sexta-feira, 30 de novembro de 2012

VII - A morte do justo e a morte do pecador

Nota do blogue: Meu agradecimento dessa transcrição vai para o Alexandria Católica, um grande blogue amigo de apostolado. Deus lhe pague, minha irmã.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula

P.S: Especial, em andamento formiguinha, AQUI.

Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917


I. Tu tens de morrer um dia, Minha filha, e do momento da morte depende a ventura ou a infelicidade da tua eternidade. A tua morte será preciosa perante Deus como a dos pecadores? Interroga a tua consciência, ela te responderá. A morte, ó Minha querida filha, é um eco da vida. É, pois em vão que se imagina bem morrer, quando se leva uma vida má. Uma morte santa é uma graça de tal modo precisa que está acima do merecimento de toda a criatura. Pensa, portanto que gênero de morte fulminará aquele que, durante a sua vida, nunca fez outra coisa senão ofender e ultrajar a Deus. Qual não é a loucura daquele que se excita a engolfar-se nos seus vícios com a esperança de que Deus terá dele misericórdia no momento da morte? Como merecem os pecadores essa graça? É ultrajando Deus por contínuos delitos? Figura-se a esses desgraçados que, pelo abuso atual das graças que Deus lhe concede, merecem a maior de todas, — uma morte santa.
Ó presunção culpabilíssima que tem povoado o inferno de almas regeneradas pelo batismo! Esperavam todos esses infelizes que, à hora da morte, Deus os traria com misericórdia; mas indignado enfim pelos excessos dos seus vícios, tem consentido justamente que a sua culpável esperança seja logo mudada em desespero, ou que, perdendo a vida subitamente, sejam de repente precipitados no inferno. Acautela-te bem, Minha filha, de cair nesse laço insidioso que o demônio te arma para te perder e grava bem esta verdade no coração: — Só pode obter a morte dos justos, que é preciosa diante do Senhor, quem passa a vida em obras virtuosas e santas, ou na penitência das culpas passadas.

II. Para te provar esta verdade de uma maneira sensível, vem, ó Minha filha, vem junto do leito de um dos escolhidos do Senhor, e observa como ele morre. É verdade que, se o olhares somente com os olhos do corpo, vê-lo estendido sobre um leito de dores, e parece-te que a sua morte não difere absolutamente nada da dos pecadores. Não te assustes, porque as dores e os desfalecimentos anteriores à morte são comuns a todos — tanto aos pecadores como aos justos. Cessa pois, por um momento, de o olhares com os olhos da carne; penetra com os olhos da fé nesse coração e nessa alma, e verás sem demora quanto diferem o justo que morre na graça de Deus, e o ímpio que morre abandonado por Ele. O Espírito Santo diz do primeiro que o seu socorro o fortifica por inefáveis consolações, entretanto que sofre exteriormente na carne, Ele não se aflige em pensar que tem de abandonar os parentes e os amigos, porque sabe que não os deixa para sempre; nutre no coração a esperança de torná-los a ver no céu: sabe que os deixa nas mãos de Deus que cuidará deles. A própria morte não o amedronta: encara-a animoso diz como Job:— Tenho a certeza de ver o meu Deus com estes olhos, de O amar com este coração e de O servir com estas mãos; o meu corpo ser-me-á restituído cheio de glória no dia da Ressurreição. — Estes pensamentos fortificam-no. Anima-se a sofrer tudo com resignação e valor para se assemelhar a seu Salvador crucificado, que tanto sofreu por ele. Acusa as suas culpas ao ministro do Senhor e com arrependimento. Recebe em Viático o seu Redentor no sacramento eucarístico e com que afetos de amor! Ouve a ordem de sair deste lugar de exílio e, com que paz, com que tranquilidade! Exala finalmente a alma, o rosto sereno unido a seu Deus, que possui nas mãos em crucifixo e no coração em sacramento. Está morto aos olhos do mundo, mas, aos olhos de Deus, vive. É exalando o último suspiro que começa a sua vida gloriosa e imortal. Ó morte ditosa que se faz lembrar, não com lágrimas, mas com alegria e prazer!

