas todo o desejo do ímpio expiraria nesse momento. É tempo ainda, Minha filha, prepara-te de modo a não teres de corar nesse dia de pavor por tua eterna e irreparável condenação.


II. Para aumentar o terror da alma pecadora, ó Minha filha, à vista do Divino Juiz, unir-se-á à dos monstros horríveis que rodearão aquela alma. Os demônios alegrar-se-ão de vê-la entre as suas mãos, escarnecê-la-ão e triunfando dos seus males lhe mostrarão o inferno dizendo-lhe: Descerás lá embaixo para seres vítima eterna do nosso furor. — Que viria a ser de ti, ó Minha filha, se caísses numa igual desgraça? Como estremecerias de horror vendo debaixo de ti o inferno dilatar os seus abismos para te absorver, e as suas chamas implacáveis arremessarem-se para ti como impacientes de te devorar; avistando nele tantas outras almas já precipitadas, arder e desesperar-se nesses fogos eternos; ouvindo, urros, gritos, frêmitos, blasfêmias execrandas! E se por entre essas almas houvesse uma que tivesses escandalizado durante a vida e para a qual os teus maus exemplos tivessem sido como uma pedra de tropeço? Oh! Como ela clamaria vingança contra ti, amaldiçoando-te e sobrecarregando-te com imprecações. Que visão seria a teus olhos, ó Minha filha, a presença do Divino Juiz, pondo em evidência a retidão da Sua justiça e a enormidade das culpas cometidas contra Ele! Com a indignação nos lábios e com uma voz mais terrível que o trovão chamar-te-ia a prestar contas da tua vida e gelar-te-ia de terror. O demônio, levantando-se orgulhoso, recordar-te-ia os crimes que tivessem manchado a tua vida e, pedindo-te ao Divino Juiz como uma vítima que lhe é devida, acumular-te-ia de afrontas, de raiva e de desespero. Ó situação funesta que nenhuma desgraça sobre a terra pode igualar! Que dizes tu a isso, Minha filha, cem anos da mais rígida penitência não seriam bem empregados, somente para evitar comparecer num julgamento tão terrível e aflitivo?

III. Dá-Me conta, serva infiel e culpada, dirá o Divino Juiz, dá-Me conta de tantas graças que tens desprezado; dá-Me conta da saúde, dos sentimentos, dos bens que te tinha dado; dá-Me conta da beleza, da graça, desses dotes físicos de que tens abusado para o escândalo; dá-Me conta do tempo que te tenho concedido para a tua santificação e que tens desperdiçado cultivando nele a vaidade, os entretenimentos e os divertimentos criminosos; dá-Me conta de todo o bem que tens deixado perder, de tudo quanto tens feito perder aos outros; dá-Me conta de todo o mal que tens cometido e de todo aquele de que tens dado aos outros ocasião; dá-Me conta... Ó Minha filha, que susto, que horror! Ah! Sim, as chamas do inferno parecem mais suportáveis que tais acusações. Mas dize-Me, se por tua desgraça fosses encontrada culpada neste tribunal que responderias tu para te desculpares? Alegarias talvez a falta de luzes. Mas tu ouves prédicas, instruções, avisos de quem te dirige e algumas vezes mesmo meditas as verdades eternas. Talvez falta de graças? Mas se Deus te não pede nada senão que abras a alma para enchê-la da abundância delas? Alegar-te-ás, talvez, que fostes seduzida por más companhias e falsas amigas. Mas porque as escutaste? Te será respondido. Então, ai! Não haveria mais desculpas, mais rodeios, mais pretextos que possam deter a sentença terrível. O Divino Juiz, indignado, dir-te-ia: Vai maldita, vai para o inferno, tu não me pertences mais, já que escolheste durante a vida uma outra divindade. Surda à Minha voz, tem escutado os demônios; que a sorte deles seja a tua. Tu não mais poderias esperar o socorro do anjo da guarda, que desviaria de ti com desprezo; nem o Meu, porque coraria e cobriria o rosto para não te ver. No teu furioso desprezo, bradarias às montanhas que se desmoronassem sobre ti; invocarias a morte, rogando-lhe que te arrancasse a vida ainda mais uma vez; abandonar-te-ias ao poder dos demônios, arremessar-te-ias ao inferno, buscarias nele os abismos mais profundos para ai te ocultares, fosse possível, à vista do teu Juiz irritado. Eis aí, ó Minha filha se te expões a ser condenada, o julgamento que te espera. Se não tremes meditando nesta verdade, tens perdido ou o coração ou a fé.

Afetos. Ó Minha Mãe Santíssima, estremeço de horror, Vós o vedes um gelado susto percorre-me todos os membros quando medito o terrível julgamento de Deus. Quando penso nos meus numerosos pecados, afigura-se-me a cada instante que a maldição divina vai cair sobre a minha cabeça, Mãe querida! Desesperaria da minha salvação se não soubesse que estou sempre coberta com o manto da Vossa poderosíssima proteção. Como eu, estou louca de ter faltado tantas vezes infielmente a meu Deus, por moleza ou respeito humano! Para não corar aos olhos do mundo corrupto cumprindo os meus deveres, não tenho tido horror em expor-me ao perigo de sofrer uma eterna vergonha aos olhos de Deus e aos Vossos! Desgraçada de mim se ao tempo dos meus desvarios Deus me tivesse feito comparecer no seu tribunal! Felizmente que vejo sempre no meu Jesus crucificado um Pai de misericórdia, que, com os braços abertos, me chama junto do Seu coração. Ah! Eu quero sem demora corresponder à Vossa bondade, por meio da penitência. Ergo os olhos úmidos de lágrimas para o meu Bem Supremo, e levando neles e nas expressões que saem dos meus lábios os sentimentos de um coração mergulhado na mais acerba dor, exclamo: — Senhor! Pelas entranhas da Vossa Misericórdia, não me condeneis nesse dia terrível. E Vós, ó querida Mãe, tornai-me propício o Vosso Divino Filho; que Ele escute o grito do meu arrependimento, para que não seja obrigado, quando for meu Juiz, a ficar eternamente surdo aos gritos do meu desespero.