quarta-feira, 28 de novembro de 2012

XI- A eternidade

Nota do blogue: Agradeço muito algumas moças de um grupo do Facebook por me ajudarem com na transcrição desse maravilhoso livro. Meu agradecimento de hoje vai especialmente à Débora por essa transcrição. Deus lhe pague, minha irmã.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula

P.S: Especial, em andamento formiguinha, AQUI.

Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917

 
I-  São horríveis as penas do inferno, mas bem mais horríveis parecem quando se pensa que são eternas. Contando que o inferno seja horroroso, não seria o foco de todos os males e a privação de todo o bem se restasse a esperança de ver-lhe um dia o fim.
Oh! Se os condenados pudessem somente animar-se com o pensamento que anima neste mundo os mais desgraçados; que as suas dores terminarão um dia, ao menos pela morte, quanto este pensamento mitigaria os seus sofrimentos; mas esta consolação que resta aos mais desesperados, não pode aliviar nem diminuir os seus tormentos. Procuram a morte os desgraçados! Mas a morte foge-lhes e despreza-os.
Aqueles que se resignaram voluntariamente a uma total aniquilação, devem, para ali chegar, passar através de dores cem vezes mais cruéis que o inferno mesmo; mas todos os seus desejos são inúteis. A ofensa feita ao Criador, ó minha filha, tem uma maldade ilimitada, porque ela é feita a um Deus duma majestade infinita; o castigo para ser proporcionado à ofensa deve, portanto ser infinito. Como a criatura não é capaz de sofrer uma pena infinita em intensidade, é necessário que ela seja infinita em duração, isto é que seja eterna. Mesmo nos tribunais deste mundo, observa-se esta proporção, e a ofensa feita a um homem do povo.
Mas que são todos os soberanos diante da majestade infinita de Deus? Nada. Assim, todos os castigos e suplícios sofridos no mundo, não são nada em comparação da ofensa feita a Deus. É preciso portanto que o castigo dela seja eterno. Aquele que recusa durante a vida servir a Deus e chegar a ser, salvando-se, objeto das Suas eternas complacências, tornar-se-á, condenando-se, o objeto do Seu ódio eterno; aquele que não quer nesta vida aproveitar as Suas divinas misericórdias, virá a ser no inferno ludribio das suas eternas vinganças.

II- Pensa, ó minha querida filha, pensa qual seria o teu desespero nos teus tormentos, se tivesses a desgraça, a terrível desgraça de te condenares! Chegada lá baixo aos eternos horrores, o desejo natural de sair de lá, conduziria imediatamente o teu pensamento para o termo dos teus sofrimentos; mas, súbito, lembrar-te-ei que aqueles tormentos são infindos. A imaginação aterrada espavorida, dir-te-ia: Depois de mil anos estas portas se abrirão. - Não, responder-te-ia de momento a consciência e a fé. - E depois de cem milhões de séculos, Deus cessará de estar irritado contra os meus pecados?
- Não, não. Passarão tantos milhões de séculos como de estrelas resplendentes há no firmamento, de gotas de água nas ondas dos mares, rios, lagos e fontes, de folhas sobre as árvores, de vergônteas de ervas verdejantes sobre a face da terra. Depois desta infinita sucessão de séculos, que a imaginação não pode compreender, o teu inferno findará? Será sempre como se estivesse em princípio. Ó minha filha, de que desespero te oprimirá este pensamento! Se para chegares a ser rainha do mundo tolerasses sofrer durante cem mil anos aquelas atrozes chamas, qual não seria a tua loucura? Poderia acalmar os teus remorsos mergulhada nesses fogos? Ah! Dirias tu sempre com desespero, por alguns anos de reinado cem mil de inferno! Entretanto, ao fim de dez anos poderias dizer: - Eis aí dez anos de menos a sofrer, e chegará um dia em que não terei mais que dez anos de suplício, mais que um ano, alguns meses, alguns dias, algumas horas, e acabarão. O seu sofrimento, seria grande, mas não seria o do inferno. Sofrer o inferno é sofrer sempre, saber que se não pode cessar de sofrer e não esperar refrigério algum. Que loucura, ó minha filha, se te expusesses ao perigo de cair numa tão horrível desgraça; não por um reino, mas por uma bagatela, uma vaidade, um adorno, um prazer passageiro, um gozo criminoso, para agradar a uma miserável criatura.

III- Mergulhada nesses tormentos medonhos acusarias Deus de injusto por castigar eternamente as culpas de um instante? Mas reflete agora a tua injustiça, pensa que por um prazer momentâneo, por uma coisa vil, desprezas o teu Deus poderosíssimo que te criou, que te conserva, que te remiu, que te acumulou e acumula ainda de benefícios sem número. Para contentares o demônio, Seu eterno inimigo, recusas-lhe a obediência que Lhe deves, calcas aos pés os Seus santos preceitos, e chamá-lO-ias cruel se Ele te condenasse aos suplícios do inferno! Mas que crueldade não é a tua agora quando crucificas em teu corpo o Deus que Se fez homem em Meu seio, e por teu amor deu Sua vida: quando por teus sacrilégios O entregas no sacramento eucarístico às mãos do demônio que habita em tua alma. Chamá-lO-ias mau por se comprazer com tuas dores e teu desespero! Mas qual não é agora a tua maldade continuando a viver no vício, a escarnecer das suas ameaças, a desprezar os seus avisos, os seus convites ao arrependimento? Não, obra só por Sua justiça, e dá a cada um o castigo ou a recompensa que merece. E Eu também, Minha filha, Eu chegaria a teus olhos cruel, injusta, má; no teu desespero farias também rebentar contra Mim as tuas queixas furiosas vendo-Me aplaudir a justiça divina. Mas a culpa seria tua; é que tu não terias correspondido aos cuidados que tomo por ti; é que desprezando os Meus avisos, terias querido perder-te, mau grado Meu, para seguires as tuas paixões. Não poderias pois esperar de Mim, mais compaixão alguma: chegarias a ser para Mim um objeto de ódio eterno; rir-Me-ia dos teus tormentos; calcarias aos pés a cabeça orgulhosa que não tinha querido curvar-se diante de Deus. Ai! Minha filha, por piedade, por tua alma, não obrigues a tornar-se tua inimiga uma mãe que te ama com o mais terno amor. Reconhece as culpas, agora que ainda é tempo de as reparar e toma prudente resolução de não esperar o momento em que o mal seja sem remédio.

Afetos. Ó Mãe compassiva! A meditação destas verdades eternas que Vós me tendes posto sob os olhos, enchem-me de horror. Ó terrível eternidade! Ó insensato aquele que, por um prazer fugitivo, se expõe ao perigo de cair nesse abismo de males? Ó insensata que eu tenho sido até hoje, ousando ofender meu Deus poderosíssimo e terno, merecendo ser punida por castigos infinitos durante toda a eternidade. Cem vezes os meus pecados me têm feito merecer tão horríveis castigos. Oh! Eu tremo! O sangue gela-se-me nas veias! Já vejo abrir-se o inferno para me engolir! Onde achar um abrigo? Ah! Recorro a Vós, ó Mãe compadecente; lanço-me em Vossos braços, horrorizada, trêmula; olho aquela horrível prisão cheia de desesperados. Não eu não quero ir para o inferno! Não, eu não quero precipitar-me lá baixo para blasfemar contra o meu Deus e contra Vós. Ah! Primeiro quero morrer aqui, a Vossos pés. As minhas culpas, ai de mim! Têm demasiado merecido o inferno, mas castigai-me nesta vida. Puni-me neste mundo como pune uma mãe; por que não quero que me castigueis como uma inimiga.