III. Vemos ao contrário a morte do pecador. Nada o consola, tudo o assusta, tudo o tortura: o mal que sofre, o mundo que o abandona, a eternidade que se apresenta sob um terrível aspecto. O pensamento de que deve comparecer diante desse Deus a quem tem sempre desprezado, o faz estremecer. Ai! Esses desgraçados, enquanto gozam saúde, veem a vida como numa longa perspectiva que leva muito longe os seus olhares e as suas esperanças. Mas o véu das ilusões cai no leito da morte. A fé recupera os seus direitos e ilumina com uma luz mais viva a inteligência do pecador. Representando-lhes com toda a força as suas verdades imutáveis, obriga-o a crer, mau grado seu, Mas ai! O desgraçado crê então, como creem os demônios, isto é, para ter medo e tremer.
A consciência, que está extinta desde longo tempo, sufocada pelas paixões, desperta-se subitamente. Vê o Deus das vinganças prestes a cortar o fio dos seus dias e a notificá-lo como um mau servidor perante o seu tribunal. Os crimes sem número que tem cometido durante a vida chegam lhe todos juntamente à memória, semelhantes a torrentes impetuosas, para submergi-lo num abismo de angústias. O demônio, insultando-o por seus males, executa tudo quanto pode para lançá-lo no desespero.
Nesta extremidade, os socorros da Igreja chegam a ser inúteis para este infeliz. O sacramento da comunhão, único que pode reabrir-lhe o caminho da salvação, recusa-o, ou antes, como sempre tem feito, recebe-o sacrilegamente. O Viático da vida eterna não lhe serve senão para firmar a sua eterna condenação. Neste momento terrível, ó minha filha, desgraçado daquele que durante a vida não temia Deus. A ordem dada em nome de Deus pelo padre, àquela alma desventurada de sair do corpo que ela tem idolatrado, é uma espada cruel que a separa do mundo para mergulhá-la no oceano de uma eternidade sem fim. Estorcendo-se, lamentando-se, lançando olhares de desespero, o pecador exala o último suspiro e morre. Ó morte triste, ó morte dolorosa, ó morte terrível do pecador!
Qual será a tua, ó Minha filha? A do justo ou a do pecador? Medita, consulta a tua consciência e ela lhe dirá.

Afetos. Estou oprimida de susto, ó Minha Mãe Santíssima, cora o pensamento da morte e do estado a que o meu corpo será reduzido no túmulo pelos vermes e podridão. É verdade que, pensando que a minha alma, separada pela morte deste corpo corruptível, irá unir-se no céu a meu Deus e a Vós, em uma vida incorruptível e imortal, sinto diminuir o terror que naturalmente me inspira o falecimento. Considerando a morte dos justos, inflamo-me de amor e exclamo muitas vezes: Oh! Pudesse eu ter a morte dos santos! Que a minha agonia seja semelhante à deles! Mas pensando na morte triste e afrontosa dos pecadores, refletindo que tenho merecido cem vezes uma morte igual pela vida culpada que tenho levado meu Deus! De que pavor me sinto atacada!
Ó querida Mãe, socorrei-me, rogai por mim afim de que não caia numa desgraça tão medonha. Para merecer esta graça, tomo a resolução, prostrada a Vossos pés, de viver para o futuro como uma donzela verdadeiramente cristã. Reconheço que por mim própria nada posso, nem mereço; mas Vós ó Mãe muito amável, interessai-vos por uma desgraçada que deposita em Vós toda a sua confiança. Alcançai-me da divina clemência o perdão das minhas culpas passadas; consolidai-me para o futuro no bem. Que eu mereça a morte dos justos e possa, à minha última hora, cheia de confiança, exalar a alma em Vossas Mãos